Rosane Svartman, Paulo Halm e equipe: Os donos do texto primoroso de Bom Sucesso

Autores falam da obra que encantou público ao tornar a literatura uma das “estrelas”


  • 22 de janeiro de 2020
O time de escritores: Felipe Cabral, Paulo Halm, Isabela Aquino, Rosane Svartman, Claudia Sardinha e Fabrício Santiago. Foto: Globo/Camilla Maia


Por Luciana Marques

Pouco antes de Bom Sucesso estrear, muitos críticos desconfiavam se o fato de colocar literatura numa novela no horário das 19h daria certo. Até porque é uma faixa em que comédias românticas imperam, além de vivermos a era das plataformas de streaming em que o público escolhe o que quer ver. E os livros, infelizmente cada vez raros nas mãos dos jovens. Mas Bom Sucesso, de autoria de Rosane Svartman e Paulo Halm com Felipe Cabral, Isabela Aquino, Claudia Sardinha e Fabricio Santiago, veio para provar o contrário.

A dupla de autores de sucessos como Malhação Sonhos e Totalmente Demais, juntamente com a sua equipe, nos brindou com um texto primoroso, delicado e, ao mesmo tempo, potente. Ali, através dos personagens Alberto (Antonio Fagundes) e Paloma (Grazi Massafera), eles mostraram citações de clássicos, desde Cyrano de Bergerac, Otelo, O Primo Basílio, e o público embarcou de tal forma nessa viagem literária e poética que a trama tornou-se um fenômeno.

Claro que tudo isso misturado aos ingredientes clássicos dos folhetins, como humor, romance, drama e ação, além de uma direção de primeira comandada por Luiz Henrique Rios. E um elenco, mas que elenco... liderado por Antonio Fagundes. Se a gente for citar aqui os destaques, estaríamos cometendo injustiça com outros atores. Na boa, todos tiveram o seu momento de brilho. Tanto que a novela é das mais buscadas no Google e a audiência média até agora chegou a 29 pontos, o que não se via desde 2012 na faixa.

Com a palavra, esses mestres do texto. E sortudos somos nós, que participamos desse papo com eles nos Estúdios Globo, no Rio.

Como foram feitas as escolhas dos livros? Rosane Svartman – O Fagundes, por exemplo, sugeriu Cyrano de Bergerac. Na verdade, os livros servem para a dramaturgia, para as histórias... A gente precisava de um personagem que se sacrifica pelo outro sem que a Paloma soubesse, e o Fagundes sugeriu Cyrano. Veio sugestão de amigos... E também temos um autor com a gente escrevendo, o Charles Peixoto. As poesias do Mario (Lucio Mauro Fiho) são dele, sempre que apareciam poemas do Quintana era ele que escrevia também... Eu li uma entrevista da Djanira no jornal e ela disse, cadê as autoras negras? Claro! E aí a Belinha escreveu a cena em que a gente cita o livro da Conceição Evaristo na novela. A gente se reúne semanalmente e troca ideias, fala do que está acontecendo, pensa os livros... 

Paulo Halm – E o Fagundes fez no teatro montou a peça Cyrano de Bergerac nos anos 90 e foi um sucesso. O uso das obras também depende de outras coisas, não só a nossa vontade, o nosso repertório. As cenas existem para dialogar com o sentimento que o personagem vive naquele momento. O Otelo, de Shakespeare, quando a Paloma (Grazi Massafera) está com ciúmes do Ramon (David Junior), o Primo Basílio, quando ela está na dúvida se quer ficar com Marcos (Romulo Estrela) ou Ramon... Mas tem texto que não conseguimos licença, por isso acabamos nos reportando muito a clássicos do século 19 ou livros bem antigos.

Foto: O diretor artístico Luiz Henrique Rios com os autores Rosane Svartman e Paulo Halm

Como vocês recebem toda essa euforia do público, nas redes sociais também, fazia tempo que não víamos uma novela assim tão elogiada... Paulo Halm – Mas a gente levou muita paulada também. Tem umas aí que batem na gente diariamente...

