Eli Ferreira, a Marie: “Descobrindo minha ancestralidade”

No ar como uma refugiada do Congo, em Órfãos da Terra, ela cita processo de amadurecimento


  • 11 de abril de 2019
Foto: Wendy Andrade; Styling : Roberta Campos; Make: Jennifer Ayallem


Por Luciana Marques

Há pouco mais de um ano, desde quando deixou de usar química no cabelo, Eli Ferreira, de 27 anos, vem passando por um processo de autoconhecimento. “Antes nunca foi uma possibilidade não usar”, lembra. Mas com o amadurecimento, esse novo momento de referências e a variedade agora de produtos direcionados a fios cacheados, ela encarou essa transformação, também interna. “Estou descobrindo minha raiz, minha ancestralidade, minha identidade”, ressalta.

As tranças twist da personagem Marie Patchou, de Órfãos da Terra, por exemplo, já estavam sendo usadas pela atriz antes de iniciar o trabalho. E a direção aprovou o look para essa primeira fase. Outra conquista de Eli tem a ver com o seu momento profissional. Após se destacar como a Tiana, em Tempo de Amar, em 2018, e de rodar o longa Eduardo e Mônica, com estreia ainda este ano, ela encara esse novo desafio na TV.

Na elogiada trama das 6, Eli interpreta Marie, essa mulher forte, uma refugiada congolesa, que refaz a sua vida no Brasil. E ainda abrigará a amiga Laila (Julia Dalavia) após ela ser expulsa de casa. Na entrevista, a atriz conta ainda que no laboratório para a novela se surpreendeu com a força e a esperança dos imigrantes africanos que, mesmo tão sofridos, não perdem a alegria. E que algumas mulheres foram conhecer o racismo, aqui no Brasil.

Marie (Eli Ferreira). Foto: Globo/Paulo Belote

O que tem mais instigado você neste trabalho?

Falar da República Democrática do Congo, da guerra, dessas mulheres que sofrem. A Marie é uma mulher de 30 anos, guerreira, vem neste lugar. Ela estudou português aqui, já no primeiro capítulo mostrou ela se formando. Ela vem refugiada, perdeu tudo lá, marido, família, emprego e acredita ter perdido o filho também. Tem essa relação com o Jean Baptiste, que é vivido pelo Blaise Musipère, um refugiado na vida real. E a língua... Na verdade, trabalhar o sotaque foi o que eu senti mais dificuldade.

Você fez prosódia?

Sim, desde dezembro estava estudando. Eu tive também a ajuda de uma refugiada congolesa que me acompanha desde o início. Fui a umas palestras com ela, fiquei uma semana em São Paulo, visitei o centro de refugiados, a Missão Paz.

 

 

O que te impressionou mais nas histórias que ouviu?

Me impressiona no povo africano, de um modo geral, a alegria deles. É engraçado que quando você conversa com eles, se falarem a metade do que já sofreram, você estará se debulhando em lágrimas. E não é que eles estão felizes, mas não carregam aquele peso, não se passam por coitados de forma alguma. E é muito legal a força que eles carregam. Eles dão banho na gente em várias coisas, temos muito o que aprender com eles.

E o que você mais tem aprendido?

Essa força, essa esperança. Eles chegam aqui e somam. Até nesse contato com eles eu percebi vários mitos que foram caindo, de achar, por exemplo, que refugiado está tirando o nosso emprego, que está ‘mamando’ na teta do governo. Nada disso! Eles vêm e só agregam com a cultura deles, com a inteligência deles. Muitos estudaram, têm diploma, são formados...

Falando um pouco sobre representatividade... Por um lado, você e a única atriz negra na novela, por outro, a Marie é um papel bem importante na trama. Como vê tudo isso?

É um lugar completamente fora do que a gente está acostumado a ver o negro há um tempo. Eu foco mais na responsabilidade de carregar a história dessas mulheres, eu estarei dando voz a elas. E a representatividade nesse lugar é sentir falta na quantidade, de realmente terem outras atrizes. Mas a gente ainda está trabalhando para abrir este espaço e buscar que tenham mais atrizes negras em papéis importantes ou não.

Foto: Wendy Andrade;Styling : Roberta Campos; Make: Jennifer Ayallem

Mas você tem essa noção de que você vai ser referência ali para muitas crianças negras?

Sim. Como personagem e como pessoa também aqui fora. Mas eu procuro nem pensar nessa questão de ‘peso’ de ser referência, acaba sendo, dependendo do lado que você olhe. Mas é mais da importância... Se eu puder influenciar bem uma pessoa, o meu irmão de 9 anos, lá em casa, se eu puder influenciar bem ele, conversar, dar boas referências, para mim já é o suficiente.  Claro que quanto mais, melhor.

Eu já li que algumas imigrantes africanas conheceram o racismo no Brasil. Você também ouviu algo sobre isso?

Sim, elas conheceram o racismo aqui. É muito verdade, na grande maioria. E entende-se, porque lá na terra deles a maioria é negro, poucos são filhos de negro com mulher branca ou vice-versa. Claro que eles têm a influência da Europa, de outros lugares do mundo, da mulher com o cabelo liso, cacheado, olho claro... Mas ali, dentro da realidade deles, eles valorizam a própria cultura, dentro das tribos. E quando eles chegam aqui, tomam um susto.

Contaram a você alguma destas histórias?

Essa própria congolesa que conheci, contou um caso numa palestra. Ela entrou no ônibus e estava com o cabelo cheião. E foi pedir licença para sentar ao lado de uma senhora, e esta senhora olhou ela de cara feia. E depois pediu para ela não encostar o cabelo nela. E essa moça, toda doce, não entendeu. Logo ela pegou o telefone e começou a falar em lingala, a língua deles, para a mulher perceber que ela era estrangeira. Ela disse que a mulher se afastava cada vez mais dela. E ela não entendia o porquê... Ficou impressionada, porque ela disse que as senhoras no país dela são tão fofinhas. Ela pediu licença para esta senhora e foi sentar lá na frente. E elas não conseguem acreditar. Perguntam, como assim? É por causa da cor?

Foto: Globo/Selmy Yassuda

E o visual da personagem, você está com essa trança twist, né?

É um método entrelaçado. Eu conversei com o diretor, porque eu já estava com a trança, nesta coisa da transição, de me desligar da química. Eu usei química desde os meus 9 anos de idade. E agora faz pouco mais de um ano que eu estou sem química, descobrindo essa minha raiz, sem ter que me enquadrar dentro de padrões. E o diretor achou bem bacana.

Você está se sentindo melhor consigo mesma?

Sim. Estou aceitando mais o meu cabelo, estou ainda num processo, tirei todas as pontas de química. E quando eu tiro as tranças, eu já posso usar, já me vejo. Antes eu nunca me via usando cabelo sem química, não existia essa possibilidade. Agora quando tiro a trança, não tem problema nenhum de ir na rua, antes eu não saía. Era turbante na cabeça...

O que levou você a isso?

Eu acho que é um processo. De uns cinco anos para cá... De maturidade, do momento que a gente está vivendo, de referências, de ter produtos que a gente não tinha antes. Há uns seis anos atrás, você não tinha creme para cabelo cacheado, agora são diversas linhas. E está se falando mais sobre o assunto. O meu irmão de 9 anos consegue usar o black dele tranquilamente, tem referência para isso e acha legal...

 

 

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