Milton Filho: “Ser artista não é fácil, mas ser artista negro é fazer metateatro todo o dia”

Ator de Amor Sem Igual lembra lutas e vitórias, como viver palhaço negro no teatro


  • 06 de fevereiro de 2020
Foto: Blad Meneghel/Record TV


Por Luciana Marques

Desde criança, Milton Filho animava a casa. Seja imitando Michael Jackson, Mussum ou “dançando na chuva” como o Fred Astaire. “Era peralta ao extremo. Não me via fazendo outra coisa”, diz. Mas até poder conquistar o seu espaço, foi uma luta. Ele trabalhou como meio oficial em elétrica, vendedor a atendente de lanchonete. Mas a partir dos cursos na Lona Cultural Terra, em Guadalupe, Rio, e nas Oficinas de Criação de Espetáculos do Rogério Blat e do Ernesto Piccolo, o seu talento começava a ser descoberto.

Logo surgiu a possibilidade de atuar no primeiro longa, Noel – Poeta da Vila. Mas como a maioria dos atores no Brasil, ele iniciava a sua luta por espaço. E admite que os “nãos” foram muitos na sua caminhada. “Ser artista não é fácil, agora ser artista negro é difícil, é ser transgressor, é fazer o metateatro todo dia”, conta. Milton, que também é bailarino e faz parte da Comissão de Frente da Beija-Flor, desde 2011, atualmente está no ar como o enfermeiro Chico, de Amor Sem Igual, da Record TV.

Como você descobriu o seu amor pela dança e a atuação, sempre curtiu? Sim, desde muito pequeno. Minha mãe me disse que ganhei um concurso de carnaval quando ainda nem tinha um ano! Ela me colocou no palanque e eu me soltei ao som dos Sambas de 82. E já com 5, 6 anos dançava lambada com minha irmã mais nova, participávamos de todos os concursos.

E como parou no universo artístico, passou antes por outras profissões? Já fiz de tudo um pouco, até vender os bolos de coco que minha mãe fazia na feira de domingo. Mas sempre tentava conciliar para não deixar de lado o que realmente sabia fazer. Dois lugares foram muito importantes para alicerçar o artista que hoje eu sou: a Lona Cultural Terra, em Guadalupe, na pessoa do meu mestre Silvio Curty ( já falecido) e as Oficinas de Criação de Espetáculos do Rogerio Blat e do Ernesto Piccolo. Meu primeiro longa, Noel o Poeta da Vila, fiz graças a oficina. Um dia a produtora de elenco Dani Pereira foi no ensaio do espetáculo e pediu meu contato. Fiz teste com outros atores do Rio e de São Paulo, mas peguei o papel. De lá pra cá fiz o que todo ator faz: levei material nas agências e produtoras. Mandava foto e vídeo para cada produtor de elenco que eu passava a conhecer graças aos palcos. E, mesmo assim, eu ouvia muito “nãos”, pois sempre tinha a desculpa de eu não estar no perfil.

 Foto: Blad Meneghel/Record TV 

Ser ator e ser bailarino no Brasil não são realizações fáceis. Você passou por muitos perrengues até conseguir seu espaço? Não foi fácil... Quando estava na quarta série do primário, houve uma apresentação sobre a inconfidência mineira e eu ia participar, mas a professora não me deixou pois eu era bolsista. Mas eu via os ensaios e gravei as datas de todos e todas. No dia da apresentação, o menino que fazia o Tiradentes passou mal, e aí a professora perguntou quem sabia... E assim eu estreei com peruca, bata e forca gritando “Libertas que sera tamen”. Eu, Tiradentes, sendo negro, gordo, míope, bolsista, pobre e suburbano. Desde desse dia eu já sabia o que queria ser e saberia que não seria fácil.

Quem foram as suas referências nas áreas de dança e atuação? Tenho muitas, me apaixono por cada colega de trabalho com quem já dividi a cena. Mas Dona Ruth de Souza, Abdias do Nascimento, Milton Goncalves, Zezé Mota, Fernanda Montenegro, Silvio Curty, Marcelo Misailidis, Sueli Guerra entre outros me fizeram enxergar que era da arte que eu iria viver.

Você acha que a questão da representatividade na TV, por exemplo, melhorou hoje ou tem muito o que alcançar ainda? E no universo da dança? Tanto na TV quanto na dança, o Brasil ainda engatinha para equilibrar as coisas. Tivemos uma colonização muito centrada na Europa, muito branca. Sendo que nós negros somos 54% da população. E queremos e temos o direito de nos vermos mais nos teatros, nas campanhas publicitárias, nas novelas, filmes e palcos. E também nas universidades, na política. Nos restaurantes, nos aviões. Em todos os lugares. E sem estarmos somente servindo.

Você participou do musical Chaves. Como foi representar um personagem que nem faz parte da história de Chaves, mas é uma grande homenagem ao primeiro palhaço negro do Brasil, o Benjamim de Oliveira? Fazer Chaves foi a realização de um sonho. Sempre quis pisar na vila e o teatro me proporcionou isso. E ainda homenageando um ícone! O precursor do circo-teatro. Trazer a ancestralidade da arte circense de Benjamim para o palco dos dias atuais se faz mais que necessário. Foi uma honra.

Milton no musical Chaves como o palhaço Benjamim. Foto: Divulgação

O que você mais aprendeu nesse trabalho? Hoje eu tenho um palhaço e várias gagues circenses que carregarei pra vida.

E sobre a participação em Amor Sem Igual. Como está sendo viver esse enfermeiro pé de valsa, o Chico? Ainda sem acreditar! Agradeço todos os dias a Deus e a minha agente Dany Fonseca. Ligar a TV e ver meu nome ao lado de Castrinho, Selma Egrei, Iara Jamra, Paulo Figueiredo, Marcia Di Milla entre outros, não tem preço. E o Chico só me traz alegrias, está sendo um grande aprendizado. Nunca tinha trabalhado em uma novela com um personagem que permanece na trama do início ao fim. E poder traçar o futuro do Chico está sendo maravilhoso.

E qual a importância não só de mostrar uma casa de repouso na trama, mas a “vida” na terceira idade, com atores maravilhosos, que estão aí dando show? De uma imensa importância trazer à tona as discussões de uma sociedade, e esse papel também é o de uma novela. Nossa autora foi incrível em colocar esse núcleo de feras para dar voz aos idosos e também trazer esperança, pois nunca é tarde para começar. E posso dizer que de idosos eles não têm nada!

Você também faz parte da comissão de frente da Beija Flor. O que mas instiga você nesse trabalho? Já estou na equipe do Marcelo Misailidis desde 2011, e desfilo no carnaval desde 2003. O samba é uma paixão antiga. E a cada novo enredo entramos numa carpintaria que se assemelha ao processo do teatro. É de um fascínio tamanho e de uma responsabilidade enorme pois temos que garantir os 40 pontos para a escola. Marcelo é um mago em trazer à tona sua ideia na comissão, tira de cada um de nós componentes o que quer, todos viramos um só. E esse ano não será diferente! Olha a Beija-Flor aí gente!

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