Walcyr Carrasco conta histórias de bastidor que você sempre quis saber sobre Êta Mundo Bom!

Autor da trama, fenômeno em sua reexibição, revela inspirações e até surpresas na escalação do elenco


  • 30 de julho de 2020
Foto: Montagem


Por Luciana Marques

Falar de telenovela hoje é falar também sobre Walcyr Carrasco. Ele é um dos autores que mais emplaca sucessos nos últimos anos na Globo, seja no horário das 6, das 7, das 9 ou das 11h da noite. Sua última obra que deu o que falar foi A Dona do Pedaço, no horário nobre. Mas até em época de quarentena, em que as tramas originais da Globo tiveram as gravações interrompidas, Walcyr está emocionando o público, agora no Vale a Pena Ver de Novo, com a reprise da encantadora e divertida Êta Mundo Bom!

A novela tem registrado recordes de audiência. E recentemente, nós batemos um papo delicioso e descontraído com o autor em uma live no nosso Instagram. Na conversa, ele nos fez várias revelações sobre a novela, os seus personagens e o seu elenco. Walcyr admite que tem conseguido ver a sua obra quase todos os dias e, assim como os espectadores, tem se emocionado com sequências como a do encontro de Candinho (Sérgio Guizé) com a mãe, Anastácia (Eliane Giardini). “Eu chorei”, conta.

O autor Walcyr Carrasco. Foto: Divulgação

Nessa fase de isolamente social, você tem se permitido ver Êta Mundo Bom! como um telespectador? Vou contar uma história pra vocês. O meu trauma é minha barriga, há anos eu luto com essa barriga, mas nunca lutei de verdade. Antes da pandemia, fui em dois médicos. Um deles me disse para fazer esteira, subir na esteira todos os dias. Você tem uma barriga que na sua idade vai criar problemas cardíacos, diabetes... Eu ouvi aquilo, entrou por aqui e saiu por ali... Aí começou pandemia e eu disse, eu vou transformar essa pandemia num presente, numa coisa boa pra mim. Eu moro longe de São Paulo, num condomínio de chácaras, pensei, vou ficar aqui, porque sou do grupo de risco. E falei, vou fazer esteira. E qual a melhor hora? Na hora da minha novela. Então eu subo na esteira e assisto a novela com um imenso prazer. Êta Mundo Bom! está me ajudando a fazer e não sentir a dificuldade da esteira. E como eu estou distanciado, eu sinto um enorme prazer, eu me entrego à trama. E o mais engraçado é que eu lembro do que eu escrevi, mas é como se eu não lembrasse porque eu vou vivendo as emoções. E eu chorei, caíram lágrimas no encontro do Candinho com a Anastácia. E tem uma cadeira de massagem que eu ganhei da Elizabeth Savala, que eu sento lodo depois da esteira e vejo o restante da novela. Quando eu estou escrevendo com a novela no ar, eu vejo todos os dias, mas com outro olhar. Presto a atenção no que estão falando, nas críticas, mas agora não tem mais crítica, porque agora deu certo. E como tá dando certo em termos de sucesso eu também tenho falado com alguns atores, a gente troca figurinhas. Converso com a Flávia Alessandra, a Elizabeth Savala, o Eriberto Leão, todos são meus amigos, a gente fala como foi bom, que quer trabalhar junto de novo. Sabe um trabalho abençoado?

Vamos falar de alguns personagens. A gente ama a Anastácia e ela é uma personagem num tom bem diferente do que a Eliane Giardini costuma fazer. E ela está extraordinária, né? Quando eu dei a Anastácia para a Eliane, eu disse, é uma personagem que você não costuma fazer. Mas ela é uma grande atriz, não tem isso para uma grande atriz. Uma grande atriz pega e faz. E ela deu um tom suave, doce, e em geral ela faz umas barraqueiras, ela é boa de barraco. Mas ela fez maravilhosamente a Anastácia.

A Flávia Alessandra viveu um outra vilã sua de trama das 6, a Cristina, de Alma Gêmea. Como vocês conseguiram fazer o público ver uma malvada totalmente diferente como a Sandra? É uma outra nuance. E foi a Flávia mesmo que conseguiu isso. Eu falei, eu queria em Êta Mundo Bom! uma vilã loira, tipo as do cinema de Hollywood, aquelas loiras sensuais, e ela faz uma loira fatal. E ela construiu muito bem as nuances, sempre num tom meio falso, você sabe que ela está sendo falsa.

