Gustavo Vaz: “A mulher segue diminuída nessa sociedade machista”

Premiado no teatro, ator de Coisa Mais Linda ressalta relevância de temas da série


  • 05 de abril de 2019
Foto: Jorge Bispo


Por Luciana Marques

Na contramão de muitos atores de sua geração, Gustavo Vaz vem galgando a carreira nos palcos, há 14 anos. “É onde me sinto inteiro”, diz ele, idealizador da ExCompanhia de Teatro. E é através de trabalhos potentes como na pele do truculento e homofóbico Francis, na elogiada peça Tom na Fazenda, que só em 2018 ele venceu os prêmios Shell e Cesgranrio, de Melhor Ator, e Botequim Cultural e Cenym, de Melhor Ator Coadjuvante. Mas agora o público já tem também o privilégio de ver o talento de Vaz em produções na telinha.

O ator participa da série Coisa Mais Linda, da Netflix, que se passa nos anos 1950 e trata de temas como machismo e preconceito. Gustavo vive o aspirante a político Augusto, que mantém um casamento de aparências com Lígia (Fernanda Vasconcellos), e chega a violentá-la. “Temos hoje nos mais altos cargos da política figurões assumidamente misóginos. A série vem como força contrária a essa maré ignorante para mostrar o que é real. Mulheres continuam sendo mortas, espancadas e diminuídas dentro dessa tacanha sociedade machista na qual estamos inseridos”, diz.

O ator poderá ser visto também em breve no Globoplay, na série Aruanas, que marca a sua estreia na Globo. Ele também roda atualmente Os Homens São de Marte, do GNT, e o longa Depois a Louca Sou Eu, com direção da Julia Rezende. E quem quiser assistir Tom na Fazenda, a peça está em cartaz até o dia 14 de abril, no Sesc Santo Amaro, em São Paulo.

Augusto (Gustavo Vaz), na série Coisa Mais Linda. Foto: Divulgação

A série Coisa Mais Linda mal estreou e já tem sido muito comentada, elogiada. O que instiga mais você nesse trabalho?

Estou extremamente feliz com a repercussão inicial. Tenho conversado com colegas de elenco e equipe e todos demonstram terem recebido os mesmos retornos positivos. Coisa Mais Linda já conquistou um importante espaço de debate junto ao público. Acredito que um dos grandes méritos da série é usar o distanciamento temporal para revelar, sem escapes, o contemporâneo. Ao apresentar a masculinidade tóxica e a sociedade machista, agressiva do fim dos anos 50 no Rio, a trama nos lembra que muito ainda acontece e permanece até hoje. O que mais me instiga é ter podido fazer parte do processo de construção da série e, de alguma forma, agora, continuar sendo parte catalisadora das discussões e percepções fundamentais que a obra começa a estimular no público. É um trabalho ficcional que interfere na realidade, que estimula o olhar crítico sobre nossas relações na vida real. Contribuir com isso é profundamente gratificante.

 

 

O seu personagem, um pré-candidato, rico, de “família tradicional”, apesar de ser dos anos 50, claramente se vê aos montes ainda hoje. Se inspirou em alguém?

Não. Minha preocupação foi entender a lógica da personagem, como ela via o mundo a partir das regras ou imposições sociais da época. Assim como a Bossa Nova, a política na série é também pano de fundo para os conflitos maiores da trama, portanto, direcionei meu olhar e minha atenção para a construção de um personagem crível, possível, sem me inspirar em algum político ou personalidade em especial.

Há alguma identificação entre você e o Augusto?

Temos a mesma cara. Felizmente, só isso! No entanto, apesar de nascidos em épocas diferentes, ambos fomos criados no mesmo Brasil machista, direcionados a acreditar em algum tipo de superioridade masculina. O ambiente masculino tóxico criado e defendido por parte da sociedade do passado, atualmente faz com que outros Augustos continuem surgindo e se sentindo autorizados a agirem como agem, infelizmente.

