Fernanda Torres: “Vivemos fase meio apocalíptica, não vejo horizonte”

Intérprete da elitista sem noção Maria Teresa, atriz fala da nova temporada de Filhos da Pátria


  • 09 de setembro de 2019
Foto: Globo/Paulo Belote


Por Luciana Marques

Uma das nossas maiores atrizes, a sempre politizada Fernanda Torres continua desesperançosa quanto a um futuro melhor para o Brasil. Ao dar vida novamente à elitista, sem noção e hipócrita Maria Teresa em Filhos da Pátria, ela observa que os tempos passam, mas poucas mudanças são percebidas.

Na segunda temporada da série escrita por Bruno Mazzeo, – de 10 episódios –, com estreia prevista para este segundo semestre, a família Bulhosa vive no início dos anos 30 no país. Maria Teresa, por exemplo, e nega a reconhecer os direitos trabalhistas da empregada Lucélia (Jessica Ellen). Vivi 50 anos para dizer, caramba, é o mesmo assunto da minha infância, são os mesmos problemas., diz  a atriz.

Segue abaixo um bate-papo da atriz com jornalistas nos Estúdios Globo, no Rio, após o fim das gravações da nova temporada. 

Geraldinho (Johnny Massaro), Maria Teresa (Fernanda Torres), Catarina (Lara Tremouroux) e Geraldo (Alexandre Nero). Foto: Globo/Paulo Belote

Como você define esta segunda temporada de Filhos da Pátria? A mudança de século veio desde que começamos a trabalhar. Queríamos dar um pulo (no tempo) numa época em que tudo no Brasil continua igual. Quem era escravo, vira empregado doméstico, quem era corrupto continua da mesma forma... Vamos partir da época em que as forças do exército do Getúlio Vargas atravessam o país e ele amarra o cavalo no obelisco. Maria Teresa fala menos de ascensão social e aborda a loucura que ela fica com os militares. Ela os acha lindos e fica sonhando que o filho seja militar, ela entra para uma liga das donas de casa perfeitas, mulheres dos militares. Depois entra na menopausa. O legal da série é que ela mostra que o esqueleto da sociedade continua sempre igual. Nesta temporada, ela entra em conflito com a empregada dela porque acha um absurdo ela ter folgas e horários. Como tudo no Brasil, essas relações se dão pelo afeto, então ela fica magoada e triste porque a empregada tem folga. O Matheus Nachtergaele faz o corrupto mor da série, e o Alexandre Nero interpreta o Geraldo, uma pessoa deprimida. Ele é um pai bem intencionado, mas também um canalha. São as nossas mazelas que nunca se resolveram. Maria Tereza diz coisas racistas, e é salva porque é uma débil mental, por isso você acaba tendo até um sentimento afetuoso por ela.

Você ainda tem esperança, acredita que essas mazelas do Brasil um dia tenham fim? Eu não acho que tenha esse dia, são conquistas mínimas e retrocessos e conquistas.... Estamos vivendo um período meio apocalíptico no mundo, não tem muito futuro. Então eu não vejo um futuro em que tudo isso vai estar resolvido. Eu nasci na ditadura, vivi a redemocratização e sonhava que a sociedade fosse diferente. Em muitos sentidos, sim. Hoje temos uma sociedade mais aberta do que quando eu era criança. A crise econômica melhorou e hoje temos um país mais imerso no mundo. Por outro lado, a democracia nos provou que o problema do Brasil é estrutural e mostrou que o jogo do poder se mostra desde as nossas raízes. A desigualdade social a gente nunca consegue resolver, assim como o problema da violência e da educação. Eu não vejo num futuro próximo nenhum horizonte. Não temos saneamento básico em mais da metade do Brasil, então não vejo isso... 

Hoje, principalmente nas redes sociais, nós vemos muitas “Marias Teresas” dando cada opinião absurda... Ela parece estar em todos os lugares. Você se inspirou em alguém para fazê-la? Não. Desde a outra temporada, sempre acreditei que a Maria Teresa está em todo mundo. Não tem uma pessoa que eu tenha me inspirado. É um espírito que habita até em nós mesmos. Ela parece sua tia, sua mãe. Então você tem um amor por ela, mesmo que ela seja um monstro.

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