Nany People "causa" como Marcos Paulo em O Sétimo Guardião

Aos 53 anos, atriz estreia na Globo: “Precisei provar que estou acima da drag que criei”


  • 14 de dezembro de 2018
Foto: Globo/João Miguel Júnior


Por Luciana Marques

Normalmente quando chega nos lugares, a querida Nany People, de 53 anos, já chama a atenção por sua simpatia e alto astral, além do inseparável leque. Mas agora, ela vai “chegar causando” na fictícia Serro Azul, de O Sétimo Guardião, na pele de Marcos Paulo, o químico que trabalhou no passado com Valentina (Lília Cabral). “Ele é o inimigo íntimo da vilã, é o calcanhar de Aquiles dela”, conta Nany.

Em Paris, Marcos Paulo fez a cirurgia de redesignação de gênero. Imaginem, então, a cara da Valentina quando vê-lo... Mas, para saber, só assistindo aos próximos capítulos da trama. O certo, é que o grande público vai poder se deliciar com o talento de Nany, que já brilha há anos nos palcos de todo o Brasil. Além disso, ela foi repórter de programas populares como o da saudosa Hebe Camargo. “Tudo vem na hora certa. Eu precisei provar para as pessoas que estou acima da personagem que criei enquanto drag”.

Marcos Paulo (Nany People). Foto: Reprodução Instagram

Como surgiu o convite para O Sétimo Guardião?

O produtor de elenco Lauro Macedo viu minha história no blog Papo de Camarim e se encantou, e ele não sabia que eu tinha formação teatral. Aí ele perguntou se eu toparia fazer um teste na Globo. Eu muito na minha falei: ‘Em julho é meu aniversário, eu devo ir ao Rio’. E ele disse: ‘Não Nany, preciso de você para ontem’. Cheguei no Rio dois dias depois, ele mandou o teste para mim. Fiz duas vezes, um num tom mais dramático e outro num tom mais jocoso. Quinze dias depois, quando estourou a greve dos caminhoneiros, a produtora da Globo me ligou. Achei que era trote, porque já tinha caído em vários trotes do Pânico, já fui convidada até para ser enredo de escola de samba e achei que era verdade. Resumindo, eles disseram que gostaram muito e perguntaram se eu podia voltar ao Rio para bater um papo com o Rogério Gomes. Só que a notícia vazou. E antes de falar com o Papinha, acordei com o mundo inteiro atrás de mim. Vim, conversamos por meia hora com toda a direção e produção. Fiz prova de figurino e comecei o workshop para botar a mão na massa.

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Quem é o Marcos Paulo?

É o ponto de saturação da Valentina, o calcanhar de Aquiles, inimigo íntimo da vilã. É o único que fala: ‘Filhinha, acorda para a vida. Acorda viado’. Tem um texto muito intimista, tipo: ‘Tá boa mona? Tomou água de chuca?’. Ela falaria isso para a amiga, porque elas se conhecem do passado. Marcos Paulo ajudou Valentina a fazer a fortuna que fez. Em algum momento tiveram uma treta, que ainda não descobri qual foi. Quando a Valentina resolve voltar para Serro Azul, ela precisa descobrir o segredo da água de lá. Então liga para o Marcos Paulo, mas não sabe que ele acabou de fazer a cirurgia de redesignação de gênero. Tem até uma cena que ela encontra o Gabriel (Bruno Gagliasso) e diz: ‘Como você cresceu, te ensinei a andar de pedalinho’ (risos).

E como foi o primeiro encontro com a Lília Cabral?

Quando vi a Lília Cabral na minha frente não sabia se ajoelhava, se acendia uma vela, chamava o Samu ou tomava água com açúcar (risos). E eu logo disse pra ela: 'Não vou fazer a divônica não, macaco de auditório é pouco pra mim'. Aí ela falou, me dá um abraço, e foi lindo! Como minha praia é teatro, começamos a conversar e descobri que convivemos com muitas pessoas em comum. Acho que é um encontro de almas.

 

 

Antes de chegar a Serro Azul, onde Marcos Paulo estava?

Em Paris. A Valentina liga para ele e ele acabou de fazer a cirurgia, mas a Valentina não sabe. Então ela está esperando uma entidade, e chega a nova 'Loira do Tchan', a porção mulher que até então vivia resguardada.

E essa questão de ela não mudar de nome?

