Lilia Cabral: “Não adianta só sonhar, tem que sonhar e ir à luta”

Referência nas artes, atriz diz ainda que vilã Valentina não tem afeto por ninguém


  • 23 de dezembro de 2018
Foto: Globo/César Alves


Por Luciana Marques

Com 35 anos de carreira, mais de 50 novelas, quase 20 peças e 10 filmes, Lilia Cabral já está há algum tempo no seleto time de nossas grandes atrizes. Atualmente, o público pode novamente se deliciar com o seu talento, na pele da vilã Valentina, de O Sétimo Guardião. “A Valentina é uma mulher amargurada. Nasceu má, mas só descobriu depois”, conta.

A trama das 9 marca sua sexta parceria com o autor Aguinaldo Silva – a primeira foi em Tieta, em 1989, com a personagem Amorzinho. “O Aguinaldo não se contenta com o politicamente correto. Ele se contenta com a ousadia e é brilhante nisso”, elogia. Premiadíssima na TV e nos palcos, e mesmo já tendo até sido indicada ao Emmy Internacional pela Marta Toledo, antagonista de Páginas da Vida, de 2007, Lilia diz que nunca deixou de sonhar, de lutar, e que trabalha feliz e incentivada.

Valentina (Lilia Cabral). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Como definiria a Valentina?

Quando ela foi abandonada no altar, ela descobriu que podia ser má e com isso ela aproveita para fazer da vida o que ela escolheu, tomar atitudes que ela bem quiser. Já que ela ficou empoderada e se enriqueceu, dentro dessas atitudes, ela não tem folga para bondade.

Eduardo Moscovis: Está aí o gato León em forma de humano

Josie Pessôa, a dominatrix Luciana: “Nada a ver com agressão”

Ela não tem nenhum de afeto, nem com o filho, Gabriel (Bruno Gagliasso)?

Não. Ela não tem nenhum lado de afeto. Ela inclusive não gosta desse filho.

E isso pode ter a ver com ela ter sido abandonada no altar pelo pai dele?

Lógico. Ela não criou uma defesa contra isso. Como ela enriqueceu, ela se acha no direito de poder usar dessa construção da vida dela, um artificio para poder ser aquilo o que é e dizer o que pensa. Ela faz o que quer, manda até matar se for preciso. Ela não é uma pessoa do bem, acho que tem muita gente assim dissimulada.

Esse abandono pode ter sido o estopim para torná-la tão má?

Mas quantas meninas novas são abandonadas, passam por dramas e tragédias pessoais? Muitas! Mas nem por isso a pessoa se transforma em intragável. Eu não acredito que ela tenha se transformado. Acredito que ela sempre foi má. Se eu ficar pensando que ela se transformou fica parecendo que ela tinha uma vida antes e uma vida depois.

Foto: Globo/Estevam Avellar

Acredita ser possível uma mãe não gostar do filho?

Possível é, mas graças a Deus não conheço ninguém assim.

Você se inspirou em alguma outra vilã?

Ela é minha (risos). Eu gosto de fazer esse lado dissimulado, eu amo fazer. Amo fazer as pessoas chorarem comigo e em cinco minutos verem que não é nada daquilo.

As vilãs do Aguinaldo Silva costumam ter alguns bordões. A Valentina vai ter algum?

Eu não gosto de bordão, e ele não me deu bordão nenhum. A Valentina fala algumas coisas divertidas, até pode repeti-las, mas não que sejam bordões. Desde que interpretei a Amorzinho, em (Tieta), em que eu falava 'Cinira’, eu me irritei com bordões.

Você acha que a Valentina veio para marcar as suas personagens?

Eu acho que a Valentina é uma grande personagem e eu vou fazer de tudo para que ela seja bem defendida. 

Valentina (Lilia Cabral). Foto: Globo/Fabio Rocha

Curte o realismo mágico, para você estava faltando falta uma novela assim na TV?

Sim, com certeza. Falta, primeiro porque tem uma geração que não conhece o que é esse realismo mágico. E é muito importante conhecer porque é a história da dramaturgia brasileira. Quem não conhece vai ver como é bom você se desligar um pouco da realidade e começar a assistir a uma novela como se estivesse lendo um livro.

Você já trabalhou muito com o Aguinaldo. O que diria que tem de especial nas tramas dele?

É a minha sexta novela escrita por ele. Ele é muito criativo, tem uma inteligência brilhante para criar personagens. Tanto que quem vê uma novela dele, não esquece justamente por ele ser tão instigante nesse sentido. Sabe criar histórias que se encaixam nos personagens. Essa é a grande beleza dele.

A novela tem o segredo da fonte de juventude. Você tem essa preocupação de não envelhecer?

Eu não tenho interferência cirúrgica nenhuma. Nunca coloquei botox na minha vida. Tenho sim uma genética muito boa que é familiar, e isso ajuda bastante. Vou torcer para que eu continue nesse estado porque eu acredito que os personagens cabem a você conforme o tempo vai passando. Não adianta eu querer ser mais nova ou até mentir a minha idade, porque algum amigo vai saber. Eu tenho 61 anos, e faço aquelas coisas normais de mulher. Me cuido, sou vaidosa, não gosto de comer coisas gordurosas, faço pilates... Tenho todo um cuidado, mas voltado para a saúde em primeiro lugar.

Valentina (Lilia Cabral). Foto: Globo/Fabio Rocha

A cultura no Brasil não é valorizada. Como se sente sendo uma das maiores atrizes de sua geração, e conseguindo viver da arte?

Quando decidi ser atriz, sabia que o caminho a trilhar seria difícil, mas nunca desisti. Então saber que eu posso sobreviver da arte, me deixa feliz. O fato de as pessoas verem nossa imagem e pensar que aquilo vai ser sucesso porque estamos lá é de grande responsabilidade, e dá um medo insuportável pelo estigma. Acredito em trabalho de equipe e trabalhar com o Papinha é um plus, porque ele dá esse espírito de equipe. Tem que estar bom para todo mundo, não só para você. O diretor estabelece para que todos estejam na mesma sintonia. Quando junta um autor supergeneroso, com um diretor que também tem esse olhar, percebemos que estamos na trilha certa.

Você sempre sonhou com esse momento na carreira?

Sempre sonhei, sonho todos os dias. Quero mais que todo mundo sonhe, mas não adianta só sonhar. Tem que sonhar e ir à luta. Trabalho com gente que luta e que gosta da profissão. Aqui não tem uma pessoa que eu não fale, e que não esteja estimulado.



Veja Também