Mariana Xavier: “Procuro ser uma gordinha saudável. É a tal balança custo-benefício”


  • 07 de novembro de 2017
Foto: Marcos Carvalho


Por Ana Júlia

Difícil não se encantar com Mariana Xavier. Seja em atuações como a Marcelina do filme Minha Mãe é uma Peça, mais recentemente como a Biga, de A Força do Querer, ou nas performances de arrepiar na Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão. Autêntica, a atriz de 37 anos não tem papas na língua. Mas tudo o que fala é seguido por fortes argumentos. “Procuro ser uma gordinha saudável. Mas como sempre digo, é a tal balança custo-benefício. No meu caso, a saúde está em primeiro lugar”, conta.

Apesar dos quilinhos a mais, Mariana esbanja autoestima e alto-astral. E tem ajudado muita gente sobre essas questões de amor-próprio, principalmente em seu canal no YouTube e no livro Gordelícias – Crônicas de quatro mulheres felizes com seu próprio corpo, em que lançou junto com Cacau Protásio, Fabiana Karla e Simone Gutierrez.

O que a experiência no Dança tem trazido de ganhos para você?

Está sendo incrível! Sempre quis participar. Estou me sentindo meio criança na Disney com toda aquela produção! E gosto muito de dançar. Fiz balé e jazz quando criança como quase todas as meninas da minha geração, mas não tenho técnica. Meus contatos com a dança aconteceram muito intuitivamente. Então, está sendo legal ter a oportunidade de conhecer outros ritmos.

Acha que isso pode ajudar em futuros trabalhos?

Você pode não ser especialista em nada, mas ter noção de muitas coisas acaba ajudando. Já fiz judô, muay thai... E como odeio malhação tradicional, localizada, musculação, sempre preferi atividades físicas mais dinâmicas. E pensava, ninguém vai me chamar para um personagem porque sei andar na esteira ou levantar a perna com a caneleira. Mas podem me chamar por saber lutar judô, ter noção de capoeira ou de sapateado. Tudo isso te enriquece e vai ampliando seu leque de possibilidades de personagens.

"Muita gente acaba distorcendo o meu discurso ou achando que estou fazendo apologia à obesidade ou ao conformismo. Nunca foi nada disso! Defendo é que as pessoas tenham direito de ser como elas acham que é bom para elas."

Está se surpreendendo com você no Dança?

Muito! Estou vencendo medos. No rock, por exemplo, tive que dar uma estrela. E eu era aquela criança que não dava estrela de jeito nenhum. Claro, existem limitações do corpo também. É o que falo sempre. Você ser bem resolvida não significa não ter consciência das limitações. Pelo contrário! Acho que, justamente, para ser bem resolvida você precisa ter consciência dos pontos fortes e dos fracos para saber administrá-los. Sei que o meu corpo traz limitações. Mas, como tudo na vida, tem que ver se o preço está compensando. A única balança que as pessoas realmente deveriam se preocupar é a do custo-benefício. Em tudo na vida, relações, trabalhos, saúde. Se o meu benefício ainda está maior do que o preço que estou pagando, então, beleza. Agora, se você começa a perceber que está tendo mais ônus do que bônus, é hora de mudar. Tem muita gente que acaba distorcendo o meu discurso ou achando que estou fazendo apologia à obesidade ou ao conformismo. Nunca foi nada disso. Defendo é que as pessoas tenham direito de ser como elas acham que é bom para elas. E, se em algum momento, percebem que aquele jeito que vivem começa a não fazê-las mais felizes, têm todo o direito e o dever de mudar. Não é um atestado, jurar na frente do padre até que a morte nos separe. Não jurei que vou ficar com a minha gordura até que a morte nos separe, não...

"Ouvi uma frase que carreguei para a vida: 'Um pouco pode quase tudo'. Acho que todo o radicalismo é que vira problema."

No seu caso, o fato de sempre ter feito esportes ajuda muito, não é?

