Maria Gal: “Famílias negras na teledramaturgia deveriam ser regra, não exceção”

Atriz de Poliana diz que teatro em Salvador e perrengues na vida a ensinaram a resistir


  • 23 de maio de 2019
Foto: Pino Gomes


Por Luciana Marques

Se no sucesso As Aventuras de Poliana, do SBT, Gleyce chama a atenção por ser uma mulher consciente sobre questões raciais, buscando empoderar os filhos, principalmente em relação à autoestima, sua intérprete, Maria Gal, também é inspiradora. Baiana arretada, talentosa e linda, com 10 anos de carreira, ela busca cada vez mais autonomia de sua história. Tanto que abriu a Maria Produtora quando percebeu a escassez de trabalho, principalmente, para mulheres negras. 

Maria fala com propriedade sobre o assunto, lembra que num país em que 54% da população se autodeclara negra, seria necessário muito mais representatividade. “Famílias negras na TV deveriam a regra, não exceção”, ressalta. Mas em se tratando de Maria, ela vai à luta. E está cheia de projetos. Entre eles, o longa Carolina, biografia da escritora Carolina Maria de Jesus, no qual será a protagonista; e a série de comédia Os Souza, em fase de captação, escrita por Cláudio Torres Gonzaga e com produção de Maria, sobre uma família negra em ascensão social.

Foto: Beatriz Nadler/SBT

Que balanço você faz até agora da participação da Gleyce em As Aventuras de Poliana?Levando em consideração que Gleyce é uma mulher consciente e empoderada, que busca melhores condições de vida para a família, tenho percebido uma repercussão muito positiva do público. Além disso, ela é uma mulher consciente sobre as questões raciais e busca empoderar também os filhos Kessya (Duda Pimenta) e Jefferson (Vitor Brito). O bacana é que isso tem aparecido inclusive para além dos episódios da novela, como por exemplo no canal do youtube do Luca Tuber (João Guilherme). Neste episódio a Gleyce cita vários personagens históricos negros que merecem ser conhecidos pelos jovens e adultos, e fala sobre a importância de cada um deles.

 

O que você mais escuta sobre a personagem? Tenho me surpreendido bastante porque muitas pessoas dizem que se inspiram na Gleyce. Dizem que gostam da forma como ela conduz o caráter dos filhos, o fato também dela ser um exemplo enquanto mãe, mulher e até empreendedora. Confesso que Gleyce Soares tem me dado gratas surpresas. E o encaminhamento da personagem tem me deixado muito feliz porque ela também tem se empoderado intelectualmente. Em cena, por exemplo, que está no meu Instagram ( @mariagalreal ), Gleyce fala sobre a questão racial com a diretora e coordenadora da escola  de forma muito consciente. E para além dessa consciência ela trabalha muito bem a autoestima dos filhos

E como é a troca com o elenco infantil e jovem? É muito gostoso. Apesar de trabalhar na escola, a maioria das cenas da Gleyce são em casa ou no comitê do laço pink. Por isso, do elenco infantil e jovem, tenho mais tenho contato com meus ‘filhos’. E é uma delícia gravar com eles, até porque infelizmente não é sempre que vemos uma família negra no ar na teledramaturgia, ainda mais por tanto tempo. Agora em maio estamos fazendo um ano de novela no ar. 

Foto: Pino Gomes

 O que o público pode esperar de novas emoções no núcleo na personagem? Fortes emoções com certeza! Após este primeiro ano de novela no ar, a família Soares irá passar por grande reviravolta, o que pra gente, enquanto elenco, é maravilhoso porque vamos cultivando outras camadas dos personagens. 

O que você achou da morte do Ciro e, consequentemente, da saída do Nando Cunha da novela? Prefiro não comentar a respeito.

E como vai ser agora pra sua personagem sem o Ciro? Agora vocês vão ter que assistir aos próximos capítulos. O que posso adiantar é que Gleyce empodera-se ainda mais e que muito coisa boa está por vir!

