Vitórias de Áurea Maranhão: “Não tinha grana do ônibus para ensaiar”

Com base no teatro e cinema, ela tem estreia potente na TV como a Ticiana em trama das 9


  • 22 de maio de 2019
Foto: Carlos Neto


Por Luciana Marques

Em meio a poderoso time de atrizes que já brilha há anos na TV, como Fernanda Montenegro, Nívea Maria, Juliana Paes, Jussara Freire, Maeve Jinkings, chama a atenção nestes primeiros capítulos de A Dona do Pedaço, a potência em cena de Áurea Maranhão. Com 15 anos de carreira entre teatro e cinema, ela faz a sua estreia na telinha como a justiceira Ticiana, irmã de Amadeu (Marcos Palmeira). “Ela é uma força da natureza”, define Áurea.

Para a atriz, natural de São Luís, do Maranhão, tudo tem acontecido como deve ser em sua caminhada nas artes. “O teatro me levou ao cinema. E o cinema me levou à TV. Foi um processo natural, orgânico. E se eu me sinto preparada hoje é porque fiz todo esse percurso”, avalia. Áurea, que se define como instintiva e também determinada, vê sabor especial em cada conquista. De família humilde, lembra que, lá no início, fazia longas caminhadas para ir aos ensaios, por não ter dinheiro da passagem. “Foi muita luta até aqui. E sei que ela continua...”, diz.

Além de vivenciar cada momento deste trabalho, ela já prepara-se também para a estreia do seu solo, Mergulho, no segundo semestre. E ainda aguarda o lançamento dos filmes Terminal Praia Grande, da Mavi SimãoAnna, do Heitor Dhalia, e de Mala Preta e Chá da Tarde, nos quais atuou e dirigiu.

Ticiana (Áurea Maranhão). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Como está sendo estrear na TV em pleno horário nobre, contracenando com grandes nomes da teledramaturgia? Eu estou me sentindo muito honrada em participar desse trabalho, por ter tido tantos profissionais incríveis ao meu lado. Eu fui muito bem recebida por todo o elenco, colegas muito generosos e atenciosos. Tenho ao meu lado pessoas que eu sempre admirei e que são verdadeiras inspirações. Esse é um momento que ficará marcado na memória, muito especial. É um trabalho feito com carinho e cuidado. Temos uma história bem emocionante e acredito que o público vai gostar muito.

Como você define a Ticiana? Costumo compará-la a um bicho solto na natureza, ela tem um instinto animal, até mesmo predador. Quando o assunto é a família dela, Ticiana não tem limites, ela não mede esforços para defender os seus. E, com isso, ela ultrapassa muitas barreiras, com atitudes bem questionáveis. Mas tudo o que faz é em nome dessa família, é por seguir os valores que lhe foi passado.

Há algo em que você se identifica com a personagem? Somos muito diferentes. Ticiana é passional demais, tenho a impressão de que, às vezes, ela nem pensa, ela já agiu (risos). Eu sou bem pacífica. Acredito e valorizo o diálogo, uma boa conversa. Como artista, acredito na comunicação como uma ferramenta de transformação. Se eu tiver que buscar uma referência, talvez lá na minha infância, adolescência... Assim como ela, eu brincava com os bichos, estava sempre com o pés descalços, subindo em árvores. Mas para por aí (risos).

Família Matheus: Amadeu ( Marcos Palmeira ), Ticiana ( Áurea Maranhão ), Nilda ( Jussara Freire ), Miroel ( Luiz Carlos Vasconcelos ) e Vicente ( Álamo Facó ).Foto: Globo/João Miguel Júnior

Ticiana teve muitos embates com a Maria da Paz. O que você pode adiantar desta história? Não posso falar muito para não estragar a surpresa. Mas a Ticiana tem um papel fundamental na trama que envolve a Maria da Paz (Juliana Paes) e o Amadeu (Marcos Palmeira). As atitudes dela influenciarão muito o futuro do casal. Ticiana vê Maria da Paz como uma inimiga da sua família e, consequentemente, como uma ameaça. É uma relação tensa mesmo.

