Deborah Secco revê sua vilã Íris: “Ninguém tem por ela afeição genuína, isso tocou o público”

Atriz lembra o dia em que apanhou no supermercado e diz o quanto Laços de Família marcou sua vida e carreira


  • 09 de setembro de 2020
Foto: Globo/Sérgio Zalis


Com mais de 30 anos de trajetória artística, Deborah Secco é uma das atrizes mais requisitadas de sua geração. Até porque ela segura, e bem, qualquer papel, seja drama, comédia... Mas tudo isso veio com a maturidade, claro, e com o fato de agarrar as oportunidades. Até porque Deborah se joga, se propõe viver intensamente cada processo de construção dos personagens. E foi assim em 2000, quando a então atriz de 20 anos foi incumbida de dar vida à complexa Íris, de Laços de Família. Era a sua estreia como vilã. “Ela foi o primeiro personagem popular da minha carreira. Muitos a adoravam, mas tinha muita gente que a odiava também”, conta.

Atualmente de volta às gravações de Salve-se Quem Puder, em que vive Alexia, uma das protagonistas da trama das 7, Deborah tem várias lembranças da época da novela de Manoel Carlos, com direção de Ricardo Waddington. Na trama, Íris fica órfã e vai morar na casa da irmã, Helena (Vera Fischer), com quem tinha pouco contato. E de cara pega implicância com a sobrinha, Camila (Carolina Dieckmann), ao ver que ela se apaixonou por Edu (Reynaldo Gianecchini) e quer roubar o namorado da mãe. “Me atrai a dualidade dela”, diz.

A atriz lembra ainda que chegou a apanhar no supermercado por conta de algumas atitudes cruéis da personagem, principalmente quando Camila fica doente. A paixão da jovem por Pedro (José Mayer), muito mais velho do que ela, também dá o que falar. Deborah não esquece de quanto os bastidores dessa trama foram especiais. “Acho que é a novela que talvez eu tenha mais carinho nas minhas lembranças, de tanta coisa boa que foi pra mim em cena e fora de cena”, fala.

Foto: Globo

O que a Íris significou na sua carreira? Acho que é um personagem que será eterno. Muitas pessoas me reconhecem por ela até hoje, 20 anos depois, não sei nem como, e até fora do Brasil. Acho que a Íris é uma das melhores lembranças que eu tenho da minha trajetória profissional, porque foi um personagem que me surpreendeu. Não imaginava que ela ia ganhar esse carinho popular. Ela era uma pessoa horrorosa, uma vilã, era para ser odiada e as pessoas amavam. Nunca imaginei que no final ela fosse conseguir ficar com o Pedro, porque era uma imagem difícil de se ver na televisão. Eu estava com 21 anos no final da novela, mas era muito magrinha, com cara de menina, mas é uma lembrança de eterna gratidão ao Maneco, ao Ricardo Waddingnton.

Por que acredita que ela conquistou parte do público? Por ela ser muito humana. Uma pessoa com qualidades e defeitos, ao mesmo tempo em que era cruel em algumas atitudes.  Foi uma personagem onde eu pude trabalhar muitas nuances. Ela tinha uma mistura de sentimentos. Invejosa em alguns momentos, em outros, generosa. Muito apaixonada pela família. Era aquela pessoa que ninguém ama, todo mundo aceita. Quando o pai e a mãe morrem ela vai morar de favor com a irmã, ninguém tem por ela uma afeição genuína de família. Acho que isso tocou muito o público e fez com que ela não virasse só uma vilã.

Como foi o processo de construção da Íris? Um dos mais profundos da minha vida, tentar entender a maneira de pensar e os sentimentos dessa menina... Eu lembro que fiz diversos textos sobre a vida da Íris, recortes e colagens sobre como eu achava que ela era. Participei da construção do figurino, sugeri o macacão, as chiquinhas... Eu achava que ela tinha aquele universo infantil de quem cresce longe da cidade grande.

E o que mais te atraía na personalidade da personagem? A dualidade, de não saber o que esperar dela. Ela começa a trama no interior do Sul do Brasil com a família, até que o pai morre. Ela é louca para morar no Rio de Janeiro, e vai para a casa da irmã. Depois descobre que a Camila (Carolina Dieckmann) quer roubar o namorado da mãe, e fica louca com isso, passa a odiar a sobrinha para proteger a irmã. Foi uma trajetória muito interessante. 

Foto: Globo/Sérgio Zalis

Acha que a Íris hoje poderia ser “cancelada” nas redes sociais? Eu tinha um público enorme que amava a Íris, para quem ela era uma heroína, e um público que odiava. Eu apanhei de fato no supermercado durante a novela. Acho que a Íris dividia muito as pessoas. Não acredito que ela seja cancelada hoje por ser esse personagem complexo, ela tem muitos porquês que aumentam esse carisma dela com o público. Mas motivo para ser cancelada, ela tem milhões, faz tudo errado (risos).

E como é ter tido a oportunidade de fazer uma novela do mestre Manoel Carlos, com as suas crônicas do cotidiano, seus diálogos longos, cadenciados? O Maneco traz essa simples complexidade das relações humanas. Ele não faz uma novela sobre nenhum fato sensacionalista, mas sobre as relações humanas, os seres humanos. E isso é eterno, não envelhece, vai ter sempre alguém se apaixonando pela primeira vez, tendo ciúmes, raiva... E em Laços de Família, eu queria ver os conflitos, a Capitu (Giovanna Antonelli) contando para o pai que era garota de programa, a Íris pegando a Camila com o Edu, e que fossem cenas imensas. E o texto do Maneco, mesmo longo, é fácil de decorar. Tudo o que tava