Osmar Silveira, o Narciso: “Esse sonho não é só meu, é de minha família, cidade”

Natural de MT, ator vendeu TV e até computador de casa para se manter no Rio


  • 31 de julho de 2018
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

Na pele do traficante Narciso, de Segundo SolOsmar Silveira, de 30 anos, se vê hoje realizando um sonho. Ainda menino, na pequena Campo Verde, cidade do interior do Mato Grosso com pouco mais de 30 mil habitantes, ele já sonhava em atuar. Tanto que começou cedo no teatro, e está nessa luta há 20 anos.

Mas para ele, tudo aconteceu no tempo que tinha que ser. Tanto que o personagem que, a princípio, não teria uma grande história, cresceu, e ganhou até família. “Não sei nem o que dizer, só tenho gratidão”, ressalta ele, que atuou antes em O Rico e Lázaro, na Record TV, e no musical Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz, como stand-in do Emílio Dantas, no papel do cantor.

Só que até conseguir esse espaço, Osmar batalhou. Há seis anos no Rio, ele lembra que para se sustentar, precisou até vender bens da própria casa. Mas vendo a repercussão do Narciso, esse personagem “torto”, como o próprio ator define, tudo valeu.

E vale muito à pena também ler esse papo sincero e, em alguns momentos, emocionante, com o ator. Detalhe, ele é apaixonante!

Narciso (Osmar Silveira) e Manu (Luisa Arraes). Foto: Maria de Médicis

Como está sendo viver o Narciso e ver esse crescimento dele na trama?

Está sendo um grande presente. Claro, no início eu estava cheio de expectativas. Muitas coisas foram acontecendo de acordo com que fomos recebendo os capítulos. Mas existia uma expectativa e esperança, óbvio, de que o personagem acontecesse. E aconteceu! Preciso agradecer ao João Emanuel Carneiro, a Rede Globo e ao Dennis Carvalho por essa oportunidade. Sempre sonhei com isso, de estar fazendo um personagem como o Narciso, e por ele estar tendo tanto destaque.

A princípio, parecia que o Narciso não era um personagem tão importante na trama, né?

Ele era um personagem meio que avulso na história. Era um traficante, teria um envolvimento com a Manu (Luisa Arraes) e com a Rochelle (Giovanna Lancellotti), mas não era um personagem que tinha um enredo muito forte.

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Acha que o seu carisma e a sua entrega ao papel podem ter contribuído para o crescimento do Narciso?

Eu não sei nem dizer. Eu só tenho gratidão! Eu tento dar o meu melhor naquele momento que estou fazendo. O que vem depois é resultado do que eu fiz, do que eu entreguei. Esse crescimento do personagem, esse presente de ter uma família, do personagem ter de fato uma história dentro da novela, é resultado do que a gente fez.  Eu estou colhendo o que entreguei naquele momento, sem pensar, só com o meu coração e minha emoção dentro do estúdio.

Como está sendo o assédio do público?

Uma loucura isso (risos). Mas é gostoso poder experimentar um pouquinho disso. Eu acho que sempre sonhei com isso desde muito pequeno. E hoje, vou no supermercado, e a moça da caixa fala comigo. Recebo diversas mensagens no Instagram e no Facebook. Na rua, o menininho que vende bala fala: ‘Tio, você é o cara da novela’. E é todo o tipo de público, de todas as idades. E apesar dele ser um personagem meio torto, não é mal visto. Ele tem um carisma que acaba conquistando as pessoas. E está sendo muito bacana receber isso.

Foto: Sergio Baia

O Narciso está mesmo gostando da Manuela?

Ele está apaixonadíssimo, gosta muito dela. E ele faz tudo por ela. Inclusive, cede algumas vontades dela, em relação a droga e tudo mais. A gente está na expectativa ainda do que vai acontecer. Acabou de entrar a família dele agora na trama. Era uma especulação de todo mundo se ele era filho de Laureta (Adriana Esteves), de quem era filho, e qual era o segredo do Narciso. E agora as pessoas vão poder acompanhar essa história dele, de onde vem essa coisa de vender droga.

O Acácio (Dan Ferreira) também é um rapaz apaixonado pela Manu. Como vai ser a disputa pelo coração dela?

Existe esse questionamento do público. A gente vê muito isso no Twitter: ‘Tem que ficar com o Acácio’ ou ‘Tem que ficar com o Narciso’. Essa coisa de 'shippar'. A princípio, a gente não tem esse desenrolar. Não sei responder exatamente o que vai acontecer.

Mas com quem você gostaria que ela ficasse?

Eu torço para que Narciso fique com a Manu, porque acho que é verdadeiro o que ele sente. Acho que sentimentos verdadeiros precisam ser respeitados, e se for correspondido é melhor ainda.

Narciso (Osmar Silveira), Berta (Raissa Xavier), Fátima (Ingra Lyberato), Juarez (Tuca Andrada) e Manu (Luisa Arraes).

 Foto: Globo/Raquel Cunha

Como você analisa a relação do Narciso com a família?

