Gabi Costa, a Nazira: De um poema a teste para Órfãos da Terra

Ativista social, atriz diz que tem “lição de vida” diária com histórias de refugiados


  • 09 de maio de 2019
Foto: Rachel Martins


Por Luciana Marques

Na festa de lançamento de Órfãos da Terra, Gabi Costa, intérprete da síria Nazira, vestiu uma camisa com a imagem de Marielle Franco, vereadora brutalmente assassinada, em 2018, no Rio. Na ocasião, completava 1 ano da morte, ainda sem solução. “Depois que subi o Morro do Cantagalo, descobri a minha verdadeira missão... Usar minha arte pra dar voz às causas esquecidas”, conta ela, que participou de tramas como Rebu, Nada Será Como Antes, Sol Nascente e Malhação.

Ativista social e feminista, ela fala com propriedade sobre ambos os assuntos. E o fato de estar participando de uma novela que trata de forma tão delicada de um assunto tão importante no mundo, como a causa dos refugiados, tem lhe emocionado. Nazira é mulher de Faruq (Eduardo Mossri). Ela morreu na guerra com os filhos e aparece em flashbacks emocionantes do médico, renomado em seu país, e que por burocracia, não pode exercer a profissão no Brasil. “Cada dia é um aprendizado muito grande, uma lição de vida mesmo”, constata ela, que também é dubladora da Ciri, dos jogos eletrônicos The Witcher 3.

Nazira (Gabi Costa) com Faruq (Eduardo Mossri) e filhos. Foto: Reprodução Instagram

Li você agradecendo muito às autoras Duca Rachid e Thelma Guedes por terem lhe dado esta oportunidade em Órfãos da Terra... Como surgiu a chance para estar no elenco?

Conheci Duca e Thelma primeiramente através de suas obras. Sou fã da escrita das duas. Comecei a pesquisar e vi que Thelma tinha vários livros de contos e poemas. Acredito muito que o ator precise ser cocriador e se produzir. Comecei a fazer vídeos com meu celular, editados em casa, e usei um poema de Thelma em um deles. Pra que eu pudesse publicar no youtube, pedi sua autorização através de mensagem por uma rede social, sem esperar retorno. E ela respondeu que não só eu poderia postar, como tinha adorado e também postaria em seu blog. Foi um dos dias mais especiais da minha vida. Chorei muito. Ver que realmente é possível quando você busca o que quer com o que tiver em mãos. Depois fui me encantando mais e mais com seus poemas, criando outros vídeos, fomos mantendo contato, e quando surgiu a novela, ela me indicou pra um teste de elenco. E veio esse presente: Nazira. Hoje, conheço bem melhor as duas e minha admiração só cresce pelas profissionais e seres humanos iluminados que são. 

 

 

E como está sendo participar dessa história tão potente e ao mesmo tempo tão delicada?

Quando chegou a primeira cena, já foi um choque. Me identifiquei com Nazira, Faruq, toda a dor que rodeava aquela família que se desmorona por conta de uma guerra. Aqui no Brasil temos nossos problemas, mas nunca passamos por uma situação como essas. Comecei a estudar filmes, livros e conversar com amigos árabes. A dor é tão real que chega a ser palpável, só ao escutar. 

O público tem se sensibilizado com a história de Faruq, as lembranças dele da família, da Nazira e dos filhos... Como tem sido a repercussão?

Tem sido absolutamente linda. Recebo mensagens em minhas redes sociais pedindo mais lembranças dele com Nazira. E mais importante ainda, pessoas que se identificam com a história, que passaram algo parecido e hoje estruturaram sua vida no Brasil. É extremamente difícil, mas é possível. Precisamos lutar. “Somos todos filhos da mesma terra.” 

Foto: Rachel Martins

Torce para o Faruq se abrir para o amor com a Letícia (Paula Burlamaqui)?

Torço muito. Um homem de família, batalhador, órfão de seu lar. Acredito que todos devam ter uma segunda chance e que a de Faruq chegará. Talvez Nazira até possa ajudá-lo em lembranças, sonhos... Quem sabe? (risos)

O público embarcou como nunca na história de Órfãos da Terra. Acha que certa visão “errônea” que muita gente tinha de refugiados está mudando?

Tudo que mais espero é esse resultado. Nossa missão na arte, ao meu ver, é esta: apresentar às pessoas o que fica escondido a olhares desapercebidos. Nosso mundo está repleto de dor, existe muita falta de afeto, de respeito. Mas a grande verdade é que somos todos iguais, todxs. Não serão nacionalidades diferentes que nos tornarão menos irmãos ou complacentes com o problema do outro. 

Você atua como voluntária em ONGs de refugiados. O que mais aprende com este trabalho?

Gostaria de fazer mais. Atuo hoje, mais na comunicação e divulgação pra aumento de doações pela ACNUR. No entanto, estou em contato também com o “Abraço Cultural”, onde pretendo visitar em breve e ver como posso participar mais da ONG (pois esta, possui filial aqui no Rio de Janeiro - bairro da Tijuca).