Quando você começa a escrever, já imagina algum ator em um determinado papel. Por exemplo, em Êta Mundo Bom você já tinha o seu Candinho, a sua Anastácia, a Cunegundes (Elizabeth Savala)... Algumas vezes, a gente tem muito claro quem a gente quer. Outras vezes não. Tinham algumas pessoas que para mim eram muito claras. Por exemplo, eu sabia que a Flávia Alessandra era a minha vilã. A Bianca Bin eu nunca tinha trabalhado, aí a gente fez o convite e ela aceitou. E foi extraordinária, ela realmente puxou o protagonismo para ela com a personagem Maria. Foi muito interessante o caso do Candinho. Eu tinha algumas ideias, aí o Sílvio de Abreu, um grande mestre, falou, Walcyr, você já tem o Candinho? E eu perguntei se ele tinha alguma opinião pra me dar. E ele falou, que tal o Sérgio Guizé? Aí eu disse, o Sérgio Guizé não, ele é carioca. Mas o Sílvio falou, não, ele é da periferia de São Paulo, do ABC paulista, e deve saber fazer o caipira. E eu falei, então vamos apostar no Sérgio Guizé, foi assim. Olha o acerto! Foi uma inspiração que o Sílvio teve, e eu comprei a inspiração dele, também sem ver o Sérgio Guizé fazendo um caipira. Ah, tem outra história, a da Mafalda, Mafarda... A Camila Queiroz tinha feito a Angel, de Verdades Secretas, uma mulher super sensual. O Jorge Fernando chegou e falou, ela pode fazer a caipirinha. E eu disse, não, Jorge, não! Ela fez a sensual de Verdades Secretas. O Jorge não teve dúvidas, botou as trancinhas nela e fez um teste. E ela foi humilde, foi lá e fez o teste. Aí o Jorginho disse, agora você vai ver o teste dela. Eu olhei o teste e falei: “É ela!”. O Jorge me provou, ela vai fazer, Walcyr, vai ser linda, foi uma aposta dele. E eu naquela dúvida...

A trama da Gerusa (Giovanna Grigio) e do Osório (Arthur Aguiar) toca muito o público, de onde surgiu essa inspiração? A história da Gerusa é uma história que aconteceu na minha infância. Era uma vizinha, que era normalista, professora de escola, de 20 anos. E ela morreu de doença de chagas. E aquilo me marcou muito porque o noivo era apaixonado por ela. Então a cerimônia que eu faço na igreja, foi feita e eu assisti. Então agora eu fiz uma homenagem àquela Gerusa da minha infância. Eu sei que anos depois o noivo ainda ia chorar no túmulo dela, a minha mãe me contava.

Essas suas inspirações do universo caipira tem a ver com a sua infância no interior de São Paulo, nas histórias que o menino Walcyr via? Eu nasci numa cidade chamada Bernardino de Campos, muito pequena, ninguém mais da minha família vive lá. Mas quando eu era criança, acho que a cidade tinha 12 ou 15 mil habitantes. Há pouco tempo voltei lá e ela continua com 15 mil habitantes, não se expandiu, é uma cidade lindinha. E é muito perto do campo. Eu saí de lá aos 3 anos para morar em Marília, que hoje é uma cidade universitária. Mas na minha época não era, era uma cidade típica do interior. E tem os tipos caipiras. E eu me identifico muito com o humor da minha mãe, que já é falecida, ela adorava as coisas caipiras, as piadas caipiras. E quando eu era criança, antes de ir para a escola, ela ouvia uma radionovela chamada Jerônimo, o Herói do Sertão, eu acordava com ela ouvindo. Então isso tudo me criou um humor. Eu sou de uma época da música raiz caipira, Cascatinha e Inhana, era tudo muito presente pra mim. E existiam muitos tipos, primos que eram colonos em roças. E tem figuras que eu não repito nas novelas, o leiteiro que todo o dia entregava o leite...

Eu li que você já amava cinema desde criança... Marília não tinha televisão, eu só conheci depois dos 15 anos. E o meu pai amava cinema. A gente ia de quatro a cinco vezes na semana, sabe aquele cinema poeira, que troca todo o dia de filme? A gente ia no mais baratinho. Um dia a gente viu três filmes. Resultado, eu vi todos os filmes da Atlântida e todos do Mazzaropi. Quando eu era criança, o Mazzaropi era um grande empresário do cinema nacional, ele fazia um filme por ano, tinha os seus estúdios, seu público, tinha uma condição de vida boa. E ele era um grande comediante em tom caipira sempre. E ele é sim o pai do Candinho. Eu assisti o filme Candinho, feito pelo Mazaroppi. E o diretor, Abílio Pereira de Almeida, criou uma versão caipira do conto Cândido ou O Otimismo, de Voltaire, de 1759. E nesse livro tem a frase: “tudo o que acontece de ruim na vida da gente é para melhorar”. Isso está escrito há séculos. E eu assisti ao filme Candinho de novo agora, uns três anos antes da novela, e disse, eu quero fazer disso uma novela. Eu levei o projeto e a Globo teve que comprar o script para eu poder usar à vontade. Na história tem o professor Pangloss, que a gente transformou em Pancrácio. Tem também o Candinho, a Cunegundes, que no livro era a protagonista. Mas eu achei que na novela não ia colar para uma heroína. Então eu coloquei uma homenagem no personagem da Savala. Claro que no filme não tem todas as histórias que eu pus, não cabe, fui criando histórias.

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