Tony Ramos: “Sou um senhor! Envelhecer é uma dádiva”

Ator celebra Tempo de Amar e diz como resguarda vida privada em 50 de carreira


  • 06 de março de 2018
Foto: Globo/João Miguel Júnior


Por Redação

O tempo passa e Tony Ramos, aos 69 anos, continua sendo aquele “monstro” na arte de atuar, e fora de cena também é o mesmo gentleman de sempre. Seja no trato com os colegas, com a imprensa, os fãs. Então, bater um papo com ele, além de ser um prazer, é uma aula de história da dramaturgia e de experiência de vida. Cresci respeitando as mulheres, a vida, cada um de nós e o tempo dentro da gente, diz ele.

Com 52 anos de singular carreira, mais de 80 trabalhos na TV, 17 no cinema e 13 no teatro, Tony é um apaixonado pela profissão. Tanto que termina mais um trabalho, como o José Augusto, de Tempo de Amar, vibrando com o resultado, elogiando a troca com a nova geração e com colegas de longa data, como Regina Duarte.

Nesta entrevista, como sempre, o ator não foge de nenhum assunto. Fala abertamente sobre o seu lado mais conservador, de não falar palavrão e do casamento de 48 anos com Lidiane Barbosa, e também do moderno, como por exemplo, de apoiar os transgêneros e as relações homossexuais. Mas lamenta a situação “enferma” que o Brasil se encontra, e se diz decepcionado com a esquerda, a direita e toda a área política.

Com vocês, nosso eterno galã Tony Ramos!

Foto: Globo/João Miguel Junior

"O fato é que não complico para viver. Vou vivendo na paz de Deus, faço meus exercícios, não por vaidade. Minha vida é muito simples, mesmo que a profissão exale um certo glamour, mas para mim nunca houve nenhum glamour."

Como está sendo para você essa reta final da novela?

Esse é um trabalho que vem caminhando há algum tempo. As pessoas pensam que começou ontem, para mim começou lá atrás quando fui convidado pelo Jayme Monjardim (diretor artístico). Ainda estava com Vade Retro no ar, e aceitei porque a história é linda, e tem parte do argumento central que é verídica. E combinando com o grande escritor que é o Alcides Nogueira, um dos mais premiados autores teatrais. O diretor, aquele cuida da imagem tem que ter uma visão muito clara de cada período que a história retrata e o Jayme tinha essa consciência, e eu nunca havia trabalhado com ele mesmo o conhecendo há 35 anos. O balanço foi o mais positivo possível.

Como tem sido a repercussão entre o público, sente esse feedback?

As pessoas falam sobre o bom gosto da novela, nos abordam na rua, na fila do cinema, falam da beleza dos tratos de família, os erros de um chefe de família como é o caso do meu personagem e a chance que ele teve de se redimir ou não, pois ele é um homem conservador. Isso foi importante da formação do elenco, e fui eu quem levantou isso na primeira reunião, pois precisávamos esquecer que estávamos em 2017, e nos localizarmos em 1927, ano em que começa a história. Não podemos como atores ter um olhar meramente crítico por exemplo com o que meu personagem fez de mandar a filha para um convento, e doar a neta para adoção. Essa é uma grande agressividade nos tempos de hoje, mas naquela época era muito comum.

Com Vitória Strada, em Tempo de Amar. Foto: Globo/Marília Cabral

O José Augusto passou por essas fases de se assemelhar a um vilão e acabou se redimindo de seus erros. Como foi para você essas cenas que ele pede perdão à filha?

É interessante essa virada, mas, ao mesmo tempo o escritor já nos perguntava: ‘O que é um vilão de fato?’. Estamos muito acostumados com o vilão psicopata. Fiz um em A Regra do Jogo, um homem que deve ter tido uma infância horrorosa ou nasceu com aquela índole ruim. O Zé Maria era assim, se mascarava para cuidar dos filhos, mas fazia coisas desesperadoras. Em Tempo de Amar, essa vilania aos olhos do público é algo como: ‘Meu Deus, como tem coragem de fazer isso com a própria filha?’. Esse é o raciocínio de hoje. Muitas senhoras com quem conversei que têm 90 anos, e até minha mãe disseram: ‘Isso é triste, mas conheço pelo menos uns três casos como este no interior de São Paulo’. 

"Não podemos como atores ter um olhar meramente crítico, por exemplo, com o que meu personagem fez de mandar a filha para um convento, e doar a neta para adoção. Essa é uma grande agressividade nos tempos de hoje, mas naquela época era muito comum."

Mas também houve as cenas engraçadíssimas com a Regina Duarte, que interpreta a Lucerne...