Sim. Eu procuro ser uma gordinha saudável. Eu monitoro muito, tenho problema de tireóide, então, preciso fazer exames regularmente. Tomo medicamento por causa disso. Acho que a nossa primeira preocupação não tem que ser a estética, mas a saúde. A minha é muito boa, graças a Deus e procuro cuidar dela. Seguro a onda da alimentação quando consigo, justamente para poder sapatear na jaca quando me dá vontade. Ouvi uma frase que carreguei para a vida. 'Um pouco pode quase tudo'. Acho que todo o radicalismo é que vira problema. Não adianta você se preocupar só com a saúde do corpo e ter uma mente doente. Tem que ter um equilíbrio entre as duas coisas.

"A melhor forma de você combater o preconceito é tratar aquilo como uma coisa normal. Sem ficar o tempo inteiro grifando a questão."

A Biga tinha a questão da autoestima alta. Acha que isso tocou muito gente. Você teve esse feedback?

Sim, muito! A Biga tem um perfil no Instagram, com mais de 70 mil seguidores. Na verdade, ela engrossa uma mensagem que, eu, Mariana, já procurava passar há alguns anos. E ela veio como um grande reforço a todo esse discurso de amor próprio, de aceitação. Outro dia encontrei uma senhora no mercado e ela disse: 'Adoro você. Me senti representada pela Biga porque também sou uma gordinha muito gostosa e saudável.' E era uma senhora, achei legal. A Biga para mim é uma grande vitória, porque o peso foi só uma das características dela, não a principal. E sempre batalhei por isso. A melhor forma de você combater o preconceito é tratar aquilo como uma coisa normal. Sem ficar o tempo inteiro grifando a questão. A gente não pode ter um gay bem resolvido, que é bem casado, que tem sua família? Não, tem sempre que ser uma questão para os outros ou para ele mesmo. A gente não pode ter uma gorda normal que lida bem com o peso e que um dia está engraçada e outro está triste? A Biga veio abrindo esse caminho pelo qual tanto batalho. Tive muitas oportunidades de mostrar um lado da Mariana atriz que muita gente não conhecia, o que sabe falar sério, se emocionar. Então, saí muito feliz da novela.

"Por ser artista, te tratam como se estivesse acima da humanidade. Talvez se tudo o que vem acontecenco comigo hoje tivesse ocorrido aos meus vinte e poucos anos, acreditasse realmente que eu era o máximo." 

Você começou no teatro aos 9 anos. Sente que tudo vem acontecendo no devido tempo?

Sou espírita. Acredito que todos os nãos que recebi, os testes que não passei, foram essenciais para me preparar para essas coisas que estão acontecendo agora. Quando estava pagando para trabalhar, sem ter dinheiro para nada, mendigando para fazer uma participação, em vários momentos me perguntava: 'se não tivesse parado uns anos para fazer faculdade de publicidade, se estaria em outra situação'. Não estaria! Se as coisas que estão acontecendo hoje tivessem acontecido antes, certamente não teria maturidade para administrar. É um universo muito louco e se deslumbrar é fácil. Por ser artista, te tratam como se estivesse acima da humanidade. Te convidam para todos os lugares, dizem que você é o máximo. Talvez se isso tivesse acontecido comigo aos vinte e poucos anos, realmente acreditasse que era o máximo. Então, acho mesmo que tem sido tudo na hora certa. Mesmo assim, não é fácil administrar. A Dança dos famosos, por exemplo, é um canhão de visibilidade, para o bem e para o mal. Tenho tido que lidar com isso, passado por um momento de entender esse processo. E, por mais que eu tente ser o meu melhor, de acordo com os meus valores, muito sólidos, ainda assim tem gente que acha que você não é bom o suficiente.

Fale um pouco do seu canal no YouTube.

Lancei em dezembro. E é muito legal, uma oportunidade de as pessoas conhecerem mais a Mariana pessoa física, o que pensa na vida. A Dança dos famosos ajuda muito também. Mas ainda assim acho que o que mostram é pouco. O meu canal hoje é o veículo mais direto que tenho com os fãs. E o retorno tem sido muito legal.

Você ainda tem a peça o Último Capítulo e está preparando outra?

Espero que a gente ainda viaje até o fim do ano e depois no início de 2018 com o Último Capítulo. E eu estou preparando um monólogo para o ano que vem que ainda não tem nome. Com certeza, vai ser o maior desafio da minha vida. Quem está escrevendo é o Gustavo Pinheiro, baseado nas minhas histórias, nas crônicas do livro. Estou definindo ele como um espetáculo solo, autobiográfico e esquizofrênico. 



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