Lyv Ziese, a prostituta Katiucha de O Sétimo Guardião: “Segura, linda"

Atriz diz como aprendeu a ser mais ousada e a se gostar a partir de suas referências


  • 08 de novembro de 2018
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

Em sua estreia no horário nobre da Globo, Lyv Ziese tem tudo para dar o que falar como a prostituta Katiucha, uma das meninas do bordel da Ondina (Ana Beatriz Nogueira), da nova trama das 9, O Sétimo Guardião“Ela se acha muito linda, vai botar barriga pra fora, perna, braço, vai usar só roupa decotada, jogar o cabelo, usar batom rosa choque e vai dançar até o chão...”, conta a atriz.

Lyv diz ainda que a sintonia entre as atrizes que farão as outras garotas de programa, Carol Duarte, Josie Pessoa e Mila Carmo, é tanta, que até antes de entrar em cena já conversam como se fossem as personagens. “A gente entrou com uma energia muito de sororidade”, explica.

E para a atriz, que também viveu uma prostituta, a Gabardine, em seu mais recente trabalho, Filhos da Pátria, diz que vem aprendendo com os papéis. “Se posso fazer isso na TV, no palco, vamos pra vida, ser mais abusadas, ousadas”, diz.

Nesse super bate-papo com o Portal ArteBlitz, Lyv dá uma lição de autoestima e de como cada um, dentro ou fora dos ditos "padrões de beleza", pode e deve ser feliz.

Katiucha (Lyv Ziese). Foto: Globo/João Cotta

Quem é a Katiucha?

A Katiucha ainda está se descobrindo, ela vem de um passado bem sofrido, e veio parar em Serro Azul. E a Ondina abraçou ela como abraça todas as meninas, trouxe ela para debaixo das asas, cuida, dá trabalho, comida e casa pra ela. Ondina é muito mãezona delas, cada uma tem a personalidade bem diferente da outra. E elas todas vivem em muita harmonia, são irmãs. Elas trabalham juntas, vivem juntas, cuidam muito uma das outras. Porque viver em cabaré, em bordel, como prostitutas, elas passam por muitas situações, às vezes bem difíceis, de violência. Então elas têm que ser bem unidas.

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Cite alguma característica que chame a atenção na personagem...

Ela é muito materna, forte, puxa as meninas, tem muita confiança nela, no corpo, no que ela tem pra entregar. Ela é bem feliz aonde vive, não que ela queira fazer isso para o resto da vida. E ela tem um carinho muito especial por todas elas as garotas, especialmente pela Estefânia (Carol Duarte), que é uma personagem um pouquinho mais frágil, dócil, então ela tem uma coisa de proteção com ela que eu acho que é um pouco da Ondina. Acho que ela corporalmente tem uma força, é abusada, muito observadora, está sempre de olho em tudo. E os clientes confiam muito nela, então ela serve muito de ouvido para os clientes, então a gente não sabe como vai se desdobrar isso, o que ela vai ouvir, o que ela vai guardar, o que ela vai usar dessas informações, é tudo muito interessante.

Como está sendo fazer parte desse núcleo comandado pela Ana Beatriz Nogueira?

Cada uma veio de um background diferente, com uma ideia muito de unidade, delas serem muito juntas, terem suas desavenças, porque elas brigam às vezes. Estão sempre falando todas juntas, uma por cima da outra, mas a gente trouxe isso muito para o nosso dia a dia de gravação, de amizade, e a gente se zoa muito, puxa o cabelo uma da outra, mas tudo num amor tão grande que isso vai imprimir no ar. É uma sorte sensacional entrar pela primeira vez numa novela das 9, horário nobre, com esse elenco. Então, a gente se protege muito, a energia é muita gostosa, porque temos longos dias de gravação. Além do cabaré, tem a pousada, que funciona durante o dia, e a gente está em dúvida um pouco de que horas as meninas dormem e tiram folga (risos). Então a gente conversa muito como se a gente fosse elas, a Carol Duarte traz muito isso pra gente, de antes de a gente entrar em cena já estar falando como elas, o que gostam, o que não gostam, o que comem, o que não comem. E isso vai acabar sendo percebido no ar.

Foto: Globo/Estevam Avellar

E dentro do Cabaré as meninas também vão dançar, né?

Existe uma arte muito grande dentro do cabaré, tanto a Ondina quanto o Adamastor (Theodoro Cochrane), eles querem que seja bem artístico. Então é uma coisa também lúdica dentro daquele cabaré, elas vão fazer shows, sempre terá alguma coisa diferente ou com corpo, a dança, a música. A gente faz aula de tango porque terá muito tango dentro do cabaré. A gente tem um grupo no whatsapp, e vai jogando referências. A Carol mostrou um filme e logo a gente falou: 'Olha, não é nem tanto o fato delas serem prostitutas, mas de como se tocam, se olham, porque existe uma intimidade entre elas muito maior até do que irmãs. Elas trocam coisas muito íntimas, elas trocam clientes, e isso traz uma intimidade muito grande para elas'.

