Sérgio Malheiros: Desde os 10 anos, representatividade na TV

Ator de Verão 90 diz como atua contra o racismo e vibra com sucesso do casal #dilari


  • 20 de março de 2019
Foto: Globo/César Alves


Por Luciana Marques

Aos 26 anos, no papel do estudante de direito Diego, Sérgio Malheiros vê o personagem crescendo a cada capítulo de Verão 90. Uma das cenas de racismo sofridas pelo jovem na trama que se passa nos anos 90, em um ônibus, inclusive foi compartilhada pelo ator em suas redes sociais. E ele conta que isso o levou para a lembrança de quando tinha 10 anos e interpretou o Raí, na novela Da Cor do Pecado, de 2004.

O menino era filho dos protagonistas Preta (Taís Araújo) e Paco (Reynaldo Gianecchini). “Foi aí que tive o meu primeiro contato com representatividade, porque era tão incomum ter uma criança negra em destaque numa novela”, ressalta. O tempo passou, Sérgio cresceu, estudou e hoje fala com propriedade sobre racismo. E quer aproveitar que é uma pessoa pública para poder mostrar às pessoas as suas ideias. O tema é sempre falado também em casa com a namorada, Sophia Abrahão, com quem planeja ter filhos.

Na entrevista, Sérgio Malheiros comemora também o sucesso do casal #dilari, Diego e Larissa (Marina Moschen). “Existe verdade ali”, fala. A trama, aliás, a cada dia conquista mais o público. Na semana passada, entre 11 a 16 de março, marcou recorde semanal no Rio, com 27 pontos. E em São Paulo, igualou a sua maior marca, 25 pontos. 

 

Foto: Diego (Sérgio Malheiros). Foto: Globo/João Cotta

Qual o balanço você faz da participação do Diego até agora na trama?

A história do Diego é muito bacana. Na verdade, a novela conta a história de personagens buscando o seu lugar ao sol. Cada um tem essa história de transformação, de um lugar que quer alcançar de algum jeito. No caso do Diego, essa transformação pessoal vem através do trabalho social. Ele decide que através do Direito ele vai conseguir fazer a diferença no país de uma forma que vai impactar mais gente. Na faculdade ele acaba conhecendo a Larissa e esse relacionamento muda um pouco as convicções e paradigmas em relação a esse outro mundo que ele ainda não conhece, o mundo que a Larissa frequenta. Eles acabam entrando em choque, mas o amor dos dois vai fazer com que ele enfrente essas barreiras.

 

 

Você acha que por amor ele vai peitar esse preconceito em relação a diferença de classes?

Eu acho que esse preconceito é muito diferente, acho que nem dá para colocar nesse lugar de ser preconceito. O Diego sofre tantas agressões durante o decorrer da vida, assim como todo jovem negro. Principalmente nos anos 90, quando a polícia era muito mais autoritária do que é hoje, ele é um cara que viveu a vida inteira na defensiva. É um cara que está sempre de punho fechado, porque foi assim que a vida e o Estado o receberam. É um cara que nasceu em um mundo adverso, então tem algumas barreiras que para ele são mais difíceis.

Tem a cena do ônibus que ele sofreu preconceito e também no dia da formatura, que ele acaba sendo levado para a delegacia... Como foi para você gravar isso?

Essa cena do ônibus que eu publiquei nas minhas redes sociais me transportou para um lugar muito emocionante. Eu tive um primeiro contato com representatividade quando eu tinha 10 anos e fiz o Raí (Da Cor do Pecado). As pessoas falavam em todos os lugares: ‘Caraca, tem um menino lá na minha quebrada que é a sua cara’. E eu ficava impressionado, porque quando eu era criança eu não conseguia entender muito bem, mas essa identificação quando eu fui crescendo e amadurecendo, me entendendo como homem negro. Eu fui começando a entender porque as pessoas falavam isso. Porque era tão incomum ter uma criança negra em um destaque de protagonismo. Existiam outras crianças negras na televisão, mas nenhuma delas estava fazendo uma cena com o Lima Duarte em um carro de luxo. Esse lugar de representatividade faz parte da minha vida desde que me entendo por gente. Essa interação com o público que as redes sociais nos dão hoje é potentíssima. Causa uma transformação grande no público. Mas cada vez mais eu me sinto responsável pelo meu discurso, porque cada vez mais eu recebo feedback das pessoas que estão ouvindo o que eu estou falando desses temas.

Larissa (Marina Moschen) e Diego (Sérgio Malheiros). Foto: Globo/Victor Pollak

Você já sofreu algum preconceito por namorar a Sophia?