Essa novela mostra mulheres fortes, a Dulce, a Nilda, a Evelina, a Maria da Paz, a própria Ticiana... Como é para você também interpretar uma mulher assim, que briga, é determinada, como muitas mulheres hoje em dia, né? Essa é uma história de mulheres fortes. São mulheres protagonistas de suas próprias vidas, que lutam, que batalham e que correm atrás do que acreditam. É claro que cada uma tem sua especificidade. Ticiana, por exemplo, tem atitudes questionáveis, como falei. Mas ainda assim, ela tem uma linha de pensamento, tem uma coerência em cada um dos seus atos. Como mulher, eu fico feliz de ver histórias com personagens femininas tão fortes. Nós, mulheres, carregamos uma força potente dentro de nós.

A trama, segundo o autor Walcyr Carrasco, fala de superação, de que no fim as coisas dão certo. Você se identifica com isso, também precisou lutar muito para chegar até aqui, passou por perrengues? Nossa, acho que todos nós temos que lutar por nossos sonhos. Não é fácil. Eu deixei minha cidade, São Luís do Maranhão, porque queria ser atriz e lá não tinha uma formação na época. Fui estudar na Escola Dramática na USP. Venho de uma família humilde, então, meus pais não puderam me ajudar, apesar de sempre me apoiarem. Tive que trabalhar muito para conquistar o que eu queria. Em determinado momento, descobri que não podia ficar à espera de oportunidades. Eu entendi que eu mesma precisava criar as oportunidades. Foi aí que comecei a produzir minhas performances, a fazer meus filmes. Isso mudou minha vida, me fez ter outro entendimento sobre a arte e o artista. Tenho muito orgulho da minha trajetória. Lá no início, eu não tinha dinheiro da passagem para ir aos ensaios. Ia andando. Hoje eu me vejo com passagem aérea, contratada, indo gravar uma novela. É muito emocionante. Foi muita luta até aqui. E sei que ela continua. Mas ver cada conquista é muito saboroso. E aprendi a viver cada uma delas.

Foto: Carlos Neto

São 15 anos de carreira, acha que o momento para estrear na TV foi na hora certa ou demorou muito? Tenho certeza disso. Sempre fui uma atriz de pesquisa, gosto disso. Depois de fazer muito teatro, eu fui estudar cinema por isso, para me aprofundar, para me trazer novas experiências, novas bagagens. E vejo como todo esse processo foi determinante para estar aqui.

Qual a importância de ter uma base teatral para segurar um papel tão denso assim, numa estreia na TV? No meu caso, foi muito importante. Posso falar da minha experiência. Essa é a minha estreia em TV. E acho que me ajudou muito a experiência no teatro e no cinema. Televisão é um pouco de cada uma dessas artes, uma combinação. Teatro ele te ensina a vivenciar por inteiro cada cena, é um mergulho profundo e que mexe com você da cabeça aos pés. A atuação está em todo o seu corpo. O cinema é tão profundo quanto, mas ele está focado no olhar do ator, na expressão e intenção de cada gesto que é captado pela câmera. E eu sinto que a TV é uma linha que fica entre um e outro. E foi muito especial esse trabalho, muito intenso.

Você navega por vários caminhos nas artes, cinema, teatro, agora TV, também é diretora... Como vê esse momento atual em que a cultura está jogada para segundo plano? Olha, vou ser sincera: é algo que me preocupa bastante. Cultura é a história de um povo. Ela é um bem valioso que temos para nossas futuras gerações. Ao mesmo tempo em que me preocupa, eu tenho uma certeza: nós, artistas, não vamos parar. Estaremos sempre fazendo arte, independentemente dos obstáculos. Digo isso por mim. Sem arte eu não sei viver.

Áurea por Áurea, como se definiria? Pergunta difícil (risos). Eu sou muito instintiva, tenho uma intuição aflorada. E, ao mesmo tempo, sou muito determinada. Eu não esmoreço diante de dificuldade. Se eu tenho algo em mente, eu sigo em frente. É como se eu tivesse uma bússola interna que me direcionasse para o caminho que tenho que ir. E tenho muito apoio das pessoas que eu amo. Cada conquista minha é delas também. Sou pura gratidão a minha família, porque eles fazem toda a diferença nos meus dias.

 

 

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