Rita Guedes, em Malhação: "Papel diferente, gosto de ser desafiada”

Aos 46, ela se vê mais segura nas escolhas e lembra como superou Síndrome do Pânico


  • 30 de novembro de 2018
Foto: Globo/Rafael Campos


Por Luciana Marques

Quando foi alçada ao sucesso, aos 20 anos, como a ousada Bianca de Despedida de Solteiro, Rita Guedes lembra da “virada” em sua vida. “Eu era uma garota do interior de São Paulo deslumbrada com o Rio, mas já muito focada”, lembra. Hoje, aos 46 anos, a beleza continua praticamente a mesma, a entrega no trabalho também, mas o amadurecimento lhe trouxe “segurança nas escolhas”.

Hoje, após 10 anos em Los Angeles, onde fez todos os tipos de cursos na área de atuação e cinema, Rita está de volta ao Brasil e pronta para novos desafios. Um deles foi a participação especial como a Valéria, mãe de Márcio (André Luiz Frambach), em Malhação: Vidas Brasileiras. “Sempre fiz a maioria dos meus papéis de mulheres fortes com doses de sensualidade, adoraria fazer mais personagens diferentes. Na Malhação estou fazendo isso, gosto de desafios”, ressalta.

Na entrevista, a atriz avalia os 32 anos de carreira - além dos inúmeros trabalhos na TV, são cerca de 15 filmes e 15 peças -, como “difíceis e deliciosos”. Ela diz também estar curada da Síndrome do Pânico há bastante tempo, mas dá um conselho para quem ainda luta contra essa doença.

Com os colegas Malhação, André Luiz Frambach e Carmo Dalla Vecchia. Foto: Reprodução Instagram

Você está em sua quarta participação em Malhação. O que instiga mais você ao atuar nesse produto direcionado aos jovens?

Eu tenho um carinho muito grande pela Malhação e pelas participações que fiz com personagens e histórias diferentes. Acho bacana porque escolhem sempre muito bem o elenco. São atores jovens, mas focados, uma galera muito bacana. Essa Malhação está sendo muito bem cuidada, tratando de temas delicados, discutíveis, mas de maneira leve. Pra mim foi um prazer estar participando de novo com uma personagem também diferente.

Arthur Aguiar, em Malhação: “Legal olhar para trás e ver o que andei”

André Luiz Frambach: “Ficaria abalado, mas assumiria o bebê”

Como você definiria a Valéria, mãe do Márcio?

A Valéria teve o Márcio cedo e o criou sozinha até pelo fato de na época o Rafael (Carmo Dalla Vecchia) estar enfrentando alguns problemas. É uma supermãe, mas é liberta. Sabe que criou o Márcio pra vida. Ele tem o temperamento dela de falar as coisas sem pensar muito. Quando ele decidiu morar com o pai, ela também deixou. É uma mãe que respeita o espaço do Márcio, mas é presente. Quando ficou sabendo da gravidez quis ir até ele pra conversar pessoalmente e ficar junto com ele e Rafael. E ela se viu na história da Camila, jovem, grávida, sozinha pra criar o filho. Isso também tocou ela, por isso abraçou essa causa e quis passar um tempo junto com eles, cuidando da Camila e tendo cuidado com a família toda. Cuidando até do Rafael. A gravidez da Camila remete a toda uma história que houve entre ela, Rafael e o Márcio quando era pequeno.

Você vê essa garotada de Malhação hoje vindo aí já mais bem preparada?

Acho que essa garotada que vem na Malhação, muitos no primeiro trabalho e outros que já fizeram algumas coisas, são muito bem prepadados, sérios, dedicados, querem realmente seguir carreira. Olham o ofício de uma maneira séria. Tem muita gente talentosa, assim como em outras temporadas. E você vê que vai ter uma carreira promissora.  

Valéria (Rita Guedes). Foto: Globo/Rafael Campos

Como avalia esses 10 anos vivendo nos Estados Unidos, em termos de crescimento pessoal e profissional?