Rosane Svartman – É muito difícil... Você não consegue escrever para agradar, ah, agora vou agradar o público, a crítica. Na verdade, a gente conta com a nossa sensibilidade. A gente escreve com essa equipe e essa equipe enriquece a nossa história, a gente conta junto. Cada um com seu repertório, com suas trajetórias. A gene tenta primeiro agradar a gente como autores e telespectadores e torcer para a gente estar dialogando com a sociedade, com a reflexão crítica e torcer para dar certo. Mas eu vou te dizer, escrever falandom vou agradar, assim eu nunca vi dar certo...

Paulo Halm – Não existe fórmula, regra, certo, nem errado, métrica... Tem uma temperatura que a gente vai aferindo o que estamos fazendo e a gente vai percebendo. As redes sociais não são numericamente a fonte de confiabilidade maior, mas é um termômetro interessante para a gente sentir. Eu digo que o aplauso e a vaia são simultâneos. A gente está vendo no ar, escrevendo, e as pessoas estão lá curtindo ou descascando, e isso é legal. Como a gente escreve com muita antecedência isso é legal porque a gente está vendo quase com um olhar novo. E ter esse retorno simultâneo ajuda a gente a pensar a história.

Numa novela das 7, as pessoas estão chegando em casa, fazendo a janta, e muita gente diz que geralmente é um texto engraçado, raso, e vocês provaram o contrário. Que o povo gosta do biscoito fino também...  Rosane Svartman – Uma coisa que a gente aprendeu ao longo do caminho é jamais subestimar o público. E é claro que as redes sociais são um termômetro, algumas ideias surgem ali, mas é gratificante quando se chega na pesquisa, que é um retrato talvez mais fiel da audiência como um todo - a TV aberta tem uma penetração de 97%. E é bacana ver que as pessoas citaram Quintana, Soneto da Separação, curtem os sonhos da Paloma, a gente viu pela pesquisa que a novela tem um grande diálogo com o público. E quando a gente fala de livros, estamos falando das grandes histórias, o livro é só o objeto sagrado que traduz isso dentro da teledramaturgia. Mas são as grandes histórias, Romeu e Julieta, Gabriela Cravo e Canela...

Como foi a contribuição de cada um dos colaboradores? Rosane Svartman – Na verdade, a gente assina escrito com... A Isabela escreve desde #Gabicente, até Toshi (Bruna Aiiso), às vezes Alice (Bruna Inocencio), Sofia (Valentina Vieira), Eugênia (Helena Fernandes)... Muitos autores trabalham por capítulo, a gente trabalha por trilha. Não tem regra, mas eu pessoalmente acho que isso enriquece os personagens e a obra. Não só porque o autor fica apegado ao personagem, sabe do arco, questiona a gente, o Charles diz, não acho que o Alberto falaria isso... E a nossa tarefa é não só contar a história, fazer a escaleta, cenas resumidas e depois juntar tudo. O Fabrício escreve muitas vezes Marcos e Paloma e também Ramon e Francisca e todo o núcleo da família de Bom Sucesso. Ele divide com a Bela o Leo, o Ramon... Se Paloma está com Alberto, todas as cenas de Alberto são do Charles Peixoto. As cenas de ação, os vilões, o Diogo (Armando Babaioff), o Elias, é escrito pela Claudinha, o Felipe. A Claudinha é dona da Nana (Fabíula Nascimento), mas todos escrevem Nana também...  Mas dependendo de ondem circulam os personagens, vai revezando. E como a gene se encontra e todos leêm os capítulos antes, acho que isso ajuda essa simbiose. A Vera (Angela Vieira) é o Charles, mas todos escrevem...

Teve alguma parte que não deu certo, que não rolou como imaginavam? Paulo Halm – Não sei, a novela ainda não acabou... A novela é uma obra aberta, você vai mudando na medida que o telespectador vai sinalizando. A gente começa a escrever com uma frente muito grande. A gente ia matar o personagem do William (Diego Montez), ele morreria no capítulo 40. Mas a gente não tinha visto sequer o ator no ar, atuando, era perverso a gente matar. Fomos empurrando a história, e quando começamos a ver a cenas do William, vimos que o ator é ótimo, tem timing. E ficamos num problema. Não é algo que deu errado, mudou. Tem uma coisa de você saber para onde o vento está soprando. E você vai sinalizando se aquilo vai desfigurar a ideia da novela, mas isso não houve em momento algum se você ver a sinopse. E a novela é aberta, então os atores dão muita coisa pra gente e obviamente aqui ninguém é trouxa. Eu não saberia dizer algo que deu errado.

