Glamour Garcia: “A sociedade incentiva pessoas trans à morte”

Sucesso como a Britney, atriz se emociona ao relembrar história e mostra voz contra injustiças aos transexuais


  • 05 de julho de 2019
Foto: Globo/Raquel Cunha


Por Luciana Marques

Glamour Garcia, batizada como Daniela Garcia Machado, chegou, chegando em A Dona do Pedaço. Na trama das 9, o personagem saiu de casa para temporada de estudos como Rarisson, e voltou Britney, para surpresa da família. Ali, com leveza, humor e amor, todos a aceitaram. A história da Britney se entrelaça um pouco com a da sua intérprete. Mas a própria Glamour deixa claro que cada uma é uma. E o importante é o espaço que ela conquistou para poder falar das injustiças sociais sofridas pelos LGBTs.

“Em relação às pessoas trans é muito maior. A população LGB ainda é Cis, ser trans já é praticamente nascer morto. Desculpa ser muito forte isso que estou falando, mas a sociedade incentiva as pessoas trans à morte, infelizmente. Hoje eu falo isso abertamente porque nunca tive tanto espaço. E é necessário que seja dito”, ressalta.

Militante, a atriz de 30 anos fala com propriedade sobre a causa. Durante a entrevista, ela chora algumas vezes. Até porque vive um momento único na carreira e vida. “Às vezes eu não consigo talvez expressar tudo o que eu estou sentindo, de tão emocionada que eu fico”, conta. E para quem tem a oportunidade de conhecer essa estrela, percebe que ela é “glamour” em pessoa, simpatia, beleza, transparência...

A conversa com um seleto grupo de jornalistas nos Estúdio Globo foi longa. Geralmente, a gente faz muitos cortes nos textos aqui no Portal, mas Glamour falou com tanta potência da sua luta e vida, que resolvemos publicar a entrevista quase que na íntegra. No bate-papo, ela se emociona ainda ao lembrar de como se descobriu trans, do apoio incondicional dos pais, José e Valéria, e sobre a decisão de fazer ou não a cirurgia de redesignação sexual.

Britney (Glamour Garcia). Foto: Globo/João Cotta

Como está sendo a repercussão com o público? (Ela chora). Eu estou muito feliz, não só por mim, mas também por entender que a personagem Britney tem sido um espaço de alegria mesmo, de emoção, de amor, que as pessoas podem se reconhecer nela. Não só num tom de representatividade que ela tem para a comunidade LGBT, para a população trans. Mas todo o mundo ama a Britney. E eu percebo que esse amor alimenta as pessoas num lugar de carinho, elas se sentem felizes. A gente sabe que tudo repercute de várias formas, mas com ela tem sido de maneira muito carinhosa. Estou muito feliz! Nossa, pelo menos hoje eu consegui desenvolver alguma coisa, porque eu estou tão emocionada, que eu não consigo às vezes nem entender.

Como você foi recebida pelo elenco? Vou ser muito honesta... Eu sou uma pessoa assim, de personalidade, muito dada, extrovertida, adoro fazer amizade. Eu amo ter uma relação de paz com todo o mundo. E eu acho que já fiz amizade com todo o elenco. Claro que há pessoas que estão participando da minha vida íntima. Mas eu tenho orgulho de estar trabalhando com nomes que pra mim sempre foram referências, não só no teatro, mas no cinema e na televisão brasileira. Rosi Campos, Suely Franco, Beth Faria. Essas três pra mim não são só referências, elas transformaram a minha vida. Não sou uma atriz melhor, mas uma atriz muito mais feliz. São pessoas que lutaram, tem história, foram literalmente feministas para chegar onde estão e ser quem são. E estão ali comigo, transformando meu trabalho, minha capacidade criativa. Ainda falando das mulheres, Juliana Paes, eu me apaixonei por ela. Sempre fui fã, mas a generosidade dela como artista, não só como pessoa, transforma a gente. E para finalizar mandar beijos para o Tonico Pereira, meu pai amado, Marco Nanini, meu amorzinho Pedro Carvalho, uma pessoa que já se tornou o meu melhor amigo. Carol (Garcia), Caio (Castro) e Bruno (Bevan), meus irmãoszinhos queridos, sinto que tenho ali uma família ali.

