Helena Petta fala da estreia da segunda temporada de Unidade Básica em meio à pandemia da Covid-19

Criadora da série com a irmã, Ana, a médica ressalta importância do SUS e dos profissionais de saúde


  • 04 de maio de 2020
A médica Helena Petta com a irmã, a atriz Ana Petta. Foto: Flávia Wolf


Por Luciana Marques

Quando a segunda temporada da série Unidade Básica ficou pronta, a infectologista Helena Petta, idealizadora da produção do Universal TV junto com a irmã, a atriz Ana Petta, nem imaginava o terrível cenário que se teria na saúde do Brasil durante o lançamento dos novos episódios. “Acho muito interessante a gente estrear nesse momento porque mostra a importância do SUS e dos profissionais de saúde. E nesse período de pandemia acho que isso está ficando muito evidente para todas as pessoas”, afirma Helena.

Com oito episódios, a série bastante elogiada pelo público e também por profissionais da área, estreou neste domingo, 3 de maio. Protagonizada por Ana Petta, a Dra. Laura, e por Caco Ciocler, o Dr. Paulo, e com direção geral de Caroline Fioratti, a trama mostra a rotina numa unidade básica de saúde, que é a “porta de entrada” para o SUS. “A gente está acostumado a ver mais os hospitais, as UTIs, mas é na atenção básica que existe esse contato maior com as pessoas”, fala.

No papo com a médica, ela conta que assuntos como gênero e corpo da mulher serão mais abordados nesta edição da série, que tem roteiro de Newton Cannito e Marcos Takeda. E já adianta que na terceira temporada, com certeza serão desenvolvidas histórias reais desse momento da pandemia da Covid-19. E ainda este ano, Helena, que tem doutorado pelo departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo e doutorado sanduiche na Harvard School of Public Health, lança o livro Unidade Básica: a saúde pública brasileira na TV, pela Editora Hucitec.

O que o público pode esperar da segunda temporada de Unidade Básica? A segunda temporada vem com histórias incríveis, todas baseadas em histórias reais. A gente continua se emocionando, vendo como aqueles profissionais de saúde se empenham pra resolver aqueles casos. Só que agora chega uma nova gerente, a Cilene (Fabiana Gugli), que vai cobrar mais produtividade. Ela acha que a unidade básica está atendendo poucos casos. E como ela precisa atingir uma meta, ela vem com um pensamento mais gerencialista. E vai ter muito embate principalmente com o doutor Paulo por conta disso. A gente vai ter outros dois personagens, que são os novos estagiários, o Davi, feito por Gabriel Calamari, e a Kátia, vivida pela Lina Mello. Eles chegam para trazer uma parte mais cômica, porque são estudantes do terceiro ano, sabem muito pouco de medicina e já são colocados ali para atender.  

E a relação do Dr. Paulo e da Dra. Laura nessa edição, vem diferente, segue a mesma linha? Eles continuam no começo da temporada tendo bastante embate. Depois vão conseguir se relacionar melhor, mas também não posso contar muito o que vai acontecer para o público poder assistir...

Como você vê a estreia dessa segunda temporada em meio a uma pandemia jamais vista no mundo? É muito interessante a gente estrear nesse momento porque mostra a importância do SUS e dos profissionais de saúde. E também mostrar um lado que para muitas pessoas é pouco conhecido, que é a atenção básica de saúde. Acho que a gente está acostumado a ver mais os hospitais, as UTIs, mas é na atenção básica que existe esse contato maior com as pessoas. E agora na pandemia, a atenção básica também tem desempenhado um papel muito importante. É lá, por exemplo, em que os casos são mais leves, que os profissionais estão olhando para essas pessoas que estão em casa, principalmente os que são grupo de risco. Eles estão tentando identificar os mais vulneráveis, encaminham os mais graves, conseguem tentar ajudar mesmo com o isolamento de família. O que é muito difícil, porque as condições de moradia são ruins, mas é a atenção básica que está tentando fazer esse trabalho de construir uma rede de solidariedade.

Nessa temporada, a série vem abordando mais questões como gênero, violência doméstica, corpo da mulher, é iss mesmo? Sim, a gente vai abordar a questão de gênero, da violência doméstica, dos direitos reprodutivos. Vai abordar bastante a questão da mulher. A Laura, principalmente, vai assumir a frente da condução desses casos. A gente acha que é um tema extremamente importante, a gente vê inclusive agora na pandemia o crescimento dos casos da violência doméstica. Então é um tema que não tem como não abordar quando se fala em saúde pública. E também sobre direitos reprodutivos. A gente vai ter um episódio que vai falar de um lado de uma paciente que não deseja ter um filho e de outro de uma paciente que é moradora de rua e quer ficar com o filho. É um episódio que fala sobre esse direito de escolha da mulher sobre o seu corpo.