Rosane Svartman – Eu sei uma coisa que me deixou louca durante muito tempo. Parece que não, mas é muito importante pra gente, os ganchos. E os capítulos ficaram muito grandes, então eu olhava e via as pessoas falando, que gancho é esse de final de capítulo? E era break! Vou dar um exemplo, a trama do Elias (Marcelo Faria) era para ter durado uma semana, durou quase duas. Capítulos pesados no sábado... Tinha que falar de aborto num sábado? Você acha que a gente pensou na morte do Elias no Natal? Isso foi bem doloroso. Quando a gente faz um capítulo, a gente bola os ganchos, a gente escreve a partir dos ganchos.

Depois do desfile com as roupas criadas pela Paloma e a Nana roupas parece que a novela entrou num outro ritmo, teve o aparecimento do Elias, a volta do Diogo, com armações de vingança. Estava tudo planejado? Rosane Svartman - O Elias estava previsto desde a sinopse. Meu pai, Mauri, que adora música clássica, falou uma coisa interessante, e ele está assistindo a novela... Ele disse que é como uma sonata, como quando você vai assistir a uma orquestra e no final, tudo acelera, tem aquele grande final. As outras obras que a nossa equipe escreveu, no final a gente entra num ritmo mais policial, a gente vai plantando para dar essa acelerada. Eu acho que a gente foi resolvendo as histórias, os afetos, de propósito, para chegar numa batida mais acelerada. E eu acho também que esse pé no acelerador do melodrama rendeu pra gente... As pessoas reclamam do Diogo, mas amam a cena da facada no Ramon no carnaval, amam a conversa da Sofia com a Nana após a perda do bebê, eu chorei loucamente... E aquilo só pode acontecer, ela perder o bebê, porque o vilão faz vilanias. Então eu acho que esse acelerado mais no melodrama rende cenas tão bacanas. 

Paulo Halm – E em momento algum a gente abriu mão daquilo que é o que caracteriza a novela, esse diálogo poético, essa reflexão usando a literatura quase como um personagem. Isso tudo permaneceu, os slams, as músicas. A gente vem de uma lógica que a novela tem um clímax e é o último mês, onde tudo tem que acontecer.

A Nana começou como a antagonista da Paloma e ela se transformou numa das personagens mais queridas pelo público. Era essa a ideia? Rosane Svartman – A Claudinha que escreve a Nana e eu, sempre adoramos a personaem. Mas o Pepê achava a Nana chata. A gente amava e entendia porque ela era daquele jeito. Mas claro que esse sucesso todo tem a ver com a atriz também, a Fabíula Nascimento, maravilhosa.

Paulo Halm – Ela tinha uma falta de afeto... E tem uma cena linda que o pai dela (Alberto) está falando com aquele filho pródigo (Marcos) que fez tudo errado, e ele ama aquele filho, e ele fala, a Nana é aquela pessoa que cuida das coisas. Ele diz isso como se fosse um cachorrinho da casa. Aquela cena é tão forte. E o silêncio dela, a dor dela ali ouvindo aquilo traduz toda a personalidade dela. Num bom período da novela, ela fez coisas horríveis com a Paloma, foi preconceituosa. Essa antagonista teve essa trajetória e foi humanizada. Mas a gente não é bobo, a gente percebe que a troca é muito importante, e a Fabíula é fundamental para essa Nana, a Nana real, que beija, que chora, que perde o bebê, essa Nana tem um diferencial do papel muito grande. E a contribuição da Fabíula é incrível. É gratidão!

Claudia Sardinha – É legal você fazer esse paralelo de como Nana e Paloma começaram antagonizando e se uniram em algum lugar. Eu acho que a Nana é uma personagem que, assim como a Paloma, concilia a dupla jornada de trabalho, vive esse desafio da mulher contemporânea. E elas ali, em algum momento se reconheceram, apesar de terem lugares de fala totalmente diferentes, experiências diferentes. Elas entenderam a força que têm dentro da família e da sociedade. E puderam deixar de rivalizar, é bom ver duas mulheres fortes, líderes, heroínas. E a Nana ali gerenciou a família. E foi muito bonito quando a gente pode juntar essa dupla.