Até o fato de não mudar de nome, ela faz para causar. Faz questão de ser respeitada, e isso tenho em comum com ela. Ela não tem vitimismo, isso é importante ainda mais num momento como esse. Dei uma entrevista à Marie Claire, e falei que as pessoas estão muito encaretadas demais. Em 2001, eu fazia o programa da Hebe Camargo, uma atração para a família brasileira. Imagina hoje uma drag sendo repórter? Ser transexual para mim nunca foi problema. Aprendi ainda criança em casa com minha mãe, quando ela foi chamada pela diretora do colégio que eu estudava em Poços de Caldas. A diretora disse: ‘Seu filho tem um problema’. E ela respondeu: ‘Problema, não. É a condição dele, cabe a mim como mãe fazer dele a pessoa mais feliz do mundo’. A pedra no sapato é ele se recusar a mudar de nome. Essa foi uma imposição do Aguinaldo Silva. Imagina quando ele resolver sair um dia para dar uma badalada em Serro Azul? Porque ele diz: ‘Eu não fiz o que fiz para ficar fazendo a freira’. O bom disso é que não é a vilã. Quando você coloca humor na coisa, qualquer discurso para ser pertinente tem que ser bem-humorado.

Foto: Globo/Estevam Avellar

Ao contrário do Marcos Paulo, você assina como Nany People, já está até em seu RG, né?

Um outro presente! Essa era uma coisa que eu queria há muito tempo. Há 18 anos, estou tentando isso. Antigamente o processo era muito mais complexo, burocrático, inclusive clinicamente. Hoje me apresento como Nany People Cunha Santos, muito prazer.

O meio do entretenimento é de muito ego. Mas a gente vê como você foi recebida com carinho por todos do elenco. Como vê isso?

O bom de ter 53 anos é a maneira como se leva a sua vida, e a constrói. A minha vida foi galgada no teatro, onde fiz a minha história. Completei 33 anos de São Paulo. Cheguei na cidade com 20 anos, fiz Macunaíma, Sessão Universitária na Unicamp, trabalhei no teatro Paiol, e fiz a minha história acontecer na TV linkada ao teatro. Uma vez perguntei ao Sidney Magal, que estava sendo entrevistado na roda de mulheres na Hebe, o que ele fez para não ser varrido para baixo do tapete nos anos 70, porque ele continuou na mídia fazendo peças de teatro e novelas. E ele falou uma coisa que nunca mais esqueci: ‘O que eu faço é camarim. Porque não basta você ser brilhante em duas horas e meia de peça ou em uma hora de filme, você tem que ser brilhante no viés dos bastidores, porque é isso que faz com que não tenham dúvidas do seu caráter, porque a sua qualidade de caráter não pode ser perdida’. Isso eu dou graças a Deus. Viajo o Brasil de A a Z, e o pessoal pode me ver duas e meia da manhã numa encruzilhada, mas para e me pergunta ‘Dona Nany, está indo fazer peça ou show, onde?’ Já linkam meu nome a isso. Cheguei com 53 anos na Rede Globo, depois de ter feito Manchete, Record, SBT, Bandeirantes, Multishow, e cheguei aqui num núcleo desses com Rogério Gomes dirigindo, Aguinaldo Silva, Lília Cabral, musa inspiradora de uma geração. Acredito que aquela coisa do universo conspirar a favor é isso.

Foto: Reprodução Instagram

E quando você olha para trás, lembra daquela menina que chegou em São Paulo, qual o filme passa na sua cabeça?

A gente nunca faz as coisas por projeção. Você faz ou por instinto de sobrevivência ou necessidade. Tem um texto da Marília Pera, que fazia Elas por Elas, que falava: ‘A criança que fui assistindo, ouvindo o trabalho dessas grandes mulheres, atrizes, cantoras, essa criança permanece viva dentro de mim, imutável, encantada’. O viés da história é que vai dizer ou ser interpretado como querem. Aí tem aquela coisa que falei da roda da fortuna e inconsciente coletivo serem a favor de você. As pessoas vão pensar: ‘Essa merece estar ali, essa ralou a periquita na rodovia da vida (risos)’.

Você acha que essa oportunidade veio na hora certa ou demorou muito?

Tudo vem na hora certa. Eu precisei provar para as pessoas que estou acima da personagem que criei enquanto drag. Até quando me tornei trans muita gente teve um estranhamento pelo fato de eu ter feito minha vida midiática nesses programas populares, começando como jurada, repórter na Manchete… Tudo isso fazendo teatro. A vida vai virando uma colcha de retalho, que quando você olha não sabe quem faz parte do barrado ou do miolo. Por isso, acredito que veio na hora certa. Se tivesse vindo antes, não teria tempo nem de surtar. Não dá tempo nem de fazer a linha blasé.

Como é o look dela?

Aí você tem que ver. Só te digo uma coisa, Serro Azul está jogada no tempo. Não tem internet, não tem nada... O sopro de modernidade que vai chegar em Serro Azul vem por Valentina que é chiquérrima, e Marcos Paulo que chegou de Paris. Imagina a missão francesa chegando ao Brasil...



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