Foto: Globo/Raquel Cunha

E a relação da Britney com o Abel (Pedro Carvalho)? Na verdade, acho que Britney tem muitas frentes. O fato de ela ser trans, acho que só isso já é uma grande discussão construtiva dentro da trama. Ela saiu de casa nova e nessa volta após a faculdade está imbuída, da força dela, da capacidade, ela consegue um emprego na área dela. O que também é uma temática muito importante, a inserção das pessoas trans no mercado de trabalho é uma discussão de uma riqueza necessária. Eu digo isso como uma pessoa trans. Eu sou extremamente privilegiada em relação à toda a população trans, não falo de uma forma arrogante, não sou melhor do que ninguém. Mas só estou reconhecendo que a discussão sobre mercado de trabalho é importante. Infelizmente a maior parte das pessoas trans é miserável, ainda participa de setores muito informais. Isso não tira a dignidade do trabalho de nenhuma delas, mas o mercado tem que se abrir para a capacidade, a inteligência, porque a gente sabe que está fechado por preconceito. A gente sabe que esse preconceito junto com a questão social fica pior, a instituição de direitos, a violência de morte e a agressão sistemática no dia a dia. E também tem essa questão aí que todo o mundo levanta, que todo o mundo quer saber, falar, que é esse romance da Britney com o Abel. Mas esse romance ainda vai se desenvolver de muitas formas, eu mesma não sei onde vai chegar, não sei o que vai acontecer. Eu tenho como pessoa, público e artista as minhas projeções.

O Brasil é o país que mais mata LGBTs . E quando você surgiu na novela, as redes piraram. Você também sentiu esse carinho, sem o preconceito? Eu sou uma pessoa muito militante, tenho um discurso que vem da militância. Eu sou mais velha que a Britney, tenho 10 anos a mais. Isso faz uma diferença em como a gente foi criada, em como tudo aconteceu. Eu tive uma vida pessoal como toda a pessoa trans tem, a Britney é um papel muito didático, através dela nós veremos muitas cenas de barbaridades, preconceito, tristeza, dificuldade. Não que ela vá se abalar com isso, mas ela será uma personagem muito construtiva em termos sociais. Ela vai mostrar através da trama acontecimentos que a sociedade pare para pensar. Ela foi bem recebida, eu fui muito bem recebida, ainda mais agora como uma atriz global (ela chora)... Hoje eu tenho um público muito maior do que eu sempre tive. Comecei a carreira há quase 20 anos, com 17, 18 anos. Então não é só sobre carinho, é sobre arte, amor, construir alguma coisa que seja concreta. Eu acho que atuação não é falsa, um mundo de mentiras. A arte é um instrumento de criação de coisas concretas na sociedade. É necessário lutar de forma muito grande contra a injustiça social que existe em relação às pessoas LGBTs, e em relação às pessoas trans, que é muito maior. As pessoas não terminam de estudar porque não conseguem, são perseguidas, sistematicamente agredidas, não conseguem trabalhar, ter relações familiares. Isso porque as outras pessoas agressoras estão frustradas. E as pessoas trans ainda são tidas como foco para essa violência, como aberração, como monstros. E não são, são seres humanos como qualquer um, com direito a cidadania, a votar, a comer, a estudar, a respirar, porque na hora de cobrar os impostos, o governo cobra. E a pessoa ainda sai na rua e tem que ser espancada, esfaqueada. A gente precisa falar disso, eu não cheguei onde cheguei para não falar disso. Eu sou a Britney, eu consegui o papel da Britney, e ela existe, sim, para que haja uma discussão amorosa sobre esse assunto. Claro que infelizmente a sociedade é violenta, a gente precisa lidar com isso, mas a gente está aqui num papel de arte construtiva, então a gente vai usar o espaço do amor e da arte para se lutar contra todas essas injustiças.

