Marcos Caruso compara Pedrinho, de Pega Pega, ao povo brasileiro

“De um limão, fez uma boa caipira”


  • 14 de novembro de 2017
Foto: Reprodução Facebook


Por Claudia Dias

Que Pedrinho Guimarães, personagem de Marcos Caruso em Pega Pega é um bom vivant e dono de excelente humor, mesmo com todas as peças que a vida lhe pregou, isso é inegável. Mas o ex-playboy da trama das 19h também faz muita gente refletir sobre o que é, de verdade, a riqueza de uma pessoa. Para seu intérprete, não tem nada a ver com o que o dinheiro pode comprar. “Isso é ostentação!”, afirma.

Com incrível consciência de seu papel na sociedade, como artista e cidadão, compara o personagem ao povo brasileiro. E diz que não falta jogo de cintura para ele. “Pedrinho ganhou um limão, não fez uma limonada, mas uma boa caipirinha”, brinca. Do alto de seu inegável talento, que, sem nenhuma empáfia ele diz saber que tem, Caruso revela que aprende diariamente ao contracenar com Irene Ravache e Elizabeth Savalla, parceiras na trama das 19h, e reconhece em Mateus Solano um dos melhores da sua geração.

"Estamos vivendo em um país, infelizmente, em que as pessoas sobem sete degraus e, em seguida, descem cinco. Nós somos um povo de perdedores. Ultimamente, temos perdido muitas coisas..."

Pedrinho Guimarães

Eu queria ter o dinheiro dele, enquanto ele ainda tem. De verdade, gostaria de levar essa elegância, bom humor, vontade de viajar, de conhecer o mundo, essa resiliência, essa coisa de receber uma pancada e continuar firme, com o pensamento positivo. De achar que o mundo está te devendo, mas, que, de qualquer forma, você continua respirando e tem que dar a volta por cima.

Pedrinho x Povo Brasileiro

O povo brasileiro está passando por mudanças. Não é só o Pedrinho. Ele é aquele cara que perdeu viagens internacionais e só está podendo ficar no Brasil. Tem gente que não está podendo nem ir até Niterói. Estamos vivendo em um país, infelizmente, em que as pessoas sobem sete degraus e, em seguida, descem cinco. Depois, sobem mais dois e descem 14. Nós somos um povo de perdedores. Ultimamente, temos perdido muitas coisas. E o que a gente tem que aprender é que a vida continua e que é da necessidade que surge a criatividade. No caso do Pedrinho, ele ganhou um limão e fez, não uma limonada, mas uma boa caipirinha.

"Gostaria de levar do Pedrinho essa elegância, bom humor, essa resiliência, de receber uma pancada e continuar firme, com o pensamento positivo."

Repercussão

Todo mundo quer ser como o Pedrinho. Ele é um cara elegante, se veste com cores alegres, exala bom humor, é muito popular. Eu estou sendo muito querido pelo público, como nos meus últimos papéis. Sou chamado de Pedrinho nas ruas e estou feliz com esse trabalho.

Poder da televisão

Eu acho que nós, atores, temos uma função social importante porque, através dos personagens, interpretamos parcelas da população que absolutamente existem. Eles vêm de um poder de observação do autor de uma novela que sabe que o que ele está pondo no ar é o reflexo de uma sociedade. Existem Pedrinhos Guimarães, existem Lelecos (personagem dele em Avenida Brasil). Qualquer que seja o nome, nós temos uma responsabilidade social grande, porque estamos interpretando uma parcela da população. E quando a gente é identificado por essa parcela e pelas outras, como sendo o 'cara simpático', o 'cara que diz o que elas gostariam de dizer', aquele que emociona, ou que faz as pessoas rirem ou refletirem, em qualquer lugar do Brasil, eu estarei feliz por ter escolhido essa profissão.

"Existem por aó Pedrinhos Guimarães, Lelecos (de Avenida Brasil). Qualquer que seja o nome, nós temos uma responsabilidade social grande, porque estamos interpretando uma parcela da população."

Sucesso de Pega Pega

Não acho que os críticos tenham falado mal. Acho que não são mais do que dois críticos que não gostam. Você pode achar defeito em tudo na sua vida. Se você olhar para o espelho todos os dias de manhã, vai achar um defeitinho. Se nós temos problemas, temos que corrigí-los. Não vejo problema nenhum em Pega Pega, porque é uma novela que está dando para o público aquilo que ela se propôs. É leve, com uma trama bem armada. Pega Pega é sucesso inegável, o terceiro maior Ibope da casa. Então, se um ou outro crítico acha que a novela tem algum problema, quero dizer a eles que, infelizmente, são minoria.

