Nicola Siri: “Essencial ter conquistado tudo com suor e esforço”

Sucesso em Jesus, italiano exalta amor pelo público brasileiro desde Mulheres Apaixonadas


  • 10 de dezembro de 2018
Foto: Rodrigo Lopes


Por Luciana Marques

Desde a estreia de Nicola Siri na teledramaturgia do nosso país em Mulheres Apaixonadas, em 2003, foi paixão à primeira vista. Tanto dos brasileiros, que de cara se encantaram pelo seu personagem Padre Pedro, como do ator, que se apaixonou pelo público daqui. Desde então, Nicola, nascido e criado em Gênova, filho de pai italiano e mãe brasileira, vive no Brasil, mas não deixa, claro, de visitar e trabalhar também na terra natal.

Atualmente, o ator é destaque na pele de Pôncio Pilatos, na trama bíblica Jesus, da Record TV. Além de exaltar a parceria com Larissa Maciel, que vive Claudia Prócula, esposa do governador da Judéia, ele diz adorar fazer papéis históricos. E garante que o seu vilão “ganharia as próximas eleições”. Indagado sobre a sua ligação com religião, parafraseia o filósofo Friedrich Nietzsche: “Ele já dizia que a religião é o ópio dos povos...”

Confira o ótimo bate-papo do Portal ArteBlitz com o ator, que fala ainda de sua "fase de cinema".

Pôncio Pilatos (Nicola Siri). Foto: Blad Meneghel/Record TV

O que tem instigado mais você ao dar vida a Pôncio Pilatos?

Amo fazer personagens históricos. Você tem que se aprofundar ainda mais nas referências por estar dentro de um momento bem específico da história da humanidade... E que momento! O que adoro em Pôncio Pilatos é a sua ética irredutível, até cega, e uma fé absoluta em Roma e nas próprias convicções.

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Pilatos faz tanto parte da história que foi incluído no símbolo da fé cristã: "...padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morte e sepultado..." Como você o definiria, ele seria mesmo um vilão da história ou até santo?

Já foram dadas inúmeras interpretações a personagens históricos desta importância. A linha que a Paula Richard adotou para o Pôncio Pilatos é a de um homem extremamente duro, autoritário, impiedoso, cruel, racista, classista, intolerante, ignorante - no sentido etimológico da palavra, autocentrado -, um verdadeiro vilão... Ganharia com certeza as próximas eleições!

Como está sendo a parceria com Larissa Maciel?

Melhor seria impossível! Eu não conhecia ela pessoalmente e nunca tinha visto um trabalho dela. É uma verdadeira Artista. Uma Atriz completa, inteligente, generosa, capaz de ouvir, entender, e com intuições absolutamente geniais! É uma honra e um prazer ser parceiro dela (P.S. as letras A maiúsculas de artista e atriz pra ela são propositais!)

Pôncio Pilatos (Nicola Siri) e Cláudia Prócula (Larissa Maciel). Foto: Blad Meneghel/Record TV

A Record tem feito grandes produções bíblicas. Por que você acha que o público tem embarcado tanto nessas histórias?

A Bíblia é uma história universal e conhecida pelo mundo inteiro. É como quando se fala de Shakespeare, tem tudo lá!

Qual a sua ligação com religião?

Nietzsche dizia que a religião é o ópio dos povos... Quem sou eu para contestar e julgar tamanho filósofo. Jesus ensina isto.

Entre as características de Pilatos, ele perde a paciência com facilidade, é autoritário... Mas também tem o lado apaixonado pelas suas mulheres, até ouve Claudia de vez em quando. Há alguma semelhança entre você e o personagem?

(risos) Muitas semelhanças! Perco muito facilmente a paciência, sou autoritário, amo e escuto a minha mulher, praticamente duas gotas de água com o meu personagem, mas ainda não mandei crucificar ninguém! Sou totalmente contrário às armas e à violência, bem diferente do Pilatos...

Foto: Rodrigo Lopes

Há 15 anos você fazia muito sucesso em sua estreia na TV brasileira como o Padre Pedro de Mulheres Apaixonadas. Qual a importância desse trabalho, as maiores lembranças, porque marcou muito, né?