Abel (Pedro Carvalho) e Britney (Glamour Garcia). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Os pais da Britney ficaram chocados ao vê-la surgir como uma mulher, já que havia viajado para estudar como um rapaz. Como é a sua relação com os seus pais? Eu tenho uma relação muito forte com a minha família. (ela chora) Principalmente com o meu pai e a minha mãe (ela chora). Eles são, com certeza, as pessoas mais importantes da minha vida, eu devo tudo a eles. Tudo, não no sentido da vida, mas de tudo que eu posso desenvolver (ela chora)... e o que eu sinto que é muito importante nesse desenvolvimento. Nós passamos por muitas coisas juntos, e isso pra mim é o mais valioso. Ter eles como pai e mãe, os meus irmãos, eu sou a mais velha. A gente usa a personagem como parâmetro, mas sou 10 anos mais velha que a Britney, então as coisas eram diferentes. O meu pai era muito jovem, então durante a minha infância e adolescência não havia discussão ainda no campo da saúde e da educação, do desenvolvimento social. Obviamente as pessoas trans existiam e existem desde o começo da humanidade. A transexualidade é uma manifestação do ser humano, então tem trans, travesti desde a idade da pedra, comprovado cientificamente. Por isso eu bato na questão do preconceito, nós existimos, nós somos, estamos aqui, estamos aqui na população humana há anos. Isso está provado, mas essa informação não chega pelo preconceito, a ciência não aceita, as instituições governamentais não aceitam, o empresariado não aceita. Porque nós precisamos ficar à margem, para que a hierarquia ainda exista, para que existam as injustiças sociais, os pobres e miseráveis têm que estar à margem.

Como foi conversar sobre a sua descoberta com eles? Meus pais construíram a pessoa que eu sou. Nasci nos anos 80, meu pai era muito machista, reproduzia um machismo grande, eles são de uma cidade rural muito pequena em São Paulo. Eu já nasci em Marília, porque a minha mãe foi para lá estudar. Ela é médica, psiquiatra. Ela sempre teve um entendimento de uma outra perspectiva da situação, mas quando ela ainda era jovem, eles tinham quase a mesma idade quando eu nasci, me desenvolvi. E não existia, ela mesma fala, eu sei porque hoje nós somos adultas, conversamos. Não havia abordagem sobre isso, era proibido. Então eu fui a primeira trans que nós como família convivemos. Eu fui a primeira pessoa trans com quem eu convivi durante muitos anos. Até conhecer alguém trans na minha vida, eu já tinha 20, 21 anos. Ou seja, até para mim tudo isso é uma grande evolução, não no sentido de entender ou não, mas no sentido de saber que eu tinha um papel construtivo pra mim mesma na vida. E que eu era o meu próprio papel. Por isso eu tenho um nome artístico, eu desenvolvi um lado muito forte de militância. Eu senti a necessidade de me construir como uma pessoa mais comunicativa, inclusive mais posicionada. E o amor e o carinho e a relação mais maravilhosa que eu tenho com o meu pai e a minha mãe fizeram, sim, a pessoa que eu sou, fizeram, sim, eu ter a força que eu tenho. A Britney também é  muito feliz porque o pai e a mãe dela amam muito ela. São  diferentes dos meus pais, a Dodô (Rosi Campos) e o Eusébio (Marco Nanini), daquele jeitão lá deles, mas a Britney ama eles. Meu pai chama José e a minha mãe, Valéria.

Foto: Globo/Estevam Avellar

Como é para você, que sempre vivenciou toda essa luta da comunidade trans, da busca por um espaço, chegar onde você chegou. Passa um filme na sua cabeça? Ah, nossa! Passa um filme, peça de teatro... (risos). Eu sofri preconceito, mas eu sempre fui uma pessoa, e eu acho que isso é um privilégio, não no sentido social ou financeiro, eu tive o privilégio de ser eu, de ser eu mesma. Eu passei muita coisa difícil mesmo sendo branca, tendo estudado, mesmo tendo uma condição financeira que a minha família permitiu que eu tivesse. Eu sou uma mulher independente há muitos anos, sempre ganhei bem, me mantive, tenho um conforto de vida maravilhoso. E qual é o privilégio? É que eu sempre fui uma pessoa muito vivaz. É claro que agora é muito nostálgico, essa experiência é tão ampla, enorme em todos os níveis que ela alcança a minha vida, artista, pessoa, profissional, social, midiática... É impossível falar com você agora e não lembrar de tanta coisa. (ela chora)

