Silvero Pereira: "Me vestir de homem ou mulher, eu decido. O caráter não está na roupa."


  • 05 de novembro de 2017
Foto: Divulgação


Por Davi Somar

Um debut na TV de pé direito. Como o motorista Nonato no horário útil, para sobreviver e, à noite, como a transformista Elis Miranda de A Força do QuererSilvero Pereira lacrou na telinha e provou que veio, viu e venceu. E ainda arrasou em eventos, como o Criança Esperança, quando substituiu Pabllo Vittar e  cantou com trajes femininos e o cabelão todo cacheado. "Me vestir de homem ou mulher, é decisão minha. O caráter não está na roupa".

Enfim, vim, ver e vencer é uma rotina em sua vida artística há 15 anos, desde que fundou em Fortaleza (CE) o Coletivo Artístico As Travestidas que, através do teatro e da dança, mexe com a cabeça das pessoas sobre as questões da sexualidade que vão muito além da heterossexual.

"Apesar de defender e achar importante a sigla LGBT (além de gays, engloba bissexuais, travestis, transexuais e trouxe o L, de lésbica) para a sociedade entender as pessoas, não vejo necessidade de me rotular dentro do movimento. Espero, acredito mesmo, que um dia ninguém precise mais de rótulos. Enfim, que a gente viva numa sociedade menos machista", diz ele.

Com o fim da novela no dia 20 de outubro, e a peça BR Trans, no Teatro Maria Clara Machado, no Rio, em 29 de outubro, Silvero se prepara para divar no carnaval de 2018. Ele estreia como destaque na Mocidade Independente de Padre Miguel, que traz para o Sambódromo carioca o sugestivo enredo Namastê a estrela que habita em mim saúda a que existe em você, e que em um verso do samba exalta: "...pela tolerância entre os desiguais..." Este cearense arretado de 34 anos caiu no lugar certo. E bateu um papo exclusivo com o Portal ArteBlitz.  

"A xenofobia me machucou mais do que a questão da sexualidade." 

Depois de lacrar em sua estreia na TV, diria que veio, viu e venceu?

Acredito que sim. O trabalho foi além das minhas expectativas, com um resultado muito positivo. Já sinto o cheirinho de quero mais (risos). Foi encantador em todos os sentidos, não apenas pelo sucesso, mas pelo movimento muito afetuoso, todos estavam muito envolvidos.

Como avalia a discussão de gênero em A Força do Querer?

Numa TV aberta, que mistura arte, indústria e entretenimento, a novela tem uma função importantíssima de trazer temas polêmicos para dentro da casa dos telespectadores. Foi o que A Força fez. A trama não vai mudar, não vai resolver a questão, mas ajuda a levantar a discussão.

Já voltou em Mombaça, sua cidade natal, após virar celebridade nacional?

Estive lá quando a novela estava começando. E há dois meses. Foram experiências diferentes. Na primeira, podia andar na rua. Na segunda, com a repercussão do personagem, foi impossível. Fiquei três dias em casa e só saía para cumprir a agenda que tinha nas escolas públicas. Acho importante as crianças se interessarem por um artista da cidade, porque isso cria perspectivas de vida para elas.

"A arte é a grande arma e uma das poucas maneiras de atingir a alma e o coração, e de nos dar a possibilidade de acreditar na humanidade." 

Nordestino de uma cidade de menos de 50 mil habitantes, precisou sair de lá escorraçado como a Tieta para ganhar a vida na capital?

(Gargalhadas) E localizada a 350 Km de Fortaleza! Mas não fui Tieta não. Claro que senti discriminação sexual, mas isso não foi o principal. A xenofobia, no sentido da desconfiança, da antipatia por eu ser pobre, filho de pedreiro e lavadeira, e ter estudado em escola pública e pensar grande, querer ser artista, me machucou mais que a questão da sexualidade.

Você dá uma banana para os xenófobos de Mombaça com que idade?

Saí de lá com 13 anos porque a cidade não tinha mais espaço para a minha cabeça, que sempre foi ligada a arte. Brincava de programa de TV, do Xou da Xuxa, que fez parte da minha infância, do Caça Talentos, da Angélica, na adolescência, do Vídeo Show, e, claro, as telenovelas. Fui para a capital, e no ensino médio tive contato com o teatro, e comecei a dar aula, a contar essa minha história em escolas particulares e em grupos de teatro, até fundar o Coletivo Artístico As Travestidas. Fiquei por lá até 2015 quando começou a ponte Fortaleza/Rio. Nesse período, morei oito meses em Porto Alegre (RS) onde montei o BR Trans, que trouxe para o Rio e serviu de ponte para eu ir para a TV. A Gloria Perez foi assistir e me convidou para a novela. Aliás, de novembro a fevereiro vou circular com o BR Trans pelo nordeste e o sul.

O Silvero tem uma relação tão intensa com a música como a Elis Miranda?

A música é como a dramaturgia na minha vida e em A Força ela foi usada com essa finalidade, como se fosse um texto a ser dito. No dia que cantei Fera Ferida, funcionou como um prelúdio do que ia acontecer com o Ivan (Carol Duarte), na cena em que ele é agredido na rua por pitboys e acaba perdendo a criança que esperava.

"Apesar de defender e achar importante a sigla LGBT (além de gays, engloba bissexuais, travestis, transexuais e trouxe o L, de lésbica) para a sociedade entender as pessoas, não vejo necessidade de me rotular dentro do movimento." 

Já precisou domesticar algum "animal" no seu dia a dia como diz a letra de Fera Ferida?

O tempo inteiro. Desde o jeito de me vestir, de falar, por causa do cabelão que uso há sete anos! A necessidade de mudar as pessoas, é a mesma no Brasil ou na África, no mundo.

Há uma música que diria ser a trilha sonora da sua vida?

Sujeito de Sorte, do Belchior. (Cantarola) "Presentemente eu posso me considerar um ujeito de sorte / Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte".

No nosso momento musical... A Rita Lee compôs Reza que diz "Deus me livre e guarde de você". Poderia tornar-se um hino contra a intolerância, em todos os sentidos, e que é um atraso de vida?

Por que não? A arte é a grande arma e uma das poucas maneiras de atingir a alma e o coração, e de nos dar a possibilidade de acreditar na humanidade.

No cotidiano você usa trajes femininos?

Só para eventos. Para mim é uma ação política, porque não me considero apenas ser artista na TV e no teatro. Sou a todo momento. E não é porque nasceu homem que tem que vestir roupas masculinas. Me vestir de homem ou mulher, é uma decisão minha. O caráter não está na roupa.

Se fosse dar uma festa, que tipo de pessoas não convidaria e não teria o menor pudor de dizer que não chamou porque elas não prestam?

Não convidaria os conservadores, preconceituosos que não têm cabeça para o diálogo. Veja o Eurico (Humberto Martins) as barbaridades que ele dizia ee fazia, mas ele eu convidaria para a minha festa porque o Eurico se preocupava  com o outro. É uma mente conservadora, mas aberta. Essas ainda me interessam. Fora disso, quero distância total!

Falando do que presta. Vai divar no sambódromo do Rio... É a primeira vez?

Como destaque sim, porque este ano desfilei numa ala da Portela. Foi uma experiência muito bonita atravessar a avenida. O convite para ser destaque na Mocidade foi do próprio Alexandre Louzada (carnavalesco), quando o conheci em um evento na quadra. Adorei, porque é uma escola que sempre torci. Agora estou com bala na agulha para ir no barracão.

 



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