Laila Garin em Malhação: “Falar sobre depressão é fazer um bem”

Referência em musicais, ela avalia trama e diz estar sentindo prazer maior em fazer TV


  • 01 de novembro de 2018
Foto: Globo/ Sergio Zalis


Por Luciana Marques

Uma das nossas grandes estrelas do teatro musical, a atriz e cantora Laila Garin admite que a música é muito presente na sua trajetória. “Às vezes, a minha voz cantada rouba a cena”, constata ela. Essa paixão é longa, tanto que já a vimos estrelar inúmeros musicais, alguns com os quais foi premiadíssima como Elis Regina e Gota D'Água [a seco ], este último ainda em turnê.

Mas em alguns intervalos dos palcos, ela permite-se saborear novos trabalhos em séries como Sob Pressão e 3%. E na TV, como em Rock Story, em 2016, e agora na participação especial como a Tânia, mãe do personagem Álvaro (Eike Duarte), em Malhação: Vidas Brasileiras, que tratou do tema depressão. “Tenho conseguido sentir um prazer maior, porque realmente tenho muito tempo de teatro. E tem sido gostoso fazer TV”, conta.

No bate-papo com o Portal ArteBlitz, Laila, que a partir de 8 de novembro poderá ser vista nos cinemas na pele de Clara Nunes no longa Chacrinha, fala também de dois novos shows que apresentará agora em novembro e dezembro.

Álvaro (Eike Duarte) e Tânia (Laila Garin). Foto: Globo/Paulo Belote

Como está sendo esta experiência de participar de Malhação?

Está sendo muito bom. Já na preparação tivemos um encontro com um psiquiatra e pudemos falar sobre essa questão da depressão, um assunto muito presente na vida de muitas famílias, principalmente nessa fase jovem. E lidar com isso é difícil, é uma doença que tem muitos fatores, questões químicas, mas também comportamentais, psicológicas, contexto de vida, de relações, é um assunto bem delicado. Existem várias maneiras de reagir a ele, a gente não pode julgar. Então, está sendo muito bom entender essa relação, o porquê a Tânia, mãe de Álvaro, reage dessa maneira. É porque são coisas que mexem muito com a gente, a vida do nosso filho, a relação com os pais. Está sendo enriquecedor, ainda mais saber que a gente está fazendo um bem para quem está assistindo. Mostra um pouco do que pode acontecer, é uma coisa boa para o público também.

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E como você foi recebida tanto pelo elenco mais experiente como pelos jovens?

Eu fui super bem recebida. Pela direção e pelo elenco, que já estão lá há um tempo fazendo a novela. Parecia que a eu já fazia parte daquilo. Nunca tinha trabalhado com o Guilherme Weber. Já conhecia a Camila Morgado, foi ótimo. Com o Eike (Duarte) também, rolou uma empatia de cara. E com os meninos da escola também fui muito bem recebida.

A maioria destes jovens de Malhação já chegam muito preparados. Você também percebeu isso, como tem sido a troca com eles?

Eu não tive tantas cenas com os atores mais jovens da série. Mas eu conversei com a Natália (Grimberg - diretora), e achei muito legal a maneira como eles foram preparados. São atores super jovens, de diversos lugares do Brasil, passaram um tempo se preparando, ensaiando, fazendo oficina. Achei muito legal essa diversidade e esse tempo do trabalho. Às vezes, a gente faz tudo com pouco tempo, correndo, e achei esse cuidado muito legal. Quando fizemos uma cena no pátio que tinha todo mundo, estavam todos sintonizados. Mas eu tive poucas cenas mais próximas a eles, mesmo assim pude perceber isso no coletivo.

Gabriela (Camila Morgado), Álvaro (Eike Duarte) e Tânia (Laila Garin). Foto: Globo/Paulo Belote

Como você definiria essa mãe, a Tânia?

Tânia é uma mãe que está sob estado de choque de saber dessa depressão do filho, num estado de negação. Ela não consegue lidar com isso, está autocentrada, não consegue ver o filho como o outro. Ela está tão preocupada com a culpa dela, com a responsabilidade dela sobre ela, que ela só pensa que as coisas se referem a ela e não a ele. Ela realmente não está aceitando receber críticas, não está conseguindo enxergar o filho. A próxima etapa de Tânia seria cair em si, ter uma tomada de consciência. E é muito doloroso. E depois encarar isso e ver como reconstruir. Mas a Tânia ama muito o filho, tudo que ela faz pensa que é o melhor para ele. Mas ela está ainda num estado de negação.