Ela não sabia que aquele português não era um ‘pato’. O reencontro com Regina dispensa qualquer comentário. Minha querida companheira, amiga, uma atriz que é um ícone da história da televisão brasileira. Nossa reunião foi um exercício de atores, houve até mesmo uma citação à Rainha da Sucata quando ela fala em Laurinha Figueiroa, e houve ali uma metalinguagem do Alcides Nogueira, que foi coautor de Rainha da Sucata junto com o Silvio de Abreu. A história aconteceu da maneira que tinha que acontecer. Ela teve uma vida dolorosa, e foi muito bonito. Foi um reencontro de muito humor e tivemos tanta sintonia que não precisamos sequer repetir nenhuma cena. Todas foram feitas de primeira.

Em Grandes Sertões Veredas, de 1985. Foto: Globo

Mesmo com tantos anos de carreira, o senhor ainda é visto como um galã. Como lida com esse rótulo?

Eu sou um senhor, a coisa que mais gosto na vida é de assumir a minha idade, porque nunca tive crise. Não tive aos 30, nem aos 40, 50, 60 e não vou ter aos 70. Sou muito grato a Deus, e respeito quem não acredita. Fui criado por uma mãe que era separada de meu pai, e imagine como era isso nos anos 60, era como um palavrão e ela foi forte e lidou muito bem com isso. Ela sempre me criou dizendo que a vida é libertária e os homens é que a tornam proibitiva. Cresci respeitando as mulheres, a vida, cada um de nós e respeitando o tempo dentro de nós. Nós vamos envelhecer e envelhecer é uma dádiva. Adoro a novela O Outro Lado do Paraíso, e fico muito feliz ao olhar para Lima Duarte, Laura Cardoso, Fernanda Montenegro, Ilva Niño, porque é uma benção estarmos em pé e trabalhando com a permissão de Deus. Quando Laura fez 90 anos, telefonei para ela e fiquei emocionado porque comecei junto com ela. Às vezes a gente se olha no espelho e não aparenta ter a idade que tem, não aparento ser um setentão, mas sei que tenho e não vou negar essa passagem do tempo.

"O reencontro com Regina Duarte dispensa qualquer comentário. Minha querida companheira, amiga, uma atriz que é um ícone da história da televisão brasileira. Nossa reunião foi um exercício de atores."

Então, o senhor tem lidado muito bem com o passar dos anos?

O fato é que não complico para viver, sou muito naturalista para comer, isto é, como naturalmente tudo. Vou vivendo na paz de Deus, faço meus exercícios, não por vaidade. Minha vida é muito simples, mesmo que a profissão exale um certo glamour, mas para mim nunca houve nenhum glamour. Glamour para mim é entrar no meu carro e voltar para a casa, ouvindo a CBN na hora do esporte, batendo papo comigo mesmo, chamo minha esposa para jantar. Claro que quem deve estar lendo, vai pensar: ‘Ah, tá, que é assim’. Não é assim, para ficar assim leva-se um tempo, um exercício de toda uma vida. Não podemos parar de nos exercitar intelectualmente, humanisticamente e politicamente.

Em Baila Comigo, 1981, com Fernando Torres. Foto: Globo

Com tantos anos de vida pública, o seu nome nunca apareceu em nenhum tipo de fofoca, escândalo. Como conseguiu se manter assim, sem ninguém invadir sua privacidade?

Realmente, ninguém invade, mas isso é fruto de um acordo tácito entre a imprensa e eu. Nunca me furtei a nenhuma pergunta, mesmo em momentos mais difíceis. Sou rápido, e nunca compliquei essa relação, mas também nunca facultei publicamente o meu cotidiano a ninguém. Saio com minha mulher, com meus netos, os fotógrafos já me fotografaram inúmeras vezes, e minha vida continua sendo normal fora de casa. Dentro de casa, ela não está aberta à visitação pública. Como não tenho rede social, e falo isso com muito cuidado para não ofender a quem tenha, nem estou dizendo que estão errados aqueles que têm, mas esse não é o meu perfil. Viajo muito com minha mulher, em lugares que as pessoas nunca pensaram em ir, e fotografamos tudo, mas para nós dois. Não coloco na rede.

"Saio com minha mulher, com meus netos, os fotógrafos já me fotografaram inúmeras vezes, e minha vida continua sendo normal fora de casa. Dentro de casa, ela não está aberta à visitação pública."

Hoje, em 2018, o senhor se considera um homem mais moderno ou conservador?