Os autores com parte do elenco.

Vocês tiveram alguma dúvida do casal protagonista #Maloma ficar junto, porque muita gente torcia pelo Ramon com a Paloma também, mas o encontro dele com a Francisca (Gabriela Moreyra), até por ser um casal negro, foi muito bem recebido também. Isso ajudou nessa decisão? Rosane Svartman - A gente discutiu isso, claro. Mas a gene não começou a novela sabendo quem ia ficar com quem, assim como aconteceu em nossas outras novelas. Mas a gente também assiste como espectador e tenta decidir o que vai acontecer. Acho que já estava encaminhado quando a gente chegou no grupo de discussão. Mas temos discussões calorosas entre a gente. E eu acho que são boas.

Fabrício Santiago – Eu escrevia muitas cenas de Ramon e Paloma no início e torcia muito pelo casal. Mas quando surgiu a Francisca nessa história, esses peso que você falou de ter uma mulher negra ali, realmente mudou a minha torcida. Porque você sabe que as mulheres negras são as mais abandonadas. Rntão eu já virei fã de #Framon.

Cada um cite pra gente a cena mais intensa, emocionante que escrevera... Charles Peixoto – A que eu mais gostei de escrever foi a do final do ano na casa do Alberto.

Claudia Sardinha – Me marcou muito esse momento em que a Nana perde o bebê. Todas as cenas que derivaram disso me emocionaram muito.

Felipe Cabral – Então, eu não posso falar. Eu escrevi muitos finais de personagens agora do último capítulo. A gente recebe o final antes do público, cada um na sua salinha, então quando eu recebi a última escaleta e vi como acabava e tive que escrever alguns desfechos, esse é o momento das despedida. Foram momentos marcantes. Mas uma cena que eu sempre falo, é quando o William sai de cena e dá um selinho no Pablo (Rafael Infante). A coisa simbólica de naturalizar uma relação homoafetiva, de uma cena que não era sobre o casal, a relação deles, teve uma repercussão linda de mostrar o afeto, o amor de dois personagens gays. Eu vou levar para a vida o primeiro beijo gay numa novela das 7. 

Fabrício Santiago – Eu gostei muito de escrever a sequência da dona Flor e seus Dois Maridos, porque eu não escrevia muitas citações e achei que ficou lindo. E tem uma cena do Ramon aconselhando o Patrick (Caio Cabral), que eu achei de uma importância, porque eu não tive essa referência masculina.

Isabela Aquino – Pra mim, o mais difícil de escrever eram as cenas do slam, do Luan (Igor Fernandez). Além de rubrica, de diálogo, tinha que escrever o slam, inventar uma poesia ali. Pra mim isso era difícil e desafiador.

Rosane Svartman – Pra mim eu acho que é o último capítulo, porque a gente foi, voltou... Geralmente a gente faz as escaletas em dias da semana, fecha os capítulos até sexta, o bloco no sábado de manhã e faz sábado à tarde a primeira escaleta. Esse é o nosso ritmo. E esses últimos a gente demorou, sei lá, dois, três dias para fazer o capítulo, a gente pode curtir. E ainda faltou tempo...

Paulo Halm – Tem duas cenas que eu gosto muito. Quando a Paloma volta na mansão, no Natal, e fala, ninguém vai morrer hoje, seu Alberrrto... Eu fico emocionado de lembrar. E outra cena muita bonita em que o Alberto lê o texto do Santo Agostinho para a Sofia, dois atores maravilhosos, num plano fechado. Publiquei o vídeo e nunca tive tanta curtida. Claro que a gente sabe que a cena é boa, emotiva, mas a gente não sabe como isso afeta a vida das pessoas, coisas que a gente nem imaginava, da sua identidade com a situação. Coisas como aquilo me suavizou, me fez ver a morte da minha mãe, do meu filho, de uma forma diferente...

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