Quando os amigos, a namorada e a professora começam a perceber atitudes estranhas no Álvaro, parece que a Tânia acha que está tudo normal... Como você avalia isso?

Não. A Tânia não acha que está tudo normal. Ela está há muito tempo vendo o Álvaro isolado no quarto. Isso é um clássico, aliás. Esse isolamento, que em princípio é um pouco normal porque é uma idade em que a gente tem questões existenciais. Mas ela já está incomodada com isso, ela tem uma intuição de mãe e de mulher que não está legal isso do Álvaro sempre trancado no quarto e se afastando deles. O pai é que achava normal e depois que a professora falou com ele, ele entende, e já vai para a ação de resolver. E a Tânia não. Ela não estava achando tudo normal, mas quando veio a professora, ela se sentiu invadida. Ela queria ela mesma ter entendido o que aconteceu com o filho. É um egocentrismo, mas é doloroso para ela também. Ela já tinha percebido esse isolamento, mas na hora que falou que ele tinha um problema, ela se bloqueou.

Com Alejandro Claveaux no espetáculo Gota D'Água. Foto: Reprodução Instagram

Você é cria do teatro, está sempre nos palcos... Gostaria de fazer ainda mais novela?

Eu sou cria do teatro. Acho que o teatro é a grande escola para o ator, tanto técnica quanto ética. Eu gosto muito de fazer novela, pretendo ainda fazer bastante. Esse ano eu fiz muito mais cinema, série, TV, do que teatro. Fiz alguns shows, estou fazendo, com minha banda. O lançamento do DVD que Ney Matogrosso dirigiu. Lançamos agora Chacrinha, eu fiz Clara Nunes. Tenho feito séries e gosto muito de fazer novela.

Acha que a chegada forte das série mais movimenta o mercado, pelo fato de abrir oportunidades fora também da TV aberta?

Sim, eu acho que para o ator é muito bom. E para o público também. Você vai no Globoplay e assiste Assédio – eu estou assistindo. No tempo que você tem, no tempo que você pode, a hora que você quiser, isso é muito bom. Para o ator é muito bom porque é um outro mercado que se abre. Às vezes, a série tem um processo que é entre a TV e o cinema. Você pode ter um pouco mais de tempo, a série é uma obra fechada, então você pode entender como vai construir o personagem, a trajetória do personagem é diferente. Eu acho muito rico que a gente tenha TVs abertas, fechadas, que a gente possa trabalhar nessas diversas linguagens.

Outro dia conversei com a Soraya Ravenle, e ela disse que o musical parece que puxa ela... Com você acontece algo parecido?

Sim, o musical puxa a gente. Eu acho que cantar é uma maneira de rezar, é uma maneira mais direta de falar com Deus. E realmente puxa. Então, toda vez que eu tenho algo de teatro para fazer acaba entrando a música no meio também. Mas eu tenho gostado muito de fazer trabalhos, tanto no teatro quanto no audiovisual que não cante, que não tenha música. Mas é inevitável. Agora mesmo, com Chacrinha, como Clara Nunes, tem uma cena que eu canto a capela. Eu acho que é porque a música é a arte mais completa, mais espiritual. É física porque tem as ondas sonoras, e é muito espiritual também. Eu não sei, acho que é o poder da música mesmo.

Foto: Globo/Sergio Zalis

Acha que hoje o Brasil já faz musicais tão bons quanto os lá de fora, técnica e artisticamente falando?

Eu não tenho essa cultura de musicais de fora, da Broadway ou de Londres. E o Brasil faz musicais há muito tempo. Mazzaropi, Grande Otelo, Teatro de Revista, Teatro de Arena, de um outro jeito. O que aconteceu quando a gente começou a importar esses musicais de fora e fazer aqui, houve um aprendizado técnico. Do know-how mesmo, de cenotécnica , de efeitos, e isso foi crescendo. Mas a gente faz musical há muito tempo, está na nossa veia. Eu acho que os nossos musicais são maravilhosos.

Tem algum novo projeto?

Tem o filme Chacrinha, onde eu faço a Clara Nunes, com estreia dia 8 de novembro nos cinemas. Fiz mais dois filmes, que devem sair no ano que vem. Um deles é Macabro, com direção de Marcos Prado, e Divaldo Franco, onde faço a mãe do Divaldo. Dia 21 de novembro eu faço um show no Teatro Net Rio com repertório de Elis Regina, e dia 5 de dezembro faço um show no Teatro Opus, que é o lançamento do DVD com minha banda, com direção de Ney Matogrosso.



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