Entre Mel Lisboa e Fernanda Vasconcellos em cena de Coisa Mais Linda. Foto: Divulgação

A trama se passa nos anos 50 e faz refletir sobre os poucos avanços que tivemos em se tratando da situação da mulher. Se muitas hoje têm voz, colocam a cara à tapa, outras ainda são submissas, e os números de feminicídio assustam. Qual a importância de se falar sobre esses temas numa produção que será vista por muita gente, não só Brasil?

De grande importância. A arte tem como uma de suas funções principais alertar, jogar luz sobre temas relevantes e que precisam ser discutidos e pensados. O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo; o machismo mata, isso é um fato. Ao mesmo tempo, vivemos um momento histórico onde temos nos mais altos cargos da nossa política figurões assumidamente misóginos e propagadores de fake news, homens que distorcem dados e questionam a realidade das coisas a todo momento. A série vem como uma força contrária a essa maré ignorante e medíocre para mostrar e lembrar o que é real, o que realmente acontece nas ruas e dentro das casas, nas famílias. Mulheres continuam sendo mortas por namorados, ex-namorados e maridos, são espancadas, continuam ganhando menos do que os homens, e de maneira geral seguem sendo diminuídas e menosprezadas dentro dessa tacanha sociedade machista na qual estamos inseridos. Não existe absolutamente nada mais frágil do que a masculinidade, essa é a verdade. Por isso são necessários tantos mecanismos violentos para protegê-la.

Muita gente fala que o machismo tem a ver com a cultura, com hábitos que vinham lá de trás, de outras gerações... Como foi a sua criação em relação a isso?

Fui criado numa sociedade machista, como qualquer um que nasceu no Brasil até hoje. Somos um país machista e racista, infelizmente. Hoje, com o distanciamento da época, percebo inúmeras atitudes inadequadas que tive quando adolescente e jovem, e fico atento para que não as repita hoje. É difícil. Somos machistas sem perceber. O machismo é estrutural, está misturado com quem somos, e precisamos de muita atenção e esforço para combatê-lo. Penso que nós, homens, precisamos parar de falar tanto e ouvir mais o que as mulheres têm a dizer. O que as incomoda. Onde estamos errando. O que podemos fazer para melhorar. Entre amigos homens, precisamos combater piadas machistas, homofóbicas, racistas, precisamos brecar essas atitudes na origem, no momento em que surgem. Temos responsabilidade com o entorno, com as crianças, com que exemplo estamos deixando. É um processo longo, onde muitas vezes não percebemos quando erramos, mas precisamos estar abertos para ouvir, ouvir muito. Precisamos resinificar a ideia de ser homem.

Em cena com Kelzy Ecard, na peça Tom na Fazenda. Foto: Roberto Peixoto Fotógrafo

Antes o mercado para os atores era mais fechado se falarmos de televisão, era Globo, SBT, Record... Hoje com os streamings e os canais fechados também produzindo séries, há muito mais oportunidade. Como você vê essa mudança?

De forma muito positiva. Além de proporcionar ao público opções diversas de conteúdo, o mercado se aquece, muitas pessoas são empregadas direta e indiretamente com essas novas produções. O mercado cultural movimenta mais dinheiro do que o setor automobilístico no mundo, por exemplo. É uma enorme fonte de geração de impostos para o país. Infelizmente, o atual governo parece não acreditar nisso, ao rebaixar o Ministério da Cultura a um status de secretaria, por exemplo. Parece um desmonte orquestrado da cultura, onde o que interessa é uma população ignorante, sem pensamento crítico e com um repertório sensível limitado.

Você é “cria” do teatro, ator premiado, mas quase não vemos você em novelas. Isso foi uma opção, há vontade de fazer?