Foi extremamente importante pra mim. Só de viver em um outro país com uma cultura diferente você já aprende. Lá eu estava sozinha, tinha que me virar e ter contato com pessoas de outros lugares do mundo porque Los Angeles é o polo do cinema. As pessoas que vão pra lá vão estudar, aprender para seguir carreira de ator. Só estudei durante esse tempo lá. Tive contato com outras culturas, não só a americana, europeia, asiática, gente de todo mundo. A troca de experiência, ensaios, aulas, cursos, tudo isso me acrescentou muito como atriz. Me deu uma segurança maior, descoberta de maneiras diferentes de você olhar o personagem, métodos que aprendi. Fiz comédia, drama, estudos de textos, decupagem de texto, roteiro de cinema. Entrei pra todas as áreas relacionadas à interpretação. E quando passaram-se 10 anos, vi que estava na hora de voltar. Foi um crescimento como pessoa e como atriz. A profissão do ator é você ter um entendimento maior do ser humano, não ter pré-conceitos e nem ter só a sua maneira de olhar pra determinado personagem. Então quanto mais você vive, mais tem contato com coisas diferentes, conhece o novo, mais material você tem de trabalho. E sinto que hoje tenho uma gama maior de conhecimento, de material e de sentimentos, que sei que posso colocar nos meus personagens.

Por que a decisão de voltar definitivamente ao Brasil?

Resolvi ficar 10 anos, mas não era minha programação incial. Eu queria ter ficado um ano, passou dois e depois me vi morando, tendo minha casa, minhas coisas. E vinha para o Brasil fazer alguns trabalhos, séries, participações, fiz a novela Flor do Caribe inteira, mas foi exceção. Me senti morando lá, vindo pra ver a família e trabalhar. Agora fiz o contrário. Mudei definifitamente pra cá, desmontei o apartamento, desfiz do carro, mas como tenho uma ligação muito grande por lá, fiz muitos amigos, e é uma cidade que eu adoro. Então, agora vou lá de férias, fazer cursos rápidos, visitar amigos, mas o meu ciclo de estudos que sempre quis fazer desde que comecei na TV, eu fechei e foi extremamente importante. Qualquer ator que quiser fazer isso posso falar que é muito rico.

Na série 1 Contra Todos, do canal Fox. Foto: Divulgação

Se contarmos desde o seu início no teatro, você soma mais de 30 anos de carreira. Como avalia essa sua caminhada, porque não é uma profissão fácil, né?

Me tornei profissional aos 14 quando comecei a trabalhar em uma companhia séria. Hoje tenho 32 anos de carreira: difícil e deliciosa. Perigosa porque a partir do momento que você fica conhecida e seu trabalho toma uma dimensão maior, tem que ter muito o pé no chão pra isso não te distanciar da sua arte. A profissão de ator é você se dedicar, estudar, se dedicar exclusivamente aquele personagem. Entender o que está fazendo, porque é fácil as pessoas te rotularem para sempre fazer um único tipo de papel. Na profissão de ator você depende muito de convite, das pessoas acreditarem que você é capaz de fazer tal personagem. Então acho que o grande barato é quando você consegue também se produzir, fazer aquilo que tem vontade. E eu tenho feito isso em teatro e cinema. Quando sou desafiada, tenho que estudar mais, entender mais, buscar mais conhecimento pra entender o personagem e aquele universo. É o que me dá energia pra fazer o meu trabalho. Fiz coisas que me orgulho muito. Todos os meus personagens, independente de comédia ou drama. Como boa capricorniana, quando maior a montanha que tenho que subir pra fazer o melhor possível, mais energia, força, brilho no olhar, borboletas no estômago eu tenho, o que me move é isso. Não tenho medo nenhum de desafio. Quando recebo um trabalho assim, é um grande presente. Fiz grandes personagens, trabalhei com pessoas maravilhosas, aprendi muito e pude ensinar. Estou muito feliz e agradecida por essa trajetória que tive até agora.

Com o elenco do humorístico Tô de Graça, do Multishow. Foto: Reprodução Instagram

Qual a principal diferença da Rita de 20 anos, que deslanchava na TV em Despedida de Solteiro, para hoje?

