Welder Rodrigues lembra tumor: “Passa a ver o mundo diferente”

Comediante avalia ainda que o fim do humorístico Tá no Ar é “renovação”


  • 24 de janeiro de 2019
Foto: Globo/Estevam Avellar


Por Luciana Marques

Dificilmente alguém até hoje, já no início da sexta e última temporada do Tá no Ar: A TV na TV, ainda não viu a performance hilária de Welder Rodrigues como o apresentador do Jardim Urgente, Jorge Bevilácqua. “Foca em mim!”, diz ele. Welder nem precisa usar o bordão do jornalista para “focar” nele, tamanho é o seu talento com esse e inúmeros outros personagens também no Zorra e em 23 anos do seu grupo de teatro Os Melhores do Mundo.

Indagado se ficou mais difícil fazer humor nos dias de hoje diante do “politicamente correto”, ele diz que não. “Os Melhores do Mundo fala barbaridades no teatro e a gente está lá todo final de semana”, ressalta. Dono de uma risada bem característica, diferentemente de alguns comediantes que admitem não serem tão bem-humorados fora de cena, Welder conta ter mudado a forma de encarar a vida desde que enfrentou um grave problema de saúde, em 2000. “Comecei a usar aquela palavra que começa com “f...” pra tudo”, diz.

Jorge Bevilacqua (Welder Rodrigues) e João Canabrava (Tom Cavalcante). Foto: Globo/Raquel Cunha

Como você recebeu a notícia do fim do Tá no Ar? 

É a nossa última temporada, mas foi aquela opção de acabar bem o programa. Falar de TV é um tema infinito, você pode falar sobre isso por uns 100 anos. Mas foi um consenso, não de todo mundo, muita gente está a fim de fazer o programa sempre, mas é um consenso de terminar de uma forma legal, para cima. Ele ainda sendo um programa que representa, que tem o que dizer e eu já vi tanta coisa… Tem projeto legal vindo e é isso, renovar sempre é bom.

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Quais as cenas que vem para fechar essa temporada? 

Todo último programa da temporada do Tá no Ar tem um tema, acho que ano passado foi o passado. Já teve um sobre tolerância e o tema dessa última temporada é o fim. E parece que vai ter muito chororô. Mas o fim também é renovação.

Nesse tempo de programa quais seriam as cenas mais marcantes para voce? 

O samba enredo da primeira temporada. Revejam, é uma das coisas mais chocantes que eu já vi, e fazer aquele tipo de crítica uma semana antes dos desfiles é muito punk. A gente sempre acha que não vai ao ar, mas as coisas vão para o ar e é demais. E a gente fica surpreso, porque fala coisas que não são permitidas, e é muito legal a direção da empresa permitir isso.

Como você vê isso da Globo permitir um programa que pudesse zoar ela mesmo? 

Eu voltei para a TV por causa disso. A minha praia é o teatro, tanto que eu faço teatro todo sábado e domingo há 23 anos, nunca parei. Tem um acordo que eu não gravo sábado e domingo, porque no teatro eu estou mais tempo que na TV e vou morrer lá. O que me fez voltar à TV foi a possibilidade de fazer um humor parecido com o que eu faço no Melhores do Mundo (grupo de teatro).

Acredito que hoje não há mais espaço para o humor depreciativo, fácil? 

Não existe humor fácil, eu insisto. Existe o humor engraçado e o humor sem graça. Ele pode ser feito na Praça é Nossa ou no Tá no Ar, e a gente pode rir muito nos dois lugares ou não. Em algum lugar o humor funciona, é humor, mas eu não sou fiscal de piada e não gosto que fiscalizem a minha.

Welder com os colegas de Tá no Ar. Foto: Globo/Estevam Avellar

Você tem uma risada bem característica, é sempre assim bem-humorado?

Eu tive um problema de saúde sério, em 2000, um tumor no fêmur. E aí depois disso eu passei a usar aquela palavra que inicia com ‘f...’ para tudo. Porque realmente nada é importante, o universo está pouco se importando em quem a gente votou esse ano aqui no Brasil, a gente tem que seguir e tentar ser feliz.

Esse problema de saúde fez você reavaliar a sua vida?

Um dia eu estava numa cama do hospital Sarah (referência no atendimento de reabilitação) com a perspectiva de andar ou não. O primeiro médico disse para amputar a minha perna. Aí eu pedi a segunda opinião (risos). Um ali estava eu, um gari e um executivo de uma grande empresa, que tinha sido decepado por uma linha de cerol, e sobreviveu, mas ele não ia andar nunca mais, e eu e o gari íamos voltar a andar. E esse executivo começou a contar o que ele tinha, um apartamente em Paris, um em Nova York... Mas aí ele disse eu trocava tudo para poder ir no banheiro sozinho. E aí você pensa em muita coisa. Coisas simples que a gente faz todo o dia e não para para pensar a importância disso. De a gente estar de conseguir ir ao banheiro sozinho. Fui cadeirante durante muito tempo, e aí você começa a observar o mundo diferente. Isso tudo foi em 2000, fui tratado no Sarah, o melhor hospital do planeta, e é público. O dia em que vocês estiverem deprimidos, dê um rolé lá...



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