Numa entrevista você disse que não fez a cirurgia da redesignação sexual. Por que essa opção? Porque nesses 10 anos que eu me tornei independente eu não tive tempo, nem dinheiro. Não tive tempo porque eu tive que trabalhar para me manter. Tenho orgulho de trabalhar para me manter e desenvolver a minha vida, ajudar quem eu quiser, não no sentido egoísta, mas construtivo. E tempo porque existe um tempo de pós-operatório, que é necessário para a recuperação. Eu não vou fazer cirurgia para ter complicações depois. No passado era muito difícil, as cirurgias não eram tão aperfeiçoadas, foi se levando um tempo social mesmo. E o Brasil hoje faz essas cirurgias de ponta, é um dos que mais tem tecnologia de ponta, mas a gente sabe que o entendimento do pós-operatório é necessário. Você perde uns 6 meses, perde não, a gente precisa de 6 meses para poder estar com saúde o suficiente para trabalhar. Você fica uns 3 meses deitado na cama, fazendo xixizinho no penico. E vou ser muito honesta, eu sempre quis operar... Hoje em dia, não é sobre ter certeza ou não, mas não é algo que me paralisa. Antes eu me sentia paralisada, às vezes, na minha intimidade por não ser operada. Me sentia fraca, frágil, incapaz. Hoje em dia é uma questão pessoal que eu tenho que decidir. No passado isso me frustrava muito, eu pensava, quando eu vou ter dinheiro, tempo... Deus sabe o que faz, não me deu dinheiro nem tempo, agora que eu tenho dinheiro e tempo sobrando, eu posso ter o amor próprio comigo, de decidir, porque eu sou a mulher mais maravilhosa do mundo, como todas nós. Todas nós somos incríveis na capacidade de sermos quem somos, de lutar pelo o que lutamos.

Quando você sentiu que era diferente? As pessoas trans têm essa consciência desde a infância. E isso já foi provado. Essa percepção humana da transexualidade na pessoa já se dá desde os primeiros entendimentos. Quando a pessoa desenvolve, aí já não sei. Vou falar o motivo. É que hoje em dia a gente vê uma liberdade. Às vezes, a gente vê uma história de uma pessoa de 60 anos que é trans. Dependendo do tempo histórico que você viveu, você quer viver ou morrer? Eu amo a Laerte, é uma grande amiga pessoal minha, ela foi muito polemizada, viveu a ditadura, ela tem um filho e você ama, quer viver, construir, é uma das maiores artistas do Brasil. Eu, digo por mim, eu tenho essa percepção desde criança. Na adolescência eu comecei a desenvolver mais a feminilidade como parte da minha vida, da minha sociabilidade. E já adulta, com 18 anos, eu falei, não, eu não quero nem saber. Deixa eu viver em paz, deixa eu viver minha vida e lutar por mim mesma.

Na novela, o Abel não sabe que a Britney é trans...  Em algum momento você viveu isso na sua vida, de se apaixonar e ter que falar sobre, se questionar se fala ou não fala? Eu nunca contei! Independente do risco que se corria, porque no passado isso era um risco muito grande, não é como é hoje. Eu perdi amigas assim, em episódios como esse, tive muitos amigos e amigas violentadas. Mas eu nunca contei, porque eu sou uma mulher e sempre senti que esse é o meu direito. Eu não posso ficar me violentando por ser trans a todo o momento, mais do que eu já sou violentada, não digo violência sexual ou física, mas como pessoa. Então, essa questão parece que é uma brincadeira, mas é nociva, parece que tira um pouco o direito da mulher trans de ser mulher. Mulher é mulher, não interessa se é trans ou se é cis. Cada corpo tem a sua especificidade. Mas eu já passei muito por isso... Principalmente, eu até já falei que eu fiz o tratamento hormonal, eu tenho o aspecto muito desse jeito, um físico que acaba não trazendo essa discussão. Mas já aconteceu muito comigo. É só na hora do vamos ver, que o povo vai saber!

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