Tuca Andrada: “Rio está triste, prefeito joga contra a cultura”

Com peça em São Paulo, ator vive o bandido Juarez, em Segundo Sol


  • 15 de agosto de 2018
Foto: Reprodução Instagram


Por Luciana Marques

Um dos mais requisitados atores de sua geração, com cerca de 40 trabalhos na TV, mais de 20 filmes e 25 peças, Tuca Andrada está de volta às novelas – em 2016, ele atuou em A Lei do Amor. Atualmente, vive o bandido Juarez, pai de Narciso (Osmar Silveira), em Segundo Sol. “Assim como ele, sem alternativa, muitos cidadãos do bem acabam caindo na cilada do tráfico”, avalia.

Desesperançoso com o país, o ator, em cartaz com a peça A Visita da Velha Senhora, junto com Denise Fraga, até 30 de setembro, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, mostra-se bastante indignado com a atual situação do Rio.“O prefeito joga contra a cultura. Moro aqui há 33 anos e nunca vi esta cidade tão triste”, ressalta.

Juarez (Tuca Andrada) e Manu (Luisa Arraes). Foto: Globo/Raquel Cunha

Como você definiria o Juarez

Ele é um ex-banqueiro que foi demitido por corte, e há anos tenta conseguir trabalho e não consegue. Então, ele começa a passar necessidade e acaba entrando para o tráfico. Ele vai se tornando um monstro, endurece com tempo e começa a obedecer as leis do tráfico, que é uma lei dura e que mata.

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Ele é um vilão?

Sem dúvidas. A namorada do filho, a Manu (Luisa Arraes),  é uma ameaça, pois ela é uma drogada, pode abrir a boca, entregar ele, ameaçar os negócios dele. Qualquer coisa que ameace o negócio dentro do tráfico, é eliminado, não tem outra solução.

Acha que existem várias pessoas como o Juarez no Brasil que, por não terem alternativa, acabam indo para um caminho perigoso e ilegal, como o do tráfico?

Esse personagem mostra porque tantos cidadãos de bem acabam entrando para o tráfico. É um país que gente não tem mais alternativa, perspectivas e nem esperança. Então, é muito difícil. Em uma das primeiras cenas dele, ele diz que tentou muito um novo trabalho. Mas, ou ele entrava nisso ou a família dele passaria fome. Isso não é uma desculpa, mas você entende que uma pessoa do bem pode cair numa cilada perigosa como essa. O João Emanuel Carneiro (autor) nunca transforma um personagem num vilão simplesmente por transformar. Ele constrói razões que explicam o porquê essa pessoa é daquele jeito.

Com Denise Fraga, na peça A Visita da Velha Senhora. Foto: Cacá Bernardes

Você enxerga algum lado de afeto no Juarez?

Vejo. Eu acho que ele é super afetuoso com essa família. Ele é super machão, durão, sem dúvidas, mas tem um carinho enorme pela família, tanto que ele entra nessa vida por eles. Ele quer proteger. Realmente ele puxa a arma para o filho, porque o menino mentiu para ele duas vezes, roubou ele. É uma decisão horrorosa para um pai fazer isso com o filho. Mas, é o que eu disse, quando você está nessa vida não existe muito espaço para a humanidade. Ele vira um monstro.

Você é pernambucano, como ficou a questão do sotaque baiano?

Eu venho com uma mistura de sotaques. É mais fácil pra mim o sotaque pernambucano. Eu estou numa consultoria com os baianos da novela. Tem muita coisa de Pernambuco que eu boto no meio sim.

Como é para o ator entrar em uma novela no meio da história?

É difícil porque a novela já está engrenada. Vai muito bem no ar, a história do personagem já começou na verdade. A partir do momento que entro, isso cria uma certa facilidade. E como o texto do João Emanuel é bem alicerçado, ele te dá muitas dicas de quem é o personagem, com pouco texto ele te dá uma visão. Não é fácil pegar a novela já em andamento, mas, ao mesmo tempo a gente tem uma base muito grande. E como a novela já está bem aceita, fica mais fácil.

Foto: Reprodução Instagram

O que você estava fazendo quando recebeu convite para fazer a novela?

Me pegou de surpresa porque eu estou em turnê com a peça A Visita da Velha Senhora, junto com a Denise Fraga. Vai fazer um ano que está em cartaz. É bem puxado pra mim, mas não paro, não tinha como sair da peça, eu protagonizo junto com ela.

Você já tinha trabalhado com a Ingra Lyberato?

Não. Com nenhum dos atores do meu núcleo. Está sendo maravilhoso, a Ingra é uma graça, super doce, ela quer fazer e acertar, e isso é fundamental num trabalho. Voltei a contracenar com a Giovanna Antonnelli também, fizemos juntos da Cor do Pecado. E foi em uma novela do JEC também.

Você nunca parou de fazer teatro, e o Rio está passando por uma crise forte na área cultural. Como vocês atores tem driblado isso?

Nunca parei mesmo. É difícil fazer teatro no Rio, vejo amigos tentando levantar produções aqui e é muito complicado. Além da cidade e do estado estarem falidos, o prefeito joga contra a cultura. Eu moro no Rio há 33 anos e nunca vi a cidade tão triste como está hoje. As ruas estão sujas, sem policiamento, os hospitais um horror. A gente sabe que existe uma péssima administração, e faço questão de deixar aqui publicamente minha opinião.



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