Maria Eduarda de Carvalho sobre Miss Celine: “Me emociona”

Atriz fala do encanto com papel e da crença na arte como ferramenta de transformação


  • 28 de agosto de 2018
Foto: Divulgação / Guilherme Scarpa


Por Luciana Marques

Assim que Miss Celine, papel de Maria Eduarda de Carvalho, despertou 132 anos depois do naufrágio do navio Albatroz, em plena São Paulo do século XXI, as redes sociais piraram. De imediato, todos adoraram o jeito divertido, culto, meigo e puro da filha de inglês com brasileira, preceptora de Marocas (Juliana Paiva), Nico (Raphaela Alvitos) e Kiki (Natalia Rodrigues), em O Tempo Não Para.

Para a atriz de 36 anos, que tem sólida carreira de 23 anos na TV, no cinema e no teatro, a personagem tem lhe encantado e lhe emocionado como nunca. “Quando vejo, tenho que me segurar para não estar com os olhos cheios de lágrimas o tempo inteiro. Realmente, é muito arrebatador tudo o que Celine me traz”, conta ela, que entre as últimas novelas estão Sete Vidas, de 2015, e Tempo de Amar, de 2017.

Cria do teatro, na entrevista Maria Eduarda lamenta a crise pela qual o país passa, e a situação grave da cultura. Mas ressalta que vem lutando e se mantendo fiel ao que mais acredita. “A arte realmente transforma o indivíduo”, reitera. 

Miss Celine (Maria Eduarda de Carvalho). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Como faz para manter a Miss Celine tão linda e jovem após 132 anos (risos)?

Pois é! Muito congelamento, muito gelo. Essa técnica primorosa que parece que funcionou super bem com essa família inteira. Até o cachorro descongelou intacto.

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Como está sendo integrar o elenco de O Tempo Não Para?

É uma novela muito original, bem escrita. Eu acho que tem um humor mais para o sarcasmo, que conversa muito com o tipo de humor que gosto de trabalhar. Estou profundamente feliz com esse trabalho porque eu acho que, além de um texto bem escrito, de atores que estão trabalhando muito bem, a novela fala de questões importantes para serem aprofundadas hoje em dia. A questão da escravidão, 'O que aconteceu? Como foi feita?', o preconceito racial, as questões femininas, os abismos sociais que a gente vem mantendo desde aquela época. Ou seja, muita coisa mudou, mas na verdade a gente transformou muito pouco daquela época até os dias de hoje. É uma novela que vai da graça até as questões mais profundas e importantes da gente questionar e trabalhar.

Fale um pouco sobre a Miss Celine, que todo o mundo já está apaixonado...

Na verdade, é Celine. Miss é senhoria, porque ela é filha de um inglês. Eles a chamam educadamente, cordialmente, de Miss. Miss Celine é uma personagem sensacional. Eu gravei umas cenas com a Juliana Paiva, que é uma atriz maravilhosa que estou tendo a sorte de estar perto, e pensei o quanto essa personagem me emociona. O ato de me emocionar é geralmente complexo. Eu preciso de muita concentração, de um cantinho escuro. Mas a Miss Celine me traz tantas coisas. Ela é de uma ingenuidade, de uma pureza. Ela tem um encanto pelo novo, uma sede de conhecimento. É tudo tão intenso e profundo que ela me emociona.

Foto: Divulgação/ Guilherme Scarpa

Como está sendo ver os congelados tendo contato com coisas novas, essa São Paulo atual?

O que eu acho muito legal no olhar dos congelados é que eles têm um olhar meio que de primeira vez para o mundo, que é uma coisa que as crianças carregam. O Manuel de Barros, que é um poeta que amo, também traz isso. Eu sempre falo que para você conseguir se aventurar, a rever o mundo com um olhar de primeira vez, ou você tem filho ou lê Manuel de Barros e, agora, ou você vê a novela. Eu acho que os congelados também dão essa dimensão para a gente.

Você teve alguma preparação especial para a personagem, já que ela é muito fina, culta?

Tivemos um trabalho muito bacana de preparação de elenco, onde trabalhamos minuciosamente os jeitos da época, os costumes, como eles se portavam, se vestiam, comiam. Eu vi alguns filmes, mas na própria preparação tivemos muito cuidado. E eles vão manter isso nos dias atuais. Essa coisa do gestual, da mãozinha, do recato, de não cruzar as pernas, temos que ficar o tempo todo ligado e não relaxar.

Como tem sido atuar com as gêmeas Nico (Raphaela Alvittos) e Kiki (Natthalia Gonçalves)?

Um barato, é muito divertido. A gente faz uma farra no camarim. Elas são muito interessadas, estudiosas, inteligentes. Apesar do trabalho e das responsabilidades, elas ainda são crianças. Eu acho isso muito legal. Eu tenho uma filha de oito anos e dou muito valor às crianças que ainda são crianças, apesar dos dias de hoje.

Kiki ( Nathalia Rodrigues ), Miss Celine ( Maria Eduarda de Carvalho ) e Nico ( Raphaela Alvitos ). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Você citou que tem dificuldade para se emocionar em cena. Algum momento da sua carreira faz esse sentimento ser despertado?

Alguns. Aliás, um muito próximo. Eu fiz um filme do Miguel Falabella chamado Veneza, que ainda não estreou. Eu fazia uma personagem que tinha uma participação pontual, mas muito importante. Ela está muito doente e uma das cenas dela é no hospital definhando. E foi desafiador porque eu acho que é mais fácil e tem mais pedal quando você vai acompanhando e vivendo aquela história até chegar no fim da linha dela. E essa não, ela é uma personagem muito efêmera. Tem uma participação rápida e já nesse lugar irreversível, de muita gravidade. Tem Sete Vidas, que fiz a Laila, e A Vida da Gente, a Nanda, também, que são novelas que tenho maior apreço.

Há muitas técnicas para o ator ficar emocionado em cena?

Existem possibilidades que você lança a mão. Na verdade, tem a concentração, o trabalho que você se arma de memórias de sua vida. Mas o que mais me favorece é tentar me emocionar com aquela própria história. Quando não consigo, eu lanço mão da minha vida. Mas o mais bacana é quando a gente consegue fazer isso com aquele personagem, com a história que ele está trazendo.

Você tem 23 anos de carreira. Como analisa sua trajetória?

Comecei no teatro com 13 anos. Hoje, o artista se confunde muito com a pessoa famosa. Ser artista está muito nublado, misturado com essa coisa de alcançar a fama. Para mim, o que é importante é usar a arte como ferramenta de transformação. A arte é uma possibilidade de você olhar de um outro ponto de vista alguma coisa ou, de repente, com um óculos de poesia que a olho nu não conseguiria ver. Eu me mantenho muito fiel a esse princípio. Há pouco tempo comecei a escrever. Eu escrevi uma peça (Atrás do Mundo), que eu mesma produzi, que fala sobre morte para criança. Eu tive uma experiência absurda de perder uma irmã (Maria Antônia, aos 25 anos, vítima de câncer) e ganhar uma filha (Maria Luiza, hoje com 8 anos), num intervalo de um mês. E meio que para dar conta de falar e explicar sobre morte para a minha filha, comecei a elaborar essa peça. Vi que era um assunto que interessava muita gente. E apesar da gente ter um governo que ignora a importância da educação e da cultura, venho me mantendo fiel a essa missão de mostrar ao meu país que a arte tem uma importância elementar na formação de um indivíduo. Ela não é supérflua. A arte realmente transforma um indivíduo.



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