Como é para você fazer parte de uma das poucas famílias negras atualmente na teledramaturgia? Por um lado é fantástico poder entrar nas casas das pessoas através de uma personagem que reflete uma maioria da população brasileira, mas por outro é muito triste, justamente porque fazemos parte de uma rara exceção. Ainda mais se levarmos em conta que a família Soares está no ar há um ano. Uma sociedade, no qual mais de 54% da população se autodeclara como negra, necessita de muito mais representatividade, não apenas na TV mas em todos os lugares de poder, no jornalismo, na publicidade, nos cargos altos de grandes empresas...  De acordo com nossa proporcionalidade social, as famílias negras na teledramaturgia deveriam ser a regra e não a exceção.

Foto: Pino Gomes

São raras ainda as tramas na TV protagonizadas por negros, mas já há filmes estrelados pelo Fabrício Boliveira, o Lázaro Ramos vem agora dirigindo o dele... Na sua opinião falta ainda muito mais representatividade? Com toda certeza! Para nós negros, neste momento não queremos apenas estar lá fazendo parte, queremos protagonizar, queremos autonomia, papéis não estereotipados e muito mais espaço. Lázaro e Fabrício são grandes inspirações nacionais pra mim e com certeza inspiram muita gente. Porém o que nos falta é oportunidade, principalmente para nós, atrizes negras. Se eu te perguntar por exemplo quantos filmes nacionais você já assistiu que era protagonizado por uma atriz negra? Provavelmente você irá contar nos dedos, se lembrar. Isso porque infelizmente estamos no elenco principal em apenas 4,4% das produções nacionais, apesar de sermos a maioria populacional. 

Falando ainda sobre isso, você criou a Maria Produtora muito em função dessa escassez de trabalho para negros, certo? Criei a produtora em busca dessa autonomia, para produzir filmes e séries que dialoguem com temas sobre a questão racial e feminina, que pra mim são questões muito caras. Comecei a fazer teatro no Teatro Vila Velha com o Bando de Teatro Olodum, que há mais de 20 anos já falava sobre as questões raciais. E isso quando ainda grande parte da sociedade acreditava no mito da democracia racial e que não éramos um país racista. Então acredito que ficou no meu DNA, enquanto artista, discutir sobre esses temas.   

O que vem de novidades aí da produtora que você já possa falar? Estamos em fase de captação de recursos de uma série e um filme que falam sobre as questões raciais. Estamos aprovados nas leis e em busca de patrocínio, já temos alguns grandes patrocinadores. Mas caso tenha algum possível patrocinador/apoiador que esteja lendo essa entrevista e quiser saber mais do assunto, podem nos contactar no email contatomariaprodutora@gmail.com , visto que ainda temos algumas cotas abertas. 

Você sempre teve um ativismo forte em relação às mulheres, aos negros, e o país viveu recentemente uma fase em que muitas pessoas acabaram revelando fortemente seus lados misóginos, machistas, racistas... De onde você tira força para lutar contra isso tudo? Sinceramente, não sei se tenho esse ativismo todo (risos). Sou uma mulher, negra, nordestina que migrou pra São Paulo sem conhecer absolutamente ninguém. Nesse período tive inclusive que trabalhar como garçonete para me manter e limitar minha alimentação, porque não tinha como arcar com todos os custos na época. Talvez essa bagagem e o próprio fato de ter começado a fazer teatro em Salvador me dê força, não de apenas resistir, mas de protagonizar e ter cada vez mais autonomia sobre minha história. 

Desde que fase da sua vida e por que você começou a se engajar? Como falei tive uma passagem pelo Bando de Teatro Olodum no início da minha carreira e acredito que esse período foi fundamental para esse engajamento. Por outro lado, sempre fui uma pessoa curiosa e busco superar-me, e talvez isso de alguma forma inspire outras pessoas. 

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