Marieta Severo: “As cenas que me custam mais são as com a Estela”

Atriz avalia repercussão de sua serial killer e define momento do Brasil como perigoso


  • 27 de março de 2018
Foto: Globo/Mauricio Fidalgo


Por Luciana Marques

O nome de Marieta Severo se confunde com parte da história da televisão, do teatro e também do cinema brasileiros. Com mais de 50 anos de carreira, ela coleciona papeis memoráveis. Em sua casa, guarda prêmios máximos do teatro, como dois Molière (No Natal a gente Vem te Buscar, de 1981; e Estrela do Lar, 1989) e dois Mambembe, pelas mesmas peças .

Mas em se tratando de um nome como o dela, a cada novo personagem é um deleite para o público. Atualmente, Marieta dá vida de forma magistral à vilã Sophia, de O Outro Lado do Paraíso, a serial killer mais comentada do momento na teledramaturgia. E os memes nas redes têm divertido a atriz. “Não frequento rede social, mas acho ótimo. Ser meme hoje em dia é a glória, não?”, comenta  ela, aos risos.

Nessa entrevista franca e descontraída para um grupo de jornalistas nos Estúdios Globo, Rio, a atriz diverte-se com a repercussão do papel, diz que acha o cabelo comprido de Sophia ridículo, e que até pouco tempo só saia de casa com os fios presos. A atriz ainda avalia a situação atual do Brasil como perigosa, mas, para quem viveu a experiência de ser exilada, em 1969 quando ainda era casada com Chico Buarque, diz que jamais deixaria o país para morar fora.

Sophia. Foto: Globo/Raquel Cunha

"Não frequento as redes sociais, então, quando fico sabendo de algumas coisas, é porque minhas filhas me mandam. Eu me divirto muito, acho ótimo. Ser motivo de meme hoje em dia é a glória, não é? (risos)."

Como é a repercussão de ser a mulher mais perigosa do Brasil atualmente?

Quem diria não é? Sou tão frágil, tão mignon e a Sophia mata cada 'homão'. São tesouras poderosas (risos). É muito bom poder fazer um trabalho com essa repercussão. A gente trabalha para isso, para levar ao público emoções das mais variadas, mesmo que seja raiva. O ator quando tem um personagem dessa força, já trabalha contente.

O que você tem escutado nas ruas?

Ouço muito: ‘Nossa Dona Nenê (papel de A Grande Família), como você está má!’ (risos). Ouvi muito isso no início, agora só dizem coisas como: ‘Estou com ódio de você’.

Você imaginava que ela seria uma malvada dessa dimensão?


Sabia que era uma vilã, mas o bom da novela é isso. O ator também se surpreende com a capacidade do autor de criar coisas, de voar, e de te levar para caminhos que você não imaginava.

E sobre o envolvimento da Sophia com o Mariano (Juliano Cazarré), também foi uma surpresa?

Eu não sabia. O que eu sabia é que a Sophia tinha aquela família disfuncional, uma filha transgressora, e um filho que batia em mulheres. Isso já estava previsto desde sempre e trabalhei nesse sentido, de criar uma mãe que desse margem aqueles filhos, e entender a trajetória dos filhos através da mãe. Pensei como seria essa mãe e descobri que existe o termo 'mãe tóxica', que é uma mãe que intoxica emocionalmente os filhos, e tem uma relação com afeto completamente bloqueada, e trabalhei muito nesse sentido. Não sabia do Mariano, das tesouras, de nada disso...

O que vem pela frente?

Vocês, jornalistas, sabem mais que eu (risos). Às vezes, o pessoal vem falar comigo dizendo: ‘Saiu em tal site, em tal blog, o que vai acontecer tal coisa’. Recebo os capítulos e fico muito curiosa para ler.. O Walcyr (Carrasco – autor) tem esse poder de conduzir a ficção envolvendo completamente o público, criando milhares de suspenses. Cada trilha que ele propõe tem suspenses e desenrolares que vão prendendo o público, por isso que é um sucesso.

 

Foto: Globo/Marília Cabral

"Sou tão frágil, tão mignon e a Sophia mata cada 'homão'. São tesouras poderosas (risos). É muito bom poder fazer um trabalho com essa repercussão. A gente trabalha para isso, para levar ao público emoções das mais variadas, mesmo que seja raiva."


Você acha que a Sophia tem conserto e qual o final você daria para ela?

Basicamente, sou uma pessoa que acredita no ser humano e em todas as possibilidades dele, inclusive de se regenerar, está aí o Gael como exemplo. Mas a Sophia é tão autocentrada, incapaz de ver o outro, age de acordo com os interesses dela acima de tudo, que são dinheiro e poder. Então, não sei se ela teria solução fora desse redemoinho que vive. Ela diz que adora o Gael, mas ela o usa e manipula esse filho, e vejo tudo nela muito tóxico. Ela é um exemplo tão grande de uma camada da nossa sociedade, tão voltada para esses valores. Gosto de interpretar uma personagem que faz as pessoas pensarem através das más ações dela. Como ela pode ter um bom final, se ela não tem nada de afeto, empatia, solidariedade, nenhum valor para sustentar. Mas ela é um exemplo de valores presentes na sociedade moderna. Vamos dar um exemplo através dela para ela se ferrar? O pior é que na vida real, essas pessoas como ela estão se dando bem... Quem sabe se ela se der bem no final fique uma coisa mais real, não é?