Eu devo ao Padre Pedro a minha vida no Brasil! Foi o começo de tudo! Serei eternamente grato à produtora de elenco Ana Margarida Leitão, que infelizmente já não está entre nós, que mostrou o meu teste do arquivo da Globo ao Manoel Carlos e ao Ricardo Waddington, porque não conseguiam escalar o Padre Pedro! O que fica no meu coração e na minha memória são as pessoas... Walderez de Barros, Lavínia Vlasak, Tony Ramos, Vanessa Gerbelli, a criancinha Bruna Marquezine, Cristiane Torloni, os inesquecíveis Claudio Marzo e Umberto Magnani e muitos outros!

Desde então, você veio para fazer um trabalho, mas acabou ficando. Por que a opção de morar e trabalhar no Brasil?

O reconhecimento do meu trabalho foi o fator determinante para que eu decidisse ficar aqui! Amo o público brasileiro. 

Você tem ido muito ao seu país natal, não sente falta dos hábitos, da cultura, tão diferente da nossa?

A Itália é onde nasci, cresci e morei até os meus 34 anos. Os meus amigos de uma vida vivem lá! É a minha origem, a minha cultura sim, sinto saudade, mas como globalizou-se o mundo, acho importante pensar na terra como o seu quintal de casa. É preciso viver sem medo, sem preconceitos, absolutamente aberto, curioso e disponível a qualquer possibilidade futura. Agora, eu e a minha família moramos aqui, mas quem sabe o ano que vem...

Recentemente você rodou o filme italiano Quanto Basta. Fazendo um paralelo entre as produções de cinema na Itália e no Brasil, há muita diferença, ou as qualidades técnicas e de profissionais se parecem muito?

Cinema é arte, pelo menos o tipo de Cinema que eu gosto de fazer, e a Arte é Universal! Afinal de contas se trata de seres humanos que apostam em contar histórias, em fazer e promover cultura. Estes tipos de seres humanos são muito parecidos em qualquer lugar do mundo.

Pôncio Pilatos (Nicola Siri) e Cláudia Prócula (Larissa Maciel). Foto: Blad Meneghel/Record TV

Pelos meus cálculos, desde a Itália, você tem mais de 22 anos de carreira. Como você avalia essa sua caminhada, alguma mágoa, arrependimento, ou tudo tem acontecido da maneira que deve ser?

Nenhuma mágoa, nenhum arrependimento. Tive muita sorte que não queimei etapas, fiz tudo na hora certa, nos momentos certos, inclusive os erros... Foi essencial ter que conquistar tudo com suor e muito esforço! E continuo mantendo o meu coração de criança. Para mim, o teatro, o cinema e a televisão continuam como lugares sagrados e mágicos! E continuarei estudando, me aprimorando, escutando, brincando.

Você é um ator que faz muito teatro, textos importantes. Como tem visto todo esse momento "cinza" da cultura nacional, como a classe tem driblado isso?

É um momento realmente difícil e decisivo. As mudanças na Lei Rouanet, a falta de investimentos e gestão pública no setor e o novo cenário político assustam. Mas a classe artística seguirá, como lhe é natural, pelo viés da luta, da resistência, da informação e questionamento, em prol da Arte, da Cultura, da democracia, da tolerância, da igualdade, dos Direitos Humanos! A gente não lê Brecht, Genet, Beckett, Ionesco, Saramago, Plinio Marcos e etc... à toa!

Você tem três filmes para lançar, são todos para 2019?

O longa-metragem italiano Quanto Basta, de Francesco Falaschi, estreou em abril de 2018 na Itália e ainda está rodando por inúmeros Festivais Internacionais. A Voz Do Silêncio, a obra prima brasileira de André Ristum, estreou dia 22 de novembro no Brasil inteiro, ganhou em Gramado o kikito de Melhor Diretor e Montagem e com certeza vai ter uma longa vida internacional. O longa noir argentino El Diablo Blanco, de Ignácio Rogers, sim será lançado em 2019, mas ainda não se sabe exatamente o período, o diretor me disse há poucos dias que a montagem está ficando belíssima... Vamos que vamos!



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