Marcos Caruso e a riqueza

Acho que riqueza é aquilo que você tem dentro. O dinheiro, e está aí o Pedrinho para mostrar, da noite para o dia, pode sumir da sua vida. Ou porque é roubado ou porque agiu de má fé, ou porque gastou. E tudo o que você adquire como conhecimento, princípio, ética, isso é riqueza. Quanto mais você lê, observa, busca o saber, mais rico você é. Não adianta ter um celular de última geração ou a televisão mais moderna. Isso é ostentação! Você pode viver bem com uma televisão dentro de casa, não precisa ter quatro. E aí, a pessoa é pobre cultural e humanamente falando.

"Se um ou outro crítico acha que Pega Pega tem algum problema, quero dizer a eles que, infelizmente, são minoria. A novela é sucesso inegável."

É bom precisar do outro!

Acho que a gente está vivendo um mundo cada vez menos fraterno. Então, buscar a fraternidade, o olho no olho, a riqueza do sentimento, das emoções. Esse tipo de riqueza, para mim, tem muito valor. Não estou falando isso porque sou bonzinho. Sou um homem da cultura, de relações humanas. A minha função, enquanto artista, é provar que a riqueza imaterial é superior a qualquer coisa que você possa adquirir com o dinheiro.

Pedrinho ama demais

O amor você não esquece. Por que você é obrigado a apagar um amor da sua vida, só porque não deu certo? Fui casado com uma mulher que amo profundamente até hoje. E depois casei com outra que amo profundamente até hoje. Aliás, fui casado com quatro mulheres que amo. Só que estão em um lugar no meu coração e no meu pensamento que é diferente. E não vai passar dali. Se passar também, passou. Porque a vida é assim... A Sabine (personagem de Irene Ravache) teve uma relação forte com ele, não deu certo, mas ele continua amando ela. Ele ama a Arlete (Elizabeth Savalla), mas tem um lugar de amor na vida dele, que se chama Sabine e que ele não vai esquecer. A não ser que ela faça uma grande sacanagem com ele.

"Por que você é obrigado a apagar um amor da sua vida, só porque não deu certo? Fui casado com quatro mulheres que amo."

Contracenar com grandes atrizes

O público vê em nós ídolos que eles admiram. E acham que nós não temos ídolos, temos sim. A minha profissão já me presenteou com a oportunidade de trabalhar com alguns deles. Já pude contracenar com Lima Duarte e Irene Ravache. Impagáveis! Não há dinheiro no mundo que pague o prazer de você estar diante de alguém que admira e poder trocar na mesma intensidade. É o caso também da Savalla, que admiro há anos, quando eu ainda fazia teatro e, pela trajetória dela na televisão, infinitamente superior à minha. Nós temos o mesmo tempo de carreira, mas ela começou cedo na TV, aos 20, e, eu, comecei depois dos 50. Tenho muito a aprender com ela. Mas a gente troca na mesma intensidade de relação. Parece lugar comum dizer que estou feliz por trabalhar com fulano, mas todo o encontro artístico tem que vir do ator, antes do personagem e esse encontro veio comigo e a Savalla.

Mateus Solano

O Solano é uma coisa à parte. A gente sempre acha que um dia vai fazer pai e filho, porque temos o mesmo tipo físico, somos parecidos, inclusive na interpretação. Tenho relação forte com ele no teatro, onde o dirigi. E é um dos maiores atores que temos no nosso país. Na geração dele, é um expoente na história do teatro e da televisão. A Globo te dá essas oportunidades. Nós estamos trabalhando na emissora que reúne o maior número de talentos.

"Eu e a Savalla temos o mesmo tempo de carreira, mas ela começou cedo na TV, aos 20, e, eu, após os 50. Tenho muito a aprender com ela. Mas a gente troca na mesma intensidade de relação. Foi um encontro muito bonito."

Quem é Marcos Caruso?

É um ser humano extremamente feliz porque faz o que gosta. Num país onde a grande maioria das pessoas é obrigada a fazer aquilo que não gosta, porque não consegue chegar lá. Faço parte daquela pequena parcela que faz o que gosta e é muito feliz. Esse sou eu!

Novela

Eu escrevo roteiros de cinema, peças de teatro e já recebi vários convites, aqui mesmo da Globo, para escrever novela, coisa que não quero mais. Já escrevi duas. Tenho talento, mas não me sinto suficientemente profissional nesta área. Mas uma série, um programa, seriado, isso é uma coisa que tenho vontade de fazer.

Projetos e peça no exterior

Esse ano foi demais! Eu estou no ar com Filhos da Pátria, Pega Pega e a Escolinha do Professor Raimundo. Para o ano que vem, temos Brasil a Bordo. E, por enquanto, vou entrar em férias e viajar com a minha peça para Portugal. E em abril, estreio em São Paulo, no Teatro Faap, com o Escândalo de Philippe Dussaert. Mas, de televisão, ninguém falou nada ainda. Meu contrato termina em abril. De repente, esse foi o meu último trabalho na Rede Globo.



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