Dra Laura (Ana Petta) e Dr. Paulo (Caco Ciocler). Foto: Pedro Saad

Mesmo sendo médica, o que você mais tem aprendido desde a criação da série? Eu aprendo muito. Eu falo às vezes que a arte me faz curar as minhas próprias feridas, porque o exercício da medicina é muito difícil. E pra quem é bastante sensível traz muito sofrimento. E através da série eu posso, de alguma forma, transformar isso em arte. Eu levo aquelas coisas que ficaram meio engasgadas para um outro plano, consigo sublimar de alguma forma. Então eu aprendo muito, primeiro com os roteiristas, eu venho cheia de ideias, mas são eles que transformam aquelas coisas em histórias reais. Depois eu aprendo muito com os atores, com a direção, a Caroline trouxe toda uma discussão, junto com a equipe de arte, fotografia, figurino. Qual a paleta de cores que a unidade básica tinha que ter, que luz, como ia ser o cenário. Você não pode ter algo só realista. Então a Carol falava muito isso, não adianta a gente fazer várias salas sem janelas, porque pode ser a realidade das unidades básicas, mas o que a gente quer transmitir é essa relação com a comunidade. Então a gente precisa fazer cenários mais amplos, que se comuniquem. Toda essa parte artística e estética da série é um aprendizado muito grande pra mim. Eu fico encantada.

Que tipo de feedback vocês tiveram tanto do público quanto dos médicos após a primeira temporada? A gente teve um feedback muito positivo dos profissionais de saúde, principalmente aqueles que trabalham na atenção básica. É uma série que está muito sendo usada como material didático para mostrar aos alunos de medicina e de outros cursos o que é a atenção básica. Então eu acho que a gente teve um retorno bastante positivo dos profissionais de saúde. Inclusive, de algumas categorias reivindicando mais participação. Por exemplo, a enfermagem falando, não, a Beth (Carlota Joaquina) tem que aparecer mais. E nessa segunda temporada a gente levou isso muito em consideração. Então eu acho que o retorno é muito positivo, inclusive de engajamento nas redes sociais. Por isso fez também com o que o canal quisesse a segunda temporada. Acho que os números foram positivos e também esse retorno de profissionais de saúde.

Como médica, de que forma você está vendo esse momento enfrentado por seus colegas. Acha que todos sairão transformados? Eu acho que os meus amigos que estão vivendo esse momento, eu tenho conversado com vários, estão sim, bastante transformados. É um momento muito difícil, de muita reflexão.

E o SUS, mesmo com todas as dificuldades, acredita que sairá mais forte? A ideia que o SUS é importante para todos eu acho que tem ficado cada vez mais óbvia. A questão agora é como a gente constrói isso, não pode ficar só no mundo das ideias. Ter um sistema de saúde é importante, a gente tem que fazer isso acontecer. Mas com certeza todos sairão muito transformados disso tudo.

Como é a troca com a sua irmã Ana nesse trabalho? A nossa troca é muito intensa. A gente fica o tempo todo pensando em novas histórias. Ela me ajuda também a pensar nesses temas. Por exemplo, a questão da mulher, vamos tentar trazer casos mais fortes sobre isso. E eu também dando um feedback de como ela interpretar. Eu estou no set o tempo todo, a gente está sempre conversando, um médico faz assim, o jeito de se portar. Eu acho que eu ajudo nisso.

Li que vocês já estão produzindo a terceira temporada. Há a possibilidade da pandemia do coronavírus ser abordada? A gente já estava no processo de escrever a terceira temporada. E já ia gravar agora em julho. Com tudo isso que aconteceu, obviamente as gravações foram adiadas. Mas nesse tempo, a gente está revendo os episódios. Eu, o Newton Cannito, o Marcos Takeda, que são os roteiristas, nós estamos sim querendo contar histórias do coronavírus. São muitas histórias. O pessoal que está na atenção básica tem relatado coisas muito interessantes, tanto tristes, mas também de potência da atenção primária. Então, com certeza, a gente vai querer falar desse tema.

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