Nelson Freitas revive drama pessoal em O Tempo Não Para

Intérprete do Livaldo na trama, assim como Samuca, ele foi afastado do pai quando novo


  • 02 de janeiro de 2019
Foto: Alle Vidal


Por Luciana Marques

Um dos atores bastante requisitados na linha do humor, Nelson Freitas está no ar como o malandro Livaldo, pai de Samuca (Nicolas Prattes), que reapareceu para prejudicar o filho e a ex, Carmen (Christiane Torloni), em O Tempo Não Para. Ao dar vida ao personagem, o ator revive, ao contrário, um drama pessoal. Ainda novo, ele viu sua mãe afastar ele e os irmãos do pai, também chamado Nelson Freitas. “Meu pai realmente era um 'fio desencapado', e a minha mãe adotou essa técnica ‘Carminiana’ de ser, e nos afastou dele”, conta.

Na entrevista, Nelson revela que precisou de anos de terapia para tentar entender essa atitude da mãe e de como seria se ele tivesse vivido com o pai, não sabe se melhor ou pior. O certo é que o convite para a trama das 7 mexeu com esta “ferida” na vida do ator. Mas em nenhum momento ele titubeou em aceitar o convite. “Quanto mais intenso, melhor”, diz. Nos próximos capítulos, durante um embate de Livaldo com Dom Sabino (Edson Celulari), após armação dele com a ajuda do vilão Lúcio (João Baldasserini), o malandro vai atingir Marocas (Juliana Paiva), grande amor de seu filho, Samuca, com um tiro.

Dom Sabino (Edson Celulari), Carmen (Christiane Torloni) e Livaldo (Nelson Freitas). Foto: Globo/Victor Pollak

Como é interpretar o Livaldo, esse homem que abandonou o filho e a esposa e agora voltou, porque ele é um malandro, né?

Quando você pega um personagem a primeira coisa que tenta fazer é criar uma identificação, usar ferramentas que existem na sua vida. Quando é muito fora do teu espectro, demanda uma energia diferente. O Livaldo faz coisas com o filho e com a Carmen que me mostram que ele não é uma pessoa boa, tem um desvio de caráter. Então, seria muito mais fácil eu ser o bonzinho, já que sou um cara de boa, que sempre primou pelo caráter, honra, correção. Por outro lado, existe o fato de que o mocinho e a mocinha são papéis chatos. O vilão é sempre rico porque tem muitas nuances. Mas a gente está podendo entender dentro da dramaturgia mundial que não tem mais aquele maniqueísmo da pessoa ser só má ou só boa, você vê humanidade das pessoas, mesmo elas fazendo as maiores atrocidades. O foco do Livaldo é a Carmen, e isso respinga no filho. E vai causar um dilema, que o personagem vai ter que negociar.

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Acha que ele tem afeto por esse filho?

Sempre teve. Como ele era péssima influência porque era jogador, arriscava coisas, era como um fio desencapado. Daqueles que você vai mexer e sabe que vai dar choque. A Carmen preocupada com o filho, disse ‘Te dou uma grana para você sumir das nossas vidas’. E ele estava precisando de dinheiro. As circunstâncias o fizeram aceitar esse negócio e ela continuou o empurrando para fora da vida dela e do filho. Como os homens não têm esse compromisso tão forte como as mulheres e mães, que são viscerais, ele mete o pé na vida e vai. Chegou num ponto, que por conta do filho querer conhecê-lo, ele volta.

Mas o Samuca não sabe que o pai recebia dinheiro para isso?

Não, mas vai acabar descobrindo isso e o porquê dessa situação toda. A Carmen também não foi tão legal assim afastando ele, porque pai é pai. E eu, Nelson Freitas, tenho uma vivência disso muito forte, muito definitiva na minha personalidade. Minha mãe também me afastou do meu pai propositalmente. Era uma coisa do tipo: ‘Não quero que você o veja’. E ela brigava quando a gente encontrava com ele, porque ela sentia, às vezes, o cheiro do meu pai na gente. ‘Você teve com seu pai’, ela dizia. Eu vivi isso.

E por que ela o afastava de você e de seus irmãos?

Porque ele era o Livaldo, pô (risos). Meu pai era um cara que vivia fora do tempo dele. Era louco, mas um louco do bem. Minha mãe adotou essa técnica ‘Carminiana’ de ser e me afastou. A porrada final foi ela ter me mandado para o colégio militar. Com 12 anos eu saí de casa, então não tinha mais como me encontrar com ele. Daí nunca mais voltei para Mogi das Cruzes, que é a cidade onde nasci. Ele era um cara legal, eu gostava muito dele, mas realmente era um fio desencapado.

Com Edson Celulari e Nicolas Prattes em intervalo de gravação. Foto: Reprodução Intagram

Como vê a postura da sua mãe hoje em dia, entende?

Você tem ideia da quantidade de dinheiro que gastei com analista? Estou com 56 anos, e é sempre uma pergunta. Minha mãe não tinha a menor delicadeza ao falar: 'A culpa é de vocês que só fazem merda’, mas eram merdas de criança como correr atrás de pipa. Então a gente achava que a culpa de eles não estarem legais, eram da gente. Tudo bem que naquela época eu tive uma educação rígida, de porrada, e até hoje ela acha legal isso, e diz ‘Olha para vocês, estão todos bem, cresceram’. Minha mãe é viva ainda, a 'roliça rebelde' (risos), e acha que tudo o que fez foi certo. Ela não está de todo errada, mas não estava de todo certa. Todos tivemos úlcera, problemas no aparelho digestivo... Meu irmão Régis morreu de câncer no intestino, de reincidência, de culpas. E a mãe não tinha aquela coisa de ‘vem cá, vamos conversar’. Hoje em dia todo mundo conversa. Acho legal e tento aplicar isso nas minhas filhas, que não são legítimas, mas são filhas que abracei na vida. Elas se aproximam, batem papo. Meu neto, Felipe, que já está com 14 anos, virou o amor da minha vida, porque foi com ele que entendi o significado da palavra ‘amor’ (ele se emociona).

Como foi o início das gravações com essa história da trama se misturando com a sua?

Isso mexeu muito comigo. A primeira cena de Livaldo com Samuca cena foi muito legal. Ele acabou indo ao encontro porque existia uma demanda para ver o pai, e eu já sabia que o Livaldo voltava com más intenções, que era tomar a empresa. Eu saí com o Nicolas (Prattes) conversando em cena, e quando a gente se separou eu comecei a chorar sozinho. Voltou tudo na minha cabeça. Imagina como eu queria abraçar meu pai? Não sei se ia querer ter ele hoje, porque poderia ser uma desgraça na minha vida. Era um cara com um tom acima, louco. Ele fazia coisa para o bem dos moleques, mas queria fazer o bem por meios errados.

O ator também está no elenco de Pais de Primeira. Foto: Tomás Arthuzzi

Você sabia dessa carga toda quando aceitou o personagem?

Não. Fui me surpreendendo ao longo do tempo. São coisas surpreendentes. Esse ano achei que não iria rolar mais nada e, de repente, vem esse novo trabalho.

E se você já soubesse sobre tudo isso do personagem, mesmo essa semelhança com sua vida pessoal, toparia?

Claro, estamos aqui para isso. Quanto mais intenso melhor. Eu me emociono várias vezes. O grande barato é ficar inteiro e intenso.

Você sente que Livaldo pode se regenerar?

Eu espero. Não sinto porque tudo é possível, mas o caminho que resolvi dar para ele é ser agradável, legal, como todo malandro.



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