Primeiro, ele respeita muito o pai, um homem que, de certa forma, exerce um poder na família. Eles se gostam muito, não é uma família problemática no sentido sentimental. É uma família normal, mas que tem os seus segredos. Só que os deles, talvez, sejam um pouco mais difíceis, incompreensíveis, porque têm a ver com o crime. Se não tivesse a coisa das drogas, seria uma família extremamente normal. Tanto é que nem os vizinhos percebem, eles fazem tudo por debaixo dos panos. Então, eles têm um relacionamento de família mesmo, de amor, afeto, carinho e respeito.

Tem um momento em que o pai vai mandar matar a Manu, e Narciso fará tudo para defendê-la, é isso?

Em algum momento, ele enfrenta os pais pelo o amor que sente. Estamos gravando isso ainda, na verdade. O Narciso vai criar um embate com o pai, porque o pai tem uma personalidade forte, é muito duro. E ele veio de uma educação da pancada. Então, ele vai criar o embate para defender a Manu de qualquer forma e circunstância.

Como está sendo contracenar com o elenco que faz parte da família do Narciso?

Está sendo um grande presente trabalhar com Ingra Lyberato, Tuca Andrada e Raissa Xavier. São pessoas incríveis. E está sendo um aprendizado, uma escola, porque é a minha primeira grande novela. Estar contracenando com pessoas que já estão há um tempo no mercado, para mim, é extremamente importante enquanto ator, artista e iniciante.

Como você enxerga caras como o Narciso?

Acho difícil julgar porque a gente não sabe da história de cada um, quais as consequências que colocaram aquelas pessoas naqueles lugares. No caso do Narciso, eu acho que tem o pai por trás, que tem uma educação um pouco mais severa, que precisou entrar nisso também porque precisava alimentar a família, sustentar a casa. Então, acho que a família meio que se organizou para isso para que ninguém passasse fome. É até uma coisa de sobrevivência. Errado? É errado! Mas é difícil julgar porque não sabemos o contexto da história daquela pessoa. Interpretando esse personagem, me sinto no dever de quase defender um pouco essas pessoas porque não conhecemos o contexto. Gostaria até de ouvir um pouco mais essas histórias para poder me posicionar melhor.

Foto: Sergio Baia

Você sente que demorou para ter uma oportunidade como essa na sua carreira?

Eu acho que tudo tem o seu tempo. Chegou no momento certo. Enquanto pessoa física, ser humano, homem, estava mais preparado e maduro hoje para receber um personagem com uma carga dramática dessa, de força, em uma novela que tem um público tão grande. É uma responsabilidade maior, você se sente mais cobrado. E eu já me cobro muito porque gosto de fazer o meu melhor.

Você passou por muitos perrengues até conseguir o seu espaço?

Passei alguns. Não perrengues grandes, mas passei por algumas dificuldades. Às vezes, de ter que vender algumas coisas para pagar o meu aluguel, por exemplo. Isso já no Rio para poder me manter, porque não queria voltar para casa. Eu vendia o que tinha de valor. Era computador, TV, coisas que pudessem ter um valor maior para eu poder pagar as minhas despesas mensais.

Chegou a exercer outras atividades nesse período?

Não. Eu sempre tentei viver da arte. Acho que, algumas vezes, eu sobrevivi da arte. Hoje, vivo dela com muito orgulho. Eu olho para atrás, vejo meus passos e falo: ‘Caramba, olha onde eu cheguei. Que legal!’. Sinto muito orgulho da minha trajetória.

Já parou para pensar que pode estar sendo hoje um espelho para muitos garotos, até da sua cidade em Mato Grosso?

Às vezes, recebo esse tipo de mensagem, de pessoas dizendo que se espelham muito em mim, que admiram o meu trabalho. Principalmente, pessoas da minha cidade que é bem pequenininha, tem 30 mil habitantes, no interior do Mato Grosso. Pessoas que falam para os seus filhos: ‘Aquele menino lutou, batalhou pelo sonho dele. Hoje ele está lá. Então, lute e não desista dos seus sonhos. Se você quer alguma coisa, lute por isso porque você vai conseguir e vai ter’. Vira e mexe algumas pessoas me mandam esse tipo de depoimento e me toca muito. É uma responsabilidade grande e por isso eu luto tanto por esse sonho. Eu digo que não é um sonho só meu, é um sonho da minha família, da minha cidade, dos meus amigos. É um sonho que todo mundo me ajuda a sonhar todos os dias, diariamente. É um sonho que eu vou lutar por todos os dias da minha vida para continuar.

Como os seus pais estão acompanhando o seu sucesso?

Eu não tenho mais o meu pai, ele faleceu há três anos. A minha mãe é extremamente orgulhosa. As revistas que mando para ela estão todas rasgadas de tanto que ela folheia para mostrar aos vizinhos, para todo mundo. E a minha mãe ainda está morando numa cidade do interior de Mato Grosso que não é a que eu cresci, que tem 2 mil habitantes. Então, assim, todo mundo conhece a minha mãe, é a mãe do ator da novela, todo mundo quer saber o que está acontecendo e como é. Ela esteve aqui recentemente no Rio para comemorarmos os meus 30 anos, e foi muito legal. Ela voltou para casa com todo mundo babando, virou celebridade (risos). 



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