Sou do Rio, mas fui morar em São Paulo com 20 anos, assim que me formei na Martins Penna. Estou há quase 15 anos lá. Ao chegar, para um estágio no Teatro da Vertigem, comecei a me relacionar com atores e companhias de teatro da cidade. Isso tudo fez com que o palco estivesse sempre muito mais presente na minha vida. É realmente o lugar do ator, onde nos sentimos plenos, onde me sinto inteiro. Além disso, há sete anos criei a ExCompanhia de Teatro em São Paulo ao lado do Bernardo Galegale, que pede muito o meu tempo, mas me traz muita satisfação. Ali desenvolvo projetos autorais, experimentais, que já me levaram a encontros e experiências artísticas muito especiais no Brasil e fora do país. O audiovisual, a televisão, lugares que me apaixono mais e mais cada dia, começaram a acontecer nos últimos quatro anos, num processo natural, e pra mim, no momento certo. Estou gravando agora a minha quarta série (Os Homens São de Marte, no GNT) e, simultaneamente, meu quarto longa (Depois a Louca Sou Eu, direção da Julia Rezende). Por causa dos trabalhos que se acumularam nos últimos anos, não consegui organizar datas para um compromisso tão longo quanto uma novela, apesar de alguns convites muito bonitos. Mas em breve, quem sabe?

Gustavo e Armando Babaioff em cena de Tom na Fazenda. Foto: Roberto Peixoto Fotógrafo

Por que o espetáculo Tom na Fazenda, na sua opinião, faz tanto sucesso, mexe tanto com o público?

Começa com um texto muito bem escrito pelo Bouchard. Une-se a isso a visão inteligente do Armando Babaioff (ator, tradutor e produtor da peça) em unir tantos artistas e amigos incríveis em torno do projeto. Além disso, as discussões que a peça levanta encontram rapidamente eco no momento em que vivemos. A tudo isso une-se muita paixão pelo projeto, muito trabalho e um pouco de sorte, que é fundamental. Tom é realmente uma daqueles encontros raros, raríssimos.

Apesar de grandes trabalhos seus nos palcos, você diria que essa peça foi uma espécie de divisor também na sua carreira?

Sem dúvida! Tom na Fazenda é o trabalho mais importante da minha vida, não só pelo que me trouxe na carreira, mas principalmente pelo que me instiga, me desafia, me alimenta toda vez que subo no palco com o espetáculo.

Todo o ator diz que aprende algo com cada personagem. O que você mais aprendeu nesse trabalho?

Sobre a importância da escuta. Pra fazer o Francis, a necessidade de se estar aberto para o jogo é total. E relacionando isso com a história dos personagens e com a trama, entendi que a escuta e o diálogo são imprescindíveis na construção de relações fortes, amorosas, e que a falta deles contribui para o surgimento do que há de pior no ser humano.

Você também está no elenco de Aruanas. Como foi participar, o que teve de mais especial nesse trabalho?

Foi tão bom quanto esperava. Era meu primeiro trabalho na Globo, mas fui muito bem recebido por todos. A Estela, o Marcos, Manguinha e toda a direção, produção e equipe foram sensacionais comigo. Nós, do elenco, ficamos mais de um mês no Amazonas, o que nos uniu profundamente em torno do projeto e criou laços muitos fortes entre nós. Esse amor compartilhado entre todos certamente ficará impresso na tela. Tenho certeza que será lindo. E eu, mais uma vez, me vi fazendo parte de um projeto que carrega uma importância social gigante e que certamente também afetará a realidade que nos cerca. Nele, interpreto Gregory Melloy, um antropólogo ativista que se une a equipe da ONG Aruanas, formada por Débora Falabella, Taís Araújo e Leandra Leal, no combate a garimpos ilegais e a exploração de reservas indígenas por um grande mineradora. É um projeto de resistência num momento onde o atual governo age com vulnerabilidade e diminui a existência indígena no país. Tenho tido a sorte de estar constantemente nos últimos anos ao lado de artistas sensacionais, falando sobre temas relevantes e em produções de muita qualidade. Só tenho a agradecer por tudo isso.

 

 

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