Foto: Rachel Martins

Todo o ator passa por perrengues até conseguir seu espaço. E você está há um tempo batalhando. Já enfrentou muita coisa, pensou em desistir ou é daquelas que batalha até o fim?

Fui criada por uma mineira arretada, que sempre me disse: “É isso que você quer? Estuda e batalha que você chega lá. Não importa quando. Sua hora vai chegar.” Minha mãe sempre me falou isso e comecei também a repetir pra mim mesma. Eu brinco que sou uma “formiguinha” e assim é meu trabalho... Vejo um obstáculo na frente, contorno e sigo em frente. Posso até carregar muito mais do que suporto pra manter meu sonho, mas carrego com todo amor que tenho. E busco sempre apoio nos meus amigos de trabalho, por que ninguém faz nada sozinho. O trabalho do ator é coletivo. De extrema necessidade entender isso.

E como você vê esse momento de sucateamento da cultura, de uma tentativa de “demonizar” a classe artística?

Exatamente como vocês me perguntaram... Vem aí uma fase infernal pra todos nós. Mas creio que pra tocarmos o céu, precisamos fincar raízes no inferno - como disse “Jung”. Vamos superar, por que somos a resistência desde que a classe nasceu. Vocês conseguem se imaginar vivendo sem tv? Sem assistir a um filme e poder sonhar e viajar com aquela história, pra aquecer um pouco o coração que talvez esteja machucado? Sem acompanhar uma novela e torcer por aquelas pessoas (que são reais, retratadas por nós)? Sem ir ao teatro e ver ao vivo emoção, dor e alegria ao mesmo tempo? A Cultura é o que desperta nosso maior interesse em criar e revolucionar. Revolucionários não são bem-vindos nesse momento no Brasil.

No lançamento de Órfaos da Terra você usava uma camiseta com imagem da Marielle Franco. Desde quando e por que você começou a se envolver com causas dos direitos humanos?

Desde que comecei a trabalhar e tomar conhecimento da disparidade social. Como eu podia ganhar “X” reais e ter alguém dormindo na rua? Estava completamente errado. Uma criança pedindo dinheiro no sinal? Comecei a amadurecer ideias e junto com minha amiga atriz Juliane Araujo e mais um grupo de atores, criamos o “Ocupa Cena” (projeto de teatro e resistência artística pra comunidades). Depois que subi o Morro do Cantagalo percebi que era um caminho só de ida, ali eu enxergaria minha verdadeira missão. Aí, foram vindo todos os atos consecutivos em prol de direitos humanos, os trabalhos independentes que fiz, sempre puxando pra problemas atuais que ninguém queria falar. Fazia um ano do assassinato de Marielle Franco no dia da Coletiva e acontecia um ato lindo na cidade, que eu não pude comparecer. O mínimo que poderia fazer era vesti-la e leva-la em meu peito comigo. 

Na festa de Órfãos da Terra, atriz usa camisa com imagem de Marielle Franca, na data que marcava 1 ano do assassinato da vereadora. 

Foto: Reprodução Instagram

Você é feminista e não deixa de falar sobre o assunto nas entrevistas. Como foi a sua criação em relação ao machismo?

Meu pai não é machista (nunca o vi levantando a voz pra minha mãe), mas tem seu lado conservador. Ele esperava que eu fosse pra Marinha. Acho que me colocariam numa boia e me despachariam no mar aberto, na primeira semana (risos). Ao mesmo tempo, minha mãe sempre foi batalhadora com suas metas e objetivos, e me ensinava que não se trazia desaforo pra casa. “Filha, ninguém tem o direito de te menosprezar”. Eles criaram uma guerreirinha. E meu pai me educou com Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil... Como não ser artista, não é? Minha mãe é um pouco “Amélia” (no bom sentido), por que ela gosta de cuidar de todo mundo, ela sente mesmo a necessidade, e aí cuidamos dela. Mas meus pais me criaram pra ser forte e independente. Sempre apoiaram todas as minhas decisões, sem contestar. E estiveram ao meu lado em todos os momentos, principalmente os mais difíceis. Desde adolescente, fui dos grupos que se uniam pra discutir problemas nas escolas, debater sobre nossos direitos... Tive uma criação com duas mentes bem abertas, resumindo. 

Acha que essa causa da mulher, de igualdade de direitos, tem avançado ou retrocedido? Porque ainda se vê mulheres até mais machistas do que muitos homens, né?

Tem avançado, a passos de “formiguinha”. Volto minha referência, por que realmente acredito que ela possa ser nossa base pra observância sobre vários pontos na vida. Não se muda mentes da noite pro dia. Descobrir que você tem mais direitos do que imaginava, que é poderosa e um sucesso, sem depender de um homem pra isso, pode assustar qualquer mulher que tenha sido criada com histórias antigas de princesa da Disney. Mas creio que esse despertar de independência virá com o tempo, será quase que automático entender que nossa proteção está dentro de nós e não no outro. E que se preciso for, a irmandade e sororidade só cresce: “Ninguém solta a mão de ninguém.” A corrente só ganha mais elos e se torna cada vez mais comprida. 

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