Letícia Tomazella, a Arlete, diverte em As Aventuras de Poliana

Atriz, que se diz “escrachada” como a manicure, ressalta entrega do público infantil


  • 31 de agosto de 2018
Foto: Gustavo Arrais


Por Luciana Marques

*Entrevista também disponível em vídeo, abaixo.

Em As Aventuras de Poliana, do SBT, não há quem não se divirta com as peripécias da manicure Arlete para entrar na high society. Segundo a sua intérprete, Letícia Tomazella, a personagem não é do tipo do mal. “Ela apronta uma ou outra, é realmente deslumbrada e um pouco louca”, constata ela, que se diz encantada em trabalhar para um público tão sincero e entregue, como o infantil.

Indagada se é uma pessoa otimista, já que a novela tem como foco a positividade, Letícia diz se considerar solar, mas, claro, nem sempre. “Outro dia minha mãe mandou eu fazer o Jogo do Contente”, diverte-se ela, referindo-se ao game que a protagonista da trama faz para ver o lado bom até em situações ruins.

Cria do teatro - sua última peça foi a autoral A Cabala do Dinheiro -, Letícia tem entre os trabalhos mais recentes na TV, A Terra Prometida, da Record TV, em 2016, em que viveu a Liora, e na série O Negócio, da HBO, em 2014. Ao comentar sobre a crise que assola a cultura no Brasil, ela diz que está muito difícil produzir teatro, mas deve-se colocar a mão na massa. “Quando acredito num projeto, eu começo, mesmo sem nada”, garante.

Arlete (Letícia Tomazella). Foto: Gabriel Cardoso/SBT

O que tem mais instigado você nesse trabalho em As Aventuras de Poliana?

São muitas coisas. Mas, com certeza, lidar com o público infantil desse jeito mais próximo, mais íntimo. Eu realmente nunca tinha lidado, e acho que é uma das coisas mais instigantes para mim, é um público sincero, entregue, intenso, verdadeiro, e mostra pra gente a responsabilidade que a gente tem como artista. Então, essa oportunidade de lidar com o público infantil, na verdade, adolescente e juvenil, também tem sido realmente instigante para mim.

 

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Como você definiria a Arlete, “deslumbrada”, da “pá virada”, porque acho que do mal ela não é, né?

Não, ela não é do mal! Ela apronta uma ou outra, é deslumbrada e um pouco louca. Então, ela perde a noção, mas tem um limite ético que ela não ultrapassa. Agora, o sonho dela é ser da classe alta, então, faz o possível e o impossível para entrar, mas ela tem, sim, um limite ético, ainda bem. Então, a personagem fica sendo mais cômica do que uma vilã na verdade, embora meio chata e louca, mas eu amo, tá?

Ela faz o que quer com coitado do marido, quer ver o filho alçar voos, mas não leva fé nele.... Mas, no fundo, você acha que ela ama essa família, tem afeto ali por eles?

Muito! Tem muitas cenas de carinho entre eles embora ela seja muito exigente com o filho, o sonho dela é que ele dê certo, claro que muito por ela também, porque ela projeta nele esse sonho. Ela quer ver o filho ser feliz, então, tem momentos que a gente vai ver aí ao longo dos capítulos que ela aconselha ele, ajuda ele a ficar mais bonito, ele tem essa questão da autoestima. E tem momentos que ela é muito parceira do Lindomar, que é o marido. Então, na verdade, essa família é muito louca, mas se ama muito. Que família que não é louca no mundo?

Acredita que existem muitas “Arletes” por aí?

Sim, muitas! E ela habita uma parte de mim, eu confesso. Essa parte mais doida, estabanada, escrachada, eu tenho! Eu acredito em muitas 'Arletes' por aí na ambição, muitas 'Arletes' na coisa sem noção, engraçada, na sinceridade, às vezes, ingênua, infantil, Então, tem! Me inspirei em muitas figuras que eu conheço por aí.

Foto: Gustavo Arrais

Há alguma semelhança entre vocês?

Sim! Isso que eu falei, que é a coisa mais sem noção e escrachada. Agora tem uma outra semelhança que é a perseverança, ela foca um objetivo e vai, luta por ele. Eu também tenho muito isso. Eu sempre tive isso na minha carreira, por exemplo, desde criança falei: 'Quero ser atriz!' E depois: 'O que eu devo fazer?'. Saí da minha cidade lá do interior de São Paulo (Monte Azul Paulista) e fui indo atrás e estou fazendo. Então, a perseverança, de fato, e esse lado escrachado, a gente tem em comum entre nós.