Sou um homem absolutamente do seu tempo. Era um jovenzinho nos anos 60, querendo amadurecer nos anos 70, já maduro nos anos 80, maduríssimo nos anos 90, inteiro e pronto para a velhice nos anos 2000. Mas sempre atentando para o que é a vida. Nunca criticando de primeira aquilo que via. Hoje sou conservador em várias coisas, e não tenho medo de dizer isso. As pessoas entraram numa viagem, como se diz hoje numa ‘vibe’, prefiro a palavra ‘vibração’, porque nossa língua é muito mais bonita que a inglesa. Sou conservador por não falar palavrão em público por exemplo, mas não deixo de ser autêntico por isso. Temos que tomar certos cuidados pois a TV é uma concessão pública. A minha mãe está assistindo e tem um pensamento, a senhora do apartamento ao lado tem outro, e se não nos atentarmos para isso estaremos violentando com a individualidade de cada um. Posso ser conservador nesse sentido, na minha relação de afeto com minha esposa também por não nos expor, mas sou absolutamente moderno, franco, livre, e com carinho com os novos avanços dos transgêneros, relações humanas que o homossexual tem e precisa se afirmar. Se é para falar dessa modernidade, estou muito identificado com ela. Não sou de me exibir com beijos e abraços em lugares público, posso dar uma bitoca na minha mulher, mas não beijos cinematográficos, e isso serve para qualquer gênero sexual. Somos índios, somos tribais, e temos que entender e respeitar cada um. Na sua privacidade é diferente, mas publicamente não temos obrigação de ter a chamada ‘melancólica’ autenticidade.

Com Irene Ravache, em Guerra dos Sexos, em 2013. Foto: Globo/João Cotta

Como está o Brasil, na sua opinião?

Está triste, enfermo, desesperado por uma segurança maior, emprego, educação. Sempre vou voltar ao assunto educação. Um país sem educação não pode se chamar de nação. Mas é que sempre sonhei com a educação, 7h30 da manhã criança na escola, alguém buscando ou condução pública às 4h da tarde, com essa criança tendo seu tempo preenchido, música, teatro, trabalhos manuais, e 1h por dia para repor a matéria. A criança sairia plena da escola. Esse é um pequeno sonho que tenho. Será que vou ver isso um dia? Não sei. Mas meu Brasil é triste, porém esperançoso. Sou um incorrigível otimista. Você nunca me verá em palanques políticos. ‘Por quê? Está em cima do muro?’. Às vezes, estar em cima do muro é melhor para observar para qual caminho não ir ou para que lado ir. Na verdade, estou muito decepcionado com esquerda, direita, com tudo. Quero um país que se renove, e reflita sobre ele mesmo, mas isso cabe à nós, e não só aos políticos. Tenho muita confiança nesses novos juízes que estão botando o Brasil a limpo, e tenho esperança em gente que faça uma limpeza e que façamos essa autocritica. Não abro mão do meu otimismo. Sou brasileiro, não tenho casa fora, é aqui que vivo, é aqui que meus netos estão vivendo, aqui que trabalho. Já pensei em ir morar fora, mas da boca para fora, a sério nunca pensei.

O senhor teve vários reencontros em cena com atores experientes, mas como tem sido trabalhar com essa nova geração?
 

Uma geração muito boa por sinal. Olhe a Vitória Strada gente, ela não veio para brincar, ela veio para ficar. A Olívia Torres, fez cenas essa semana que me comovi muito. O Bruno Ferrari com quem não trabalhei anteriormente, é um belíssimo ator, consciente e inteiro. O Bruno Cabrerizo, que tem uma história de 14 anos na Europa, e ontem encerrou o capítulo com aquele olhão enfrentando o Ferrari. É uma turma jovem de primeira. Todas as meninas, a gente encontrou uma turma primorosa.

"O Brasil está triste, enfermo, desesperado por uma segurança maior, emprego, educação. Estou muito decepcionado com esquerda, direita, com tudo. Quero um país que se renove, e reflita sobre ele mesmo, mas isso cabe a nós, e não só aos políticos."

Com a mulher, Lidiane Barbosa. Foto: Globo/Marcio de Souza

Muitos falavam que nessa era de plataformas digitais, como Netflix e outras, as novelas iriam acabar. Mas outro dia o Lado do Paraíso chegou a quase 50 pontos de audiência. Como o senhor vê isso?

Eu deixo falarem. O Outro Lado do Paraíso está com média 43. Desde a década de 1970 as pessoas estão anunciando o fim da telenovela, e olha que nem nos Estados Unidos, a telenovela acabou. O TV Guide é a maior bíblia da TV americana. Entre lá no horário das novelas, não é o horário prime time, é um horário mais cedo. Existem novelas lá que estão há 20 anos no ar, como General Hospital, Days Of Our Lives, e lá também tem Netflix e outros vários serviços, e mesmo assim a telenovela continua. Tendo uma boa história, não há quem não veja. O que vai melhorar com os novos serviços de streaming ou de pré-gravações, é a possibilidade de ver a hora que quiser. O mercado vai se regulando às mudanças. Vai mudar o jeito de ver novela, a duração, mas ela não acabará. Vem aí Onde Nascem os Fortes, uma supersérie com direção do José Villamarin, e sei que vai vir algo brilhante de 60 capítulos. O que regula é roteiro, porque quando você entra na Netflix, têm coisas maravilhosas, mas também têm coisas muito ruins. Se querem decretar o fim da novela, estou esperando desde 1972.

 



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