Na sua primeira novela, O Sheik de Agadir (1966), você já havia feito uma serial killer, não é?


Sim, eu era o Rato, e agora em O Outro Lado do Paraíso, eu tinha um capanga chamado Rato. Fiquei toda boba achando que era uma homenagem. Fui perguntar para o Walcyr, e ele disse que nem lembrava (risos).

Como você encara as brincadeiras nas redes sociais?

Não frequento as redes sociais, então, quando fico sabendo de algumas coisas, é porque minhas filhas me mandam. Eu me divirto muito, acho ótimo. Ser motivo de meme hoje em dia é a glória, não é? (risos).

A Sophia foi perdendo aliados no caminho. Ela vai ganhar mais algum?

Ela vai ganhar um aliado forte que é o Renato. Ele vai querer tirar todo o dinheiro da Clara e tem argumentos para isso. Ele, na verdade, era aliado dela, porque a ajudou lá atrás.

Você acha que ela é capaz de amar alguém de verdade?

 

A si mesma acima de qualquer coisa.

Pelo Mariano, ela sente amor?

Eu acho que precisamos dizer o que é o amor. O amor para cada pessoa funciona de um jeito, e o amor da Sophia pelo Mariano é o mais torto possível. É aquele da posse absoluta, ela quer o Mariano para ela, não podem tirá-lo dela. Ela rompe com a filha, contou um segredo para a filha de forma cruel, porque aquele homem não pode ser tirado dela de jeito nenhum. Ele é dela! Ela tem esse sentido de posse que o dinheiro que ela sempre teve garante a ela.

"Como Sophia pode ter bom final, se ela não tem afeto, empatia, solidariedade. Mas é exemplo de valores presentes na sociedade moderna. Vamos dar um exemplo através dela para se ferrar? O pior é que na vida real, pessoas como ela estão se dando bem."

Sophia (Marieta) e Mariano (Juliano Cazarré). Foto: Globo/Raquel Cunha


Essa cena em que a Sophia contou para a Lívia (Grazi Massafera) que não era mãe biológica dela, como foi para você gravar?

Ruim. Ela é fria, parece despida de sentimentos, de empatia. A possibilidade de causar um sofrimento na filha para ela não interessa. E existem pessoas assim, sabemos disso.

E as cenas que a Sophia mata pessoas, são muito pesadas para você?

São muito pesadas, mas eu já estou me acostumando (risos). A primeira foi horrível, fiquei muito mobilizada, me lembro de cada detalhe, foi um dia inesquecível. Tenho que dar o máximo de veracidade possível às cenas, porque gestualmente sou pequena, magra, e ela até enterra o cara. Você viu a cova que ela fez, com quase dois metros de altura? Tenho certeza que ela faz musculação (risos). Emocionalmente, as cenas com a Estela (Juliana Caldas) me custam mais.

Você conversa com ela antes?

Conversamos. Mas na hora de ensaiar ela viu que eu já estava mal porque não aguentava mais falar aquelas coisas. São falas muito cruéis. Quando você começa, é uma linha que tem no personagem que é muito tênue. Quando começamos a ensaiar, e vou falando aquelas coisas, é muito doloroso.

Mesmo com tantos anos de carreira, ainda é difícil não levar isso para a casa?

Eu não levo para casa. Saio com cansaço físico e emocional por fazer uma personagem com essa carga, é uma carga pesada, mas enquanto estou ali, até entrar na personagem sou eu, Marieta, é a minha sensibilidade. O nosso material é a gente.

Como é a sua relação em família?

Tenho uma relação muito próxima com a minha família, nunca fui uma mãe distante, e mesmo trabalhando muito procurei estar presente na vida das minhas filhas e netos. Temos uma coisa familiar da qual me orgulho muito, qualquer coisa que acontece estamos falando, nos encontramos toda semana. Nos falamos por whatsapp, e-mail.

Você acha que a criação da Lívia, Gael e Estela foi o que fez com que eles desenvolvessem aquele tipo de personalidade?

Não, eu acho que nunca é uma coisa só falando de ser humano. Seria muito simples e nem Freud teve essa ousadia, mas creio que pode sim colaborar. Tem uma coisa que me passou pela cabeça agora, o Gael independente dessa mãe, é aquele menino criado se achando com direito a tudo. Ele seria um playboyzinho dessa elite que tem tudo o que quer. Me parece que ela deve ter compensado a falta de amor dela dando tudo materialmente. Acho que você pode entender alguma coisa do comportamento dele através dela, mas não completamente.

"Ter dois teatros como eu e a Andrea (Beltrão) temos neste momento é duro, mas ao mesmo tempo tão bonito porque estamos tendo tanta proporção de ocupação que é surpreendente. São atos de resistência mesmo!" 