Em Filhos da Pátria você também fez uma prostituta, né?

Sim, é a minha segunda. Eu falo que ela deve ser reencarnação da minha outra prostituta, que é de 1800. E mudou total, a gente começa a pesquisar, ler sobre prostitutas, uma das profissões mais antigas do mundo, e a gente vê como é sofrido, como elas usam o corpo para ter um pouco de independência. Ou para poder talvez não fazer parte de um sistema patriarcal, machista. Elas querem ser livres. Então essa venda do corpo é tipo, eu digo quando vai ser, com quem vai ser, como vai ser! É até uma liberdade, uma confiança corporal de você se entregar para vários homens, para umas pessoas aleatórias todo dia. Eu acho que elas são mulheres muito fortes, sofridas, trabalhadoras, porque além de trabalharem muito, elas ainda tem que trabalhar todo o preconceito e o julgamento.

Foto: Sergio Baia

E como a Katiucha encara essa coisa do corpo, por ser mais cheinha, tem algum problema com isso?

Nossa, ela não tem questão nenhuma. Nesse cabaré não se vê corpos, eu acho que elas não têm isso, ah, você não pode usar tal coisa. Acho que elas são mulheres sem distinção de corpos, por acaso uma mais alta, uma mais gorda, uma mais corpuda, uma mais magra. A Katiucha se acha muito linda, gostosa, ela vai dar em cima do personagem do José Loreto... Ah, você não me quer querido? Você que está perdendo… beijo… Ela é muito segura!

E como você lida hoje com o seu corpo?

Toda mulher tem as suas inseguranças, claro! Eu acho que eu pego muito da Katiucha, e eu peguei também muito da Gabardine, a outra prostituta, para falar, opa! Eu posso fazer isso na TV, no palco, e não posso fazer isso na vida? Vamos pra vida, sabe? Vamos ser mais abusada, mais ousada, que aí começa com uma ousadia e vira uma coisa natural, normal. A gente não questiona os corpos dentro do padrão, por que a gente questiona os corpos fora do padrão? Então, está se achando bonita, gostosa, confiante, é isso! Vai pro mundo! Você tem tudo aí dentro de você! E é isso que eu me digo. Mas é um processo árduo, é uma vida inteira de muita influência, referência de padrão, de padrão... E aí a gente fica tentado lutar contra a maré, e graças a Deus de um tempo pra cá vem mudando muito esse discurso. E só consigo agradecer as referências que eu peguei pra mim.

Katiucha (Lyv Ziese), Stefãnia (Carol Duarte), Adamastor (Theodoro Cochrane), Luciana (Josie Pessoa), Januária (Mila Carmo) e, à frente, Ondina (Ana Beatriz Nogueira). Foto: Globo/João Cotta

Que tipo de referências?

A minha timeline mudou muito, e isso me fez perceber e me ver de uma forma diferente, porque se você tem referências de corpos que não são iguais ao seu, você fica vivendo numa utopia ou fica sempre se diminuindo. E aí eu comecei a pensar, não, calma! Eu não sou anormal! Elas também não são anormais. A gente só não tem o mesmo corpo, só isso! Eu vou seguir ela por outros propósitos, e eu vou começar a seguir uma galera que também tem o meu corpo, para eu poder entender que os dois corpos e todos os corpos têm um lugar no mundo. E que não é porque eu não visto 36 que eu não sirvo para ser atriz, pra fazer sucesso, pra ter amor, ou pra qualquer coisa do tipo. Porque a gente fica se colocando pra baixo. Eu fui fazer uma pesquisa que pra cada elogio que a mulher se faz, ela faz 13 críticas. Você pode chegar pra qualquer mulher, para a Letícia Spiller, que eu acho uma mulher deslumbrante, todo o mundo, não existe uma mulher no mundo que diz, estou de boa com tudo.

Hoje você se gosta mais, está num momento de bem consigo?

Me sinto bem comigo, e eu acho que a gente nunca para de querer ser a melhor versão da gente sempre. Quanto mais a gente se ama, mais a gente tem força pra cuidar da gente, se a gente não se gosta, você não vai ter força pra levantar, pra fazer um esporte, comer bem, tomar mais líquido, se hidratar, cuidar da pele, do cabelo... Então, é isso, quanto mais você se ama, mais quer cuidar de você. Ou falar assim, hoje estou bem, vou colocar um shortinho... E eu ouço muito isso, quanto mais eu posto na rede social, outras pessoas dizem, nossa, eu ia colocar uma calça, mas agora vou colocar um short...



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