Eu acho muito ruim quando a gente fala de preconceito e coloca a Sophia na mesma frase, porque não é por causa da Sophia que eu sofro preconceito. Eu falei uma vez sobre isso e as pessoas sempre me perguntam sobre preconceito relacionando a Sophia. O preconceito racial está presente na minha vida inteira, o fato de eu ter sido uma criança famosa me blindou obviamente de situações de constrangimento, mas não me blindou do preconceito. O preconceito social está em tudo, desde o momento em que eu acordo e vou comprar alguma coisa em uma loja chique ou cara, até o momento que o produtor do elenco vai escolher para que personagem ele vai me escalar ou vai escalar um ator branco. Eu não tenho como fugir disso e não tem a ver com a Sophia o fato de eu sofrer preconceito.

Como você vê o privilégio de, sendo uma pessoa pública, ter esse poder de fala?

A televisão não me blindou de sofrer preconceito, mas me deu um megafone importantíssimo para divulgar as minhas ideias. Eu tento falar sobre isso o máximo possível, mas eu também fico muito tranquilo. Eu acredito que eu trabalho contra o racismo não só com o meu discurso. Eu comecei a ter capacidade de articulação e pensamento para falar sobre isso agora, mas eu já venho trabalhando contra o racismo desde que nasci. Dentro da família do meu pai que é branco e minha mãe é negra. Quantas vezes minha mãe falou para mim que eu tinha o cabelo ruim? Até a minha mãe e eu, que fui criado dentro de um mundo, de uma atmosfera racista, o racismo está dentro de todos nós. Por muito tempo eu me achei feio por achar que meu cabelo era ruim, eu só andava com o cabelo raspado. Eu só deixava quando tinha algum trabalho para fazer e precisava.

Em 2004, com Taís Araújo, em Da Cor do Pecado. Foto: Globo/Divulgação

Em casa você conversa, reflete com a Sophia sobre esses temas?

Sem dúvidas, a gente fala muito sobre isso até porque a gente quer ter filhos e os nossos filhos vão ser negros, e ela sabe disso. Então é isso é uma pauta muito latente para ela, e a gente fala muito sobre isso e é importantíssimo. Eu uso muito meu megafone tanto em casa quanto na rua para divulgar essas ideias.

Hoje em dia o negro tem mais voz... Onde você foi buscar isso para o Diego, porque você não viveu essa época dos anos 90, né?

Sim! Eu gosto de dizer que hoje a gente tem muito lugar de fala porque a gente tem poder de compra. A gente começou a ficar ligado, a comprar e consumir produtos que valorizem a beleza negra. No capitalismo o maior ato politico é a compra. Eu tento assistir séries com protagonistas negros, filmes e consumir produtos que contratem negros para publicidades. Eu acho importantíssimo, porque o dinheiro e a compra são a nossa maior forma de protestar. Esse trabalho de pesquisa dos anos 90, veio muito de entender como era a vida do negro nesse momento pós-ditadura. Um momento de extrema brutalidade e autoridade policial. Mas a gente estava em um momento em que a polícia tinha muito mais liberdade de fazer o que quiser, sem que nada pudesse acontecer. Eu acho que nesse momento infelizmente a gente está caminhando para um momento mais parecido com o que era. Essa era a principal revolta social dos anos 90 com os negros.

A galera nas redes sociais está vibrando muito com o casal Larissa e Diego. Como você está recebendo isso?

Está sendo muito legal, a Marina (Moschen) é uma atriz extremamente talentosa, ótima para trabalhar, a gente se diverte. E agora tem altas cenas também com o Kayky (Brito), que é meu amigo de longa data, e a gente está se divertindo muito.

Diego (Sérgio Malheiros) e Larissa (Marina Moschen). Foto: Globo/Victor Pollak

Por que você acha que esse casal está sendo tão querido pelo público?

Não sei... Eu acho que é um casal muito honesto. A Larissa é muito diferente dos personagens que cercam o núcleo dela. É uma menina que nasceu nesse mundo, mas tem uma cabeça mais aberta, um pensamento progressista, de certa forma, e isso aproxima ela do Diego. Acho que o público está curtindo porque existe uma verdade na relação.

Você viveu os anos 90?

Eu não vivi, eu nasci em 93. Lembro de pouquíssimas coisas, principalmente da Copa de 98. É a partir daí que eu começo a lembrar. E também foi o momento que eu entrei na Globo, então eu começo a lembrar dos meus primeiros passos na carreira.

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