Muita coisa (risos). Cheguei no Rio com 20 anos, quando fiz Despedida de Solteiro. Era muito garota, vinda do interior de São Paulo, deslumbrada com o Rio de Janeiro, mas sempre muito focada. Minha profissão sempre teve um lugar muito importante na minha vida. Eu era muito séria e dedicada desde nova, mas hoje, depois de 10 anos morando fora e todo esse tempo no Rio, trabalhando no meu ofício, me sinto mais madura. Segura das minhas escolhas. Me sinto muito melhor hoje do que há 20 anos.

Uma época você contou ter sofrido da Síndrome do Pânico. Está curada hoje? E que conselho daria a pessoas que sofrem também dessa doença?

Sim. Estou curada há anos, graças a Deus. Foi um período curto. Eu me distanciei de mim, estava muito focada no trabalho, fazendo uma novela atrás da outra, me renunciando das coisas que me faziam feliz por falta de tempo. Estava vindo em uma batida muito grande sem ter tempo de curtir as coisas simples da vida. Quando você se distancia do seu eu, da sua essência, você se perde. Foi um pouco isso que aconteceu comigo. Vários trabalhos acumulados, sem ter tempo para férias, de curtir as coisas simples e que são importante e vitais. Conselho? Parar tudo, respirar e se voltar pra você. Quem é você? Do que gosta? O que te dá prazer? O que te faz feliz? Me faz feliz ir na padaria, tomar um café com leite às 17h. Desmarca qualquer qualquer compromisso importante e faz isso. A gente tem que se perguntar isso. Principamente nos momentos de muito trabalho, de estresse, cobrança, que faz com que você se dedique mais pra coisas materiais do que pra parte espirtiral. Entra em contato com você, com a natureza, com Deus e se encontra. Quando você se reencontra, traz de volta a sua essência e tudo isso passa.

Na série 1 Contra Todos, do canal Fox. Foto: Divulgação

Você também participo do elenco do Tô de Graça... A veia do humor sempre acompanhou você, ou é algo que está mais forte agora?

O humor sempre fez parte da minha vida, da minha carreira. Sempre amei fazer humor e pra mim foi uma delícia gravar a temporada do Tô de Graça. Mas eu já tinha feito no teatro a peça Qualquer Gato Vira-Lata Tem Uma Vida Sexual Mais Sadia que a Nossa. Texto do Juca de Oliveira, direção da Bibi Ferreira. Ficou 5 anos em cartaz. Comediona, ganhou prêmios, eu também. Fiquei feliz com o Tô de Graça e espero fazer outras coisas de comédia na TV, no cinema, porque realmente adoro. Comédia esta na minha veia.

Cada vez mais o Brasil está produzindo séries bacanas e bem produzidas. Você que viveu tanto tempo fora, como tem visto esse produto aqui no país, já estamos produzindo tão bem como lá fora?

Os Estados Unidos vêm produzindo séries há muito mais tempo do que nós aqui no Brasil. E tem um diferencial porque eles têm mais recursos pra fazer. A quantidade também é absurda e são muito bem feitas. Mas nós estamos fazendo séries maravilhosas, a próprio Globo inventindo, outros canais também. A gente esta pegando uma onda bacana porque existem muitos roteiristas e diretores que estão fazendo trabalhos magníficos em séries aqui, apesar da gente não ter o mesmo investimento lá de fora. Mas o que a gente tem de sobra é criativade. Quando vejo os trabalhos do Domingos de Oliveira, com custo mínimo, e são geniais. Estão vindo séries ótimas, e a tendência é so crescer. Tem uma aceitação grande do público, e quem faz, os atores que se envolvem, tomam esse gostinho de fazer. Minha experiência foi com a serie 1 Contra Todos, e foi maravilhoso. Entrei na segunda, fizemos a terceira e acho que terá a quarta. A série caiu gosto das pessoas até lá de fora. Acho que estamos mostrando que temos capacidade de fazer séries tão boas quanto as americanas.



Veja Também