Para compor a personagem você se inspirou em alguém que já passou por sua vida?

Eu sempre acho que uma personagem nunca é inspirada em uma pessoa só, a não ser que seja biográfica, porque aí você está contando a história de alguém. Mas a personagem ficcional é sempre uma mescla das suas experiências com outras pessoas. Então, não conheço uma única Arlete que tenha me inspirado, mas várias pessoas me inspiraram. Sejam artistas, amigas minhas ou outras pessoas que conheci, manicures da vida real. Sou muito observadora do outro, das pessoas.

As Aventuras de Poliana tem como tema a questão da positividade, do otimismo. Como você vê isso, e se considera uma pessoa assim, para cima, otimista?

Sim, eu me considero uma pessoa muito solar, muito positiva. Claro que há momentos em que eu titubeio muito. Minha mãe esses dias andou brincando que eu estava precisando jogar mais o Jogo do Contente, que é um jogo da personagem Poliana. Mas, de modo geral, eu sou muito positiva, não cem por cento. Porque eu acho que ninguém é cem por cento. Mas busco ser um pouco mais solar na vida e, mesmo em momentos que a gente tem grandes problemas, obstáculos e fraqueja, sou uma pessoa que tiro forças de algum lugar para prosseguir.

Arlete (Letícia Tomazella) e Lindomar (Ivan Parente). Foto: João Raposo/SBT

Você é cria do teatro, já fez projeto autoral... Qual a importância de estar no palco para você?

A importância de estar no palco para mim é total! Eu realmente não vivo sem. Claro, tem momentos que a gente para e faz TV, faz outra coisa. Mas estar no palco para mim é essencial. É onde eu posso exercitar minha criação mais autoral mesmo. E tem o contato com o público direto que está ali na hora, e cada apresentação é uma. Essa coisa viva do teatro para mim é muito importante.

A crise no Brasil afeta diretamente a cultura. Como você tem visto isso, já que há muitos atores não estão conseguindo tocar seus projetos, principalmente no Rio?

Eu sou de São Paulo, mas já estive no Rio, mas tanto faz, as coisas estão difíceis para todo o lado na cultura, nas leis de incentivo, patrocínios, editais, seja edital municipal, estadual, federal. Está muito difícil tocar projeto autoral. Sempre acredito, assim, primeiro eu ergo o pé, e depois Deus põe o chão, eu começo sem nada. Nunca comecei já sabendo o que tinha de dinheiro, de estrutura, de equipe. Eu começo! E vai aparecendo, vou lutando pelas condições. Mas quando acredito num projeto, eu começo! Acho que todo mundo deveria fazer, e tem vezes que a gente não faz pelo dinheiro que isso vai dar, é uma necessidade de alma sua mesmo. E aí é claro que você tem que ganhar dinheiro com outras coisas para realizar o seu projeto. Mas é isso, não da para esperar as condições ideais, tem que sair fazendo.

Foto: Gustavo Arrais

Acha que as séries, como O Negócio e várias outras, abriram uma nova vertente no mercado para os atores no Brasil, que antes dependiam muito só das novelas na TV aberta?

Sim, acho que essa nova lei que prevê que o conteúdo dos canais por assinatura tem que ser em grande parte uma porcentagem brasileira, abriu as portas para muitos profissionais, atores, equipe técnica, diretores, roteiristas. Acho essencial, justo que seja assim. A gente tem que produzir o nosso conteúdo. Como o teatro de um povo, de um local, ele é o termômetro daquela nação, ele vai discutir questões dali, a televisão também! Os projetos que tem de série, de novela, de filme também. Emtão, é importante ter o conteúdo nosso, pra gente falar o que é a nossa história, a nossa cultura, o que é que está na nossa alma de brasileiro. Acho que tudo isso abriu portas para muita gente no mercado de trabalho.

Qual o seu sonho na carreira?

Meu grande sonho sempre foi fazer muito teatro, muito cinema, muita televisão, com condições para isso. E acho que devagarzinho eu estou obtendo. Mas se eu pensar num sonho 'master', que eu ainda acho até inalcançável, é fazer um filme do Pedro Almodóvar. Fora isso estou galgando meus passos no Brasil mesmo para fazer muito teatro, cinema que ainda fiz muito pouco e televisão que eu tenho feito. Mas é uma luta, meus sonhos sempre estão na área da carreira, muito engraçado, estão sempre na área de criação.



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