Com a família da ficção, Grazi Massafera, Juliana Caldas e Sérgio Guizé. Foto: Globo (Raquel Cunha)
 

Como é a sua troca em cena com essa nova geração?


Eu adoro, dei muito sorte, porque são atores que jogam, estão no jogo cênico e não só aqueles que vem com a cena pronta e ficam parados querendo saber qual seu melhor ângulo. É outra categoria, eles são muito presentes na busca pelo personagem, de estarem ali vivos fazendo aquilo e descobrir junto. Sou muito feliz com o meu núcleo.

Você é sócia do teatro Poeira. Como é vivenciar em meio a toda essa crise da cultura os dois lados, o de atriz e o de empresária?

Está um momento social e econômico muito complicado, e espero que seja um momento de transição para que as coisas melhorem para continuarmos no caminho de conquistas sociais que estávamos. A sensação é que está tudo andando para trás, mas acredito que a tendência é passar por esses momentos terríveis e as coisas plantadas florescerem. Ter dois teatros como nós temos neste momento é duro, mas ao mesmo tempo tão bonito porque estamos tendo tanta proporção de ocupação que é surpreendente. São atos de resistência mesmo. Algumas pessoas estão desistindo, aí temos que colocar outros no lugar, aí o dinheiro que vinha de um lugar, não veio. Acabamos de estrear três peças, e vemos que as pessoas estão com essa resistência.

Como está o Brasil para você?

Está perigoso, muito difícil em que velhos temores vêm à tona. Gastei minha juventude toda, porque pensar que você é jovem, está na sua melhor energia de transformação e está sufocado dentro de uma ditadura, e isso me volta a cabeça. Sempre acho que as coisas mudam, mas tenho medo de ter que viver muito para ver esse jogo mudar.

Você já pensou em deixar o Brasil, morar fora?

Não, não tem a menor possibilidade. A situação de exilada é muito triste. Adoro viajar, mas quando tenho vontade. Nada como a liberdade, e temos que estar muito atentos porque têm muitas forças em jogo, retrógradas e violentas, que querem resolver as coisas de forma menos humanitária possível. Isso não me atrai e acho que temos muitos caminhos para o ser humano dessa sociedade.

Um dos assuntos abordados na novela é o preconceito racial. Na sua família tem pessoas negras. Vocês já passaram por alguma situação de preconceito?

Passamos. Quando a Lelê (Helena) ficou grávida do Carlinhos (Brown), saíram comentários muito cruéis na imprensa e a nossa reação foi fazer o que fazemos agora, que é processar. Teve um jornalista de Goiás que foi enquadrado até por não ser réu primário numa situação assim. O que podemos fazer é lutar contra isso, que é a coisa mais estúpida, absurda e cruel que existe: o preconceito racial. Cada vez que qualquer dessas coisas se manifesta, para a gente não se sentir completamente impotente, a gente processa para poder ter algum gesto. Já ouvi gente ser preconceituosa e argumentar: ‘E minha liberdade de expressão?’. Gente, como assim? Vamos meditar sobre isso?

E o coração de avó como fica vendo os netos trilharem pelo caminho da arte?

Fica feliz. Eu fico feliz por cada um trilhar o próprio caminho seja da arte ou não. Tenho 7 netos, o Chiquinho (filho da Helena e do Carlinhos Brow) é o mais velho, e está demonstrando essa vocação para a música. Espero que cada um deles descubra a própria vocação. É o que salva a gente. É uma benção quando a gente descobre na vida o que gosta, e consegue fazer.

"Quando a Lelê (Helena) ficou grávida do Carlinhos (Brown), saíram comentários racistas muito cruéis na imprensa e nossa reação foi fazer o que fazemos agora, que é processar."
 

Você chegou onde sempre sonhou?

Nunca sonhei chegar e não sei onde estou, então não sei … (risos). Sempre trabalhei muito, levei minha profissão a sério e me dediquei muito à ela. Se há algum reconhecimento, como no caso de uma senhora que foi ao teatro ver minha peça e se emocionou, me faz ter vontade de ir adiante.

E esse cabelo loiro, vai continuar com ele depois da novela?

Eu não! Ainda mais com esse tamanho, só a Sophia mesmo que é ridícula, a essa altura da vida, nessa idade, achando que pode usar esse cabelão aqui (risos). Eu, Marieta, só andava de cabelo preso, outro dia fui ver a peça da minha filha de cabelo solto e ela disse: ‘Mãe, você está de cabelo solto’. E eu respondi: ‘É, acostumei, né’? Eu não conseguia me ver com o cabelo assim. Já tive esse cabelão, mas quando eu era jovem, mas cabelo preto não dava pra ficar mais não, porque fico uma bruxa.

O que você vai fazer depois da novela?

Como sei que terminarei bem cansada. Tirarei um tempo para descansar, e depois já tenho um filme para fazer que chama Aos Nossos Filhos, dirigido pela Maria de Medeiros.



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