Vanessa Gerbelli sobre o desafio de subir no palco em tempos de pandemia: “Foi um alento”

Atriz fala da experiência em monólogo com transmissão online e de se rever em papéis marcantes na TV


07 de novembro de 2020

Foto: Guga Melgar

Assim como muito colegas, Vanessa Gerbelli experimentou um exercício diferente com o monólogo Sombras no Final da Escadaria, de Luiz Carlos Góes, com direção de Amir Haddad, sobre uma atriz que realiza um projeto independente num Brasil que não privilegia a cultura. Durante quase um mês ela apresentou a peça, no Teatro Petra Gold, com transmissão online. Apesar de não poder sentir a energia do público, ela achou interessante o desafio. “Foi lindo! Todos os técnicos se ajudando, super colaborativos, cuidadosos. Tive medo no início e também não me sentia forte nem focada o suficiente. Me sentia enferrujada, mas depois, graças à força do Amir, relaxei, me aprumei e foi um alento”, conta.

Vanessa poderá ser vista de forma remota também, neste domingo, 8 de novembro, às 17h, no premiado espetáculo Quase Normal, dentro do projeto Estamos Aqui com Você, que exibe peças de sucesso filmadas na época em que estavam em cartaz. Os ingressos para o musical, eleito pelo O Globo como um dos melhores espetáculos de 2012, podem ser adquiridos na plataforma Sympla. “Quase Normal era um musical diferente, um drama psicológico cantado, super emocionante. Ganhei três prêmios por esta personagem (Diana Goodman), foi um sucesso inesperado e arrebatador!”, conta. Na entrevista, a atriz também diz como é se rever em reprises como Jesus e Mulheres Apaixonadas, esta última com uma personagem marcante, e fala ainda de idade e de maternidade.

Foto: Guga Melgar

Já teve ator dizendo que fazer peça online não é teatro. O que você acha? Acho que o contato com o público é um aspecto muito importante do teatro. É uma troca fundamental. Mas é o que podemos fazer no momento. Precisamos descobrir essa forma híbrida e exercitá-la. Por exemplo, um texto teatral é diferente de um texto para o audiovisual. Acho que aí está uma chave interessante. O público conseguir absorver um texto teatral vindo de uma câmera... E também quais as possibilidades desta câmera, aí entram os operadores de câmera e diretores de fotografia com sua contribuição criativa e valiosa, para servir a este texto. É algo a ser descoberto e é um longo caminho a percorrer, mas não acho impossível de fazer e nem acho desinteressante. 

O que tirou de aprendizado desse trabalho em Sombras no Final da Escadaria sem a presença física do público no teatro? Eu estava tão contente de ter conseguido levantar um espetáculo ao lado do Amir no meio da loucura que estamos vivendo, que gostei de tudo. Sabe quando você, por algum motivo, ficou impedido de andar e, depois de bastante esforço, consegue dar uns primeiros passos? Foi como eu me senti. Com esperança. 

Acha que esse formato remoto pode ser levado adiante mesmo depois que a pandemia terminar? Seria interessante, principalmente para as pessoas de outros estados do Brasil e para as pessoas que não conseguem ir ao teatro. Recebi o retorno de várias pessoas de outros estados que nunca tinham assistido a uma peça e que ficaram encantados. Acho isso muito, muito bom.

Vanessa no musical Quase Normal, em 2012. Foto: Gustavo Bakr

Em tempos de quarentena, o público pode rever você em vários trabalhos: Novo Mundo, Jesus e Mulheres Apaixonadas. E você conseguiu rever algo? Como analisa seu próprio trabalho? Eu revi algumas cenas, gosto de ver. Eu acho que o trabalho de um ator não para nunca, sabe? Há sempre algo novo no mundo que o artista precisa experimentar. Vejo o meu trabalho como um somatório de aprendizados que tive com aquela equipe, com aquele autor, com aquele público e acho isso maravilhoso. 

Mulheres apaixonadas, sem dúvidas, foi seu trabalho mais marcante na TV. Acha que a história da Fernanda, sua personagem, hoje teria o mesmo impacto ou já nos acostumamos a ver finais trágicos como o dela na vida? Acho que, de lá para cá, a violência foi muito explorada na TV e no cinema. Afinal, é um reflexo do que vivemos, mas penso que foi um trabalho muito bem escrito, dirigido, isso faz toda a diferença.

Aos 47 anos você segue linda. Quais os cuidados que tem consigo? Acha que existe uma cobrança do público e da sociedade, de forma geral, para uma atriz se manter bem? Obrigada! Acho que para as mulheres e sobretudo para as atrizes a pressão é grande sim. A mulher engordar ou envelhecer, passar por uma fase menos exuberante parece que sempre comunica a ideia de “declínio” e não de “amadurecimento”. São conceitos tão diferentes, se você parar para pensar neles... Os brasileiros, sobretudo, lidam terrivelmente com o envelhecimento. É algo para a gente elaborar, como sociedade, sim, com urgência! 

Foto: Guga Melgar

Ter um filho (Tito) de 13 anos em pleno ano 2020, como tem sido lidar com ele com a pandemia? E como é educá-lo diante das questões diárias de preconceitos e corrupção que vemos todos os dias? É dureza, mas conversamos muito. Acho que as crianças de hoje têm um senso muito aguçado de justiça. Quando eu falo sobre algum caso de corrupção com meu filho, ele fica indignado de uma maneira muito diferente da que eu manifestava. Eu não sentia que teria forças para transformar nada, mas a geração deles parece ter. É como eu sinto. 

Em tempo de pandemia, chegou a criar mais projetos que ainda veremos? Eu acabei me dedicando muito à família e à minha saúde. Pretendo continuar com a peça e também voltar ao trabalho na TV e no cinema assim que possível. Estou com saudade.