Julia Dalavia, a Laila: “Uma mulher num lugar forte de heroína”

Atriz exalta coragem da primeira protagonista e o amor puro por Jamil em Órfãos da Terra


  • 02 de abril de 2019
Foto: Globo/Paulo Belote


Por Luciana Marques

Por trás do jeito meigo de Julia Dalavia, há uma jovem de personalidade, com convicções próprias e pronta para agarrar uma grande oportunidade em sua promissora carreira. Aos 21 anos, a atriz dará vida a sua primeira protagonista, a síria Laila, na trama das 6 Órfãos da Terra, que estreia nesta terça-feira, dia 2 de abril. “Ô menina corajora, a Laila é uma girl power mesmo, reage, chora também. Mas é uma menina que vai e luta, que faz e acontece!”, define ela.

Na trama, a jovem enfrenta uma saga desde que a sua família perdeu tudo na guerra e acabou sendo prometida ao poderoso sheik Aziz (Herson Capri). Mas na noite de núpcias, ela foge do palácio e consegue embarcar para o Brasil com a família. Na viagem reencontra Jamil (Renato Góes), com quem trocou olhares no campo de concentração. O rapaz é funcionário de Aziz  e foi enviado por ele para encontrar a jovem. Os dois iniciam ali uma linda história de amor. “Ela vai enfrentar tudo para ficar com ele...”, conta.

Laila (Julia Dalavia). Foto: Globo/Paulo Belote

O que mais te encanta na personagem?

O que eu acho mais interessante da Laila é que ela é uma mulher num lugar muito forte de heroína. E esses papéis geralmente são dados a homens, essa coisa de enfrentar situações, de se salvar e salvar todo mundo. É muito legal ver mulheres ultimamente recebendo esses personagens, ocupando esse lugar que é importantíssimo. Ela que segura a barra da família, todo esse sofrimento, essa dor. E eles superam, vem para o Brasil e seguem a vida com força e alegria. Eu estou muito encantada.

 

 

A sua personagem é muito forte, saindo de um país machista e vindo para o Brasil. E no Brasil todo dia a gente vê uma mulher sendo agredida, o feminicídio está aí… Como é para você dar voz a essa mulher?

É complicado ver como o machismo se manifesta em universos tão diferentes. Lá a mulher é silenciada e tem essa cultura diferente. E aqui também não podemos dizer que é melhor, apesar de a gente ter um outro tipo de liberdade, outros costumes. Acho que é difícil dizer que somos mais avançados, eu acho que não. O machismo se manifesta de uma forma diferente aqui. Mas para mim é muito importante ver a mulher nesse lugar de força e de voz. De poder enfrentar tudo e mostrar como é forte. E sim, uma menina pode ter essa força mesmo no oriente médio, de atravessar tudo isso. E a gente trabalhou muito em cima do livro A Esperança Mais Forte que o Mar. A gente vê que a mulher tem uma força incrível e quando coloca a família embaixo do braço pode atravessar mares e oceanos. E é isso que a gente está precisando.

Você tem essa mulher próxima a você, na casa?

Sim, a minha mãe. Ela é uma mulher de muita força, passou por muita coisa na vida. Mas criou dois filhos com muita dignidade, com muito amor. Mas tem essa força sub-humana como muitas mulheres, que tirou não sei de onde, porque passou por momentos muito tristes na vida. Mas ela está aí hoje em dia maravilhosa e feliz, se descobrindo feminista. Está se identificando e se redescobrindo no feminismo uma coisa que ela é. Porque todas as mulheres, inclusive as que não sabem o que é, não apoiam e são contra, fazem parte disso também. Então eu acho que conhecer o feminismo e entender é se reencontrar e se identificar como mulher também.

Você chegou conversar com muitas mulheres refugiadas?

Muito difícil encontrar mulheres refugiadas aqui da minha idade, que foi o que eu busquei. O homem árabe tem uma cabeça, a mulher tem outra e eu queria muito conversar com uma mulher da minha idade. Eu consegui e falei com uma que tem 25 anos. Ela veio para o Brasil há três anos, faz astronomia na UFRJ, ela é super carioca hoje em dia. Ela me disse que sempre teve uma cabeça muito aberta, inclusive ela conflitava com os costumes e as leis do país dela. Porque ela sempre viu como errado, ela já nasceu com uma cabeça diferente, mesmo a família dela sendo tradicional. Mas quando ela veio para o Brasil, ela viu um mundo novo em que ela se identificava, com outro tipo de liberdade. Mas eu vi que o mundo todo está de mãos dadas e parece que essa geração está conectada.

Jamil (Renato Góes) e Laila (Julia Dalavia). Foto: Globo/Paulo Belote

Como está sendo a troca com o Renato Góes?

O Renato é incrível, é um ator super dedicado, estudioso. A gente conversa muito e acho que é nisso que acontece. Nisso que funciona quando a gente vê um outro ator com a mesma dedicação, com a mesma vontade de fazer, sendo tocado da mesma forma e consegue trocar essa ideia. Cada um trazendo uma coisa, uma história, uma informação. Fica bem legal trabalhar.

E você acha que esse casal vai virar logo “shipper” na internet?

Então, eu não acompanho muito Twitter... Eu tenho Instagram, que eu sou bem ruim também de ser conectada, mas eu vejo umas coisas dos meus amigos, tem os shippers né? Eu acho que vai ser bacana esse amor diferente e essa forma de se relacionar que é à primeira vista e por ser muito puro... Diferente de nós que temos um caminho inteiro até um relacionamento, lá eles dão muito valor ao casamento e ao amor verdadeiro. Isso acontece muito rápido e na história é bonito porque é muito inocente. São quase dois adolescentes se encontrando e descobrindo o amor à primeira vista. É uma coisa jovial, meio adolescente no início, mas isso se desenvolve e vira um amor insuportável e grande... E que ela passa por todas as barreiras, enfrenta todo o mundo para ficar junto com ele, é verdadeiro.

Laila (Julia Dalavia). Foto: Globo/Paulo Belote

Como foi a sensação na primeira vez que você usou o figurino?

É diferente, porque é uma realidade paralela da nossa. É tudo muito diferente, desde o alfabeto, ao jeito que se escreve, até toda a vestimenta. Eu consigo me teletransportar vendo tudo, as locações e tudo traduzido para o árabe. Até o rótulo da garrafa de água.

Seu trabalho foi muito elogiado em Os Dias Eram Assim... E como você lida agora com a expectativa de viver a sua primeira protagonista?

Eu não penso muito nisso, não vejo essa pressão, essa expectativa. Porque eu sempre faço o meu trabalho com o que eu tenho ali, o material do personagem, da história e como isso me toca. Como é a dinâmica da direção, dos atores, essa relação que a gente vai criando, como isso me afeta. E o que saí é resultado de muita coisa que a gente vive aqui dentro, muita coisa que a gente troca junto. Então tem tanta coisa antes disso, para chegar no resultado que a expectativa fica mais para quem está de fora. Mas claro que às vezes bate uma insegurança, uma ansiedade.



Veja Também