Paulo Gabriel, de Amor de Mãe: “Genilson está desaparecido, tudo pode ser e acontecer”

Destaque no teatro, cinema e séries, ator diz que arte é para instigar e não ser espaço de retórica retrógrada  


  • 23 de dezembro de 2019
Foto: Angelo Pastorello


Ator e empreendedor cultural, Paulo Gabriel apareceu em uma sequência pequena, porém densa nos primeiros capítulos de Amor de Mãe, em que o seu personagem Genilson estuprava uma mulher. Desde então, o mistério em torno do rapaz, irmão de Betina (Ísis Valverde), supostamente morto acidentalmente por Magno (Juliano Cazarré), é grande e pode mudar destinos na trama. “Genilson está desaparecido. Tudo pode ser e acontecer”, diz ele.

Com 10 anos de carreira, 15 peças, 35 obras no cinema independente e trabalhos no main stream como Marighella e Malasartes, Paulo diz ainda estar “tateando” a TV aberta. Mas que busca mesmo bons papéis. Na entrevista, ele fala ainda da situação difícil da cultura no Brasil. “O cinema, as artes não podem ser espaço de retórica retrógrada ou de eco de questões de ideologia, criando limites do que deve ser ou não gerado de conteúdo porque assim o governo quer”, avalia ele, que festeja a indicação da peça Visceral ao Prêmio Shell de Teatro.    

Como surgiu o convite para Amor de Mãe e como está sendo participar de uma novela tão potente? Fui convidado pela produção de elenco a realizar uma audição na emissora e deu certo. Fiquei muito feliz com a chance de participar de um projeto como este e com tanta gente que admiro. Amor de Mãe é uma novela diferente em sua estética. Ela dialoga com a dinâmica do hoje, com a linguagem e diálogos do cinema, dos seriados, mas com a toada da novela. Só por isso já acho sensacional! É uma honra estar em um projeto audacioso como esse. Está sendo um aprendizado igualmente saboroso.

A “morte” de seu personagem está envolvida em um grande mistério. É possível que ele não tenha morrido, o que você acha? Temos que lembrar que o formato novela é uma obra aberta. E por isso mesmo eu acho que o público tem que ver, acompanhar, tentar descortinar o que de fato ocorreu não só com ele.

Há a expectativa do Genilson também aparecer em flashback? Talvez sim, talvez não. Depende. Tramas como essa da Manuela Dias podem usar dos recursos de flashback para dar o entendimento dos fatos à audiência, mas tudo isso ainda é bem aberto. O fato é que a trajetória do Genilson não acabou, ele tem uma função dramatúrgica ainda a ser executada na obra.

Foto: Globo/Estevam Avellar

Sua participação na trama deu o que falar... Como foi gravar a cena de estupro num momento em que se vê cada vez mais casos de abusos e feminicídios no Brasil? A novela tem muitos capítulos ainda pela frente, tem muita água pra rolar... O texto da Manuela Dias é cheio de tramas e subtramas, as cenas que estou, as que foram ao ar, até a presente data, são fortes, de agressão, de luta e de violência. Não são fáceis de execução para um ator. Existe risco físico que é minimizado com a presença de um coreógrafo de luta. Sobre o tema estupro, assédio moral, físico e abuso como um todo, acho essencial ser tocado e falado. Quanto mais expostos esses assuntos, mais claro isso se torna para à sociedade. Os índices são alarmantes e acredito que a trama de Amor de Mãe vai abordar essas questões assim como auxiliar as mulheres que sofrem esse tipo de abuso e que não se pronunciam a terem coragem de denunciar ou ao menos de escolherem por qual caminho seguir.

Qual a importância de se tratar assuntos como esse no horário nobre? É fundamental. A sociedade precisa falar sobre isso mas principalmente entender e modificar o padrão do que está por trás dessas condutas violentas, desses abismos emocionais e sociais ou ainda tudo isso mesclado. Não são assuntos ligados diretamente, mas podem estar conectados nesse lugar obscuro. Vivemos em uma sociedade conservadora, patriarcal, machista e abusiva. Às vezes, infelizmente, esse “modus comportamental machista” está tão enraizado na sociedade que até pode ser praticado pela própria mulher de forma inconsciente. Mas felizmente o cenário vem mudando. O Brasil é enorme e é fundamental termos projetos como Amor de Mãe, da Globo, que tem um poder de alcance e capilaridade nacional. Temos muito a avançar para termos uma sociedade mais justa não só com as mulheres, mas com todos aqueles que são alvo desse tipo de violência.

E tem também a questão do tráfico de drogas, né? O tráfico é uma realidade a ser combatida. Um espelhamento da sociedade que vivemos. É uma máquina lucrativa e que gera dividendos para alguns e prejuízos imensuráveis na vida dos usuários e familiares. As pessoas que vivem na extremidade dessa cadeia são as mais dilaceradas, mas o fato é que não vivemos a vida dessas pessoas. A falta de oportunidades associadas aos anseios de uma sociedade que cobra resultados, mas que pouco entrega, gera indivíduos devedores de si e ansiosos por algum êxito. E o tráfico pode turvar a visão de alguns e dar à sensação obtusa de uma pseudo importância e de ascensão social. Seria cômodo julgar e falar de fora. O problema do nosso país é estrutural, falta muita educação. A única coisa que de fato percebo é que o que permeia ambos os temas da pergunta são a impunidade, uma raiz maléfica que agride e mata diariamente o nosso país.

Foto: Angelo Pastorello

Você fez muitos trabalhos no cinema, no teatro e também em séries, mas poucos na televisão. Isso foi uma opção, gostaria de atuar mais na TV aberta? TV “aberta” é algo ainda recente para mim. Estou tateando essa engrenagem televisiva, mas acredito que o ator precisa passar por diversos meios e achar aquele que melhor dialoga consigo e o audiovisual me trouxe isso. É onde me sinto acolhido. A TV também faz parte desse ambiente. Eu sempre estou em busca de bons papéis e ótimos desafios, seja em qual dinâmica cênica for, mas a TV ainda é um espaço que explorei pouco e estou recebendo com agradecimento as oportunidades que estão vindo nessa direção. 

Como tem visto esse boom de produções de séries no Brasil, o mercado audiovisual está mudando? Vivemos uma fase de transição cultural, de hábitos, de como consumimos os conteúdos que temos interesse. É uma nova leva assim como foi do rádio para a TV, agora é da TV para a internet. Não tem volta. É uma era da convergência. Os canais estão se ajustando a isso, assim como o mercado audiovisual como um todo. Não existe mais a exclusividade da tela do televisor, hoje temos e vivemos a era das multi-telas. O espectador vê o conteúdo onde e como quiser, ele que manda e cria sua programação. Tendo essa dinâmica crescente acho fenomenal para o nosso país, talvez seja o melhor momento de geração de conteúdo nacional. Tantas plataformas, inclusive as nacionais, como a Globoplay, brigando pela excelência nos seus produtos e quem ganha com isso é o espectador, que pode escolher seu “cardápio”, do que consumir. As dimensões territoriais serão diminuídas, as pessoas querem ver boas histórias, não importando tanto mais o idioma e sim a qualidade do roteiro, as interpretações, à condução e atmosfera criada. Isso já está acontecendo e fico feliz de estar nessa transição ou até transposição de mercado. 

Seu espetáculo, Visceral, vai viajar pelo Brasil. O que instiga mais você nesse trabalho? Visceral, uma obra da autora Nanna de Castro, é um filho de 7 anos. Um projeto de realização meu e da atriz Chica Portugal que só saiu do papel esse ano. Sou aficcionado por inovação, criação e nessa obra pude extravasar meu olhar curioso e artístico para diversas vertentes: Fiz da peça uma instalação sensorial, imersiva e intermídia, algo que acredito e gosto de conceber. Através da Inmersivus, selo da produtora a qual fundei e dirigi, reunimos grandes talentos dos palcos e criamos nossa jornada. Fomos contemplados com um Edital da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo e fizemos acontecer por aqui e agora vamos levantar asas para outros estados e municípios. A expectativa é levar esse espetáculo para diversos espaços que dialoguem com nossas temáticas centrais da peça e que promovam um forte impacto no público jovem e digital. Ainda hoje, recebemos a feliz notícia que nossa peça foi indicada ao Prêmio Shell de Teatro, a maior premiação do setor!

Entre os seus próximos projetos, estão o lançamento de três filmes (Amigas de Sorte, Caso Leonardo e Minha Potita). Como vê esse momento do cinema nacional, apesar desse desmonte da cultura com o atual governo? O cinema não vai parar. Os artistas não vão parar. Acho até que vamos nos surpreender positivamente com os próximos anos com o que poderemos fazer. Os artistas são “artérias da expressão’”. E quando uma “veia” é bloqueada como é o caso agora, outros vasos farão chegar essa expressão fundamental à nossa sociedade. O Estado precisa e deve ser laico. Arte e cultura são para refletir, instigar, informar e mover as pessoas. Um povo sem cultura é um povo sem memória. E o cinema que vinha crescendo numa dinâmica importante teve abruptamente seu destino minguado com essa roupagem de vilão que colocaram no setor. As pessoas precisam saber mais da economia criativa do nosso país: é uma indústria forte e que emprega mais que o setor farmacêutico ( dados da SPCINE). A cada R$1,00 investido, R$ 1,56 volta para nossa sociedade (dados da FGV). Isso é capital girando. É uma indústria limpa e que movimenta uma cadeia de diversos afazeres. 

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