Eduardo Mossri, o Faruq: Estreia que passa por história pessoal

Ator vive médico refugiado na trama das 6 após destaque em monólogo sobre suas raízes


  • 18 de abril de 2019
Foto: Jorge Bispo


Por Luciana Marques

Formado em Artes Cênicas pela USP, em 2005, desde então Eduardo Mossri vem trilhando a carreira no teatro. Seu mais recente trabalho, o monólogo Cartas Libanesas, com texto de José Eduardo Vendramini e indicação aos Prêmios Shell, APCA e Aplauso Brasil, para Melhor Autor, o fez alçar um novo voo: a sua estreia na TV, na elogiada Órfãos da Terra. “Acho lindo eu poder começar com um trabalho desses, que diz muito sobre mim, sobre o que eu tenho pra falar”, ressalta.

E o que ele deseja dizer tem muito a ver com a mensagem sobre empatia deste texto potente e ao mesmo tempo delicado de Duca Rachid e Thelma Guedes, as mesmas autoras que assistiram a peça de Eduardo e o convidaram para a novela. Neto de libanês, o ator fala na montagem sobre as suas raízes.

Já na novela, ele vive o médico refugiado Faruq que não consegue exercer a profissão aqui no Brasil. “O que a novela defende e eu concordo, é que essas pessoas vêm agregar, não roubar o emprego de ninguém”, diz. Esta semana, aliás, Eduardo emocionou com cenas fortes em que o personagem relembrava momentos com a mulher e os três filhos pequenos na Síria, todos mortos num bombardeio.

Faruq (Eduardo Mossri). Foto: Globo/Paulo Belote

Como está sendo participar de Órfãos da Terra?

É muito bonito para mim poder fazer uma novela que vem de uma história minha pessoal, de certa forma, porque eu sou neto de libanês. Eu fiz em São Paulo a peça Cartas Libanesas, um monólogo em que eu pude contar a história dos meus antepassados e de vários outros, sírios e libaneses no Brasil. E as autoras assistiram, souberam da minha ancestralidade, e eu fui convidado para fazer a trama. Então pra mim, além de ser um trabalho lindo, passa por este lugar sentimental também.

 

 

Quem é o Faruq?

Ele é sírio, um médico que veio para o Brasil porque perdeu a família num bombardeio. E ele vem como refugiado. Aí eu sempre falo a diferença de refugiado para imigrante, o refugiado não tem escolha, sai porque não quer morrer. Ele começa a história dele no centro de refugiados com personagens de várias outras etnias. E na primeira cena dizia que como aprendeu a língua, já poderia trabalhar como médico aqui. E o drama dele vai ser esse. Ele não vai conseguir, porque tem que passar pelo processo do revalida... A trama toda dele vai ser centrada nisso. 

E pelo o que cita na história, ele era um médico muito respeitado no país dele, né?

Sim. Ele talvez seja o único da novela que representa simbolicamente essa classe, de vários profissinais, engenheiros, agrônomos, arquitetos, que chegam aqui e não conseguem exercer a sua profissão. Claro, tem a questão da língua que é diferente, o tipo da profissão que exercia lá pode não ser a mesma no Brasil. Mas de todo o modo, como é que a gente vai fazer para acolher essas pessoas... Elas vêm agregar com seus conhecimentos, com tudo o que sabem, para melhorar as coisas aqui.

Faruq (Eduardo Mossri), Letícia (Paula Burlamaqui), Elias (Marco Ricca), Missade (Ana Cecília Costa) e Laila (Julia Dalavia).

Foto: Globo/Raquel Cunha

Você chegou a conhecer algum médico que passou por isso?

Sim, vários. Conheci em São Paulo um médico sírio que falou algo muito bonito. Ele disse, olha, quando eu fiz a faculdade de medicina, um dos motivos era poder ajudar o outro. E aqui no Brasil vocês também precisam de muita ajuda, então deixa eu exercer a minha profissão. Claro que quero me sustentar, me bancar aqui, mas deixa eu ajudar vocês. Acho isso tão bonito de ver e lembrar desse princípio. A novela traz algo tão lindo, de talvez provocar minimamente a empatia. Acredito que podemos lutar por muitas causas humanitárias e no momento estou engajado nessa. A gente tem que olhar para tudo isso realmente. E se cada um puder cuidar um pouquinho de algo, a gente está ajudando de um modo geral. É ser humano. Eu fico pensando nos meus avós (José Antonio Mosrri e Emília Elias) quando chegaram ao Brasil. Eles ainda eram imigrantes, eles sairam porque quiseram, mas vieram com a roupa do corpo, tentaram trabalhar, passaram por todo o processo. A gente tem que abarcar eles também, é acolhimento, é empatia nesse lugar.

Você vem galgando muito a sua carreira no teatro. Isso foi uma opção?

Eu fiz faculdade de artes cênicas na USP, me formei em 2005, quis poder ter uma graduação. E eu acho que as minhas escolhas foram um pouco em consequência disso. Nunca tive nenhum tipo de preconceito de fazer televisão ou qualquer outra coisa, mas a vida foi me levando pra isso. E eu fui deixando, até que agora houve um convite para fazer uma novela em cima de um trabalho de teatro.

Foto: Jorge Bispo

Acha que demorou ou veio no momento certo?

Eu acho que não, veio no tempo que tinha que ser. Acho que a gente perde muito tempo pensando, ah, se fosse... Não, está sendo agora. Eu não quero defender nenhuma bandeira, mas eu acho que os atores podiam ter o seu lugar de fala nesse sentido, o que você quer acrescentar com o seu ofício. Se eu não tenho nada de interessante para oferecer nesse tema, eu prefiro o meu silêncio. Nesse caso, não, eu tenho o que falar. Então que bom que eu estou fazendo parte desse projeto que é Órfaos da Terra.

Você pretende continuar depois com a peça?

A peça eu quero sempre fazer. Um dos intuitos de fazer a novela é apresentar a peça mais vezes agora, gerar mais visibilidade. Eu estreei em 2015, apresentei em um festival de Marrocos, fui para o Líbano, a convite da Embaixada Brasileira em Beirute. Como é um monólogo, o diretor (Marcelo Lazzaratto) brinca comigo que eu vou fazer até os 80 anos. Então é a minha peça de bolso, onde eu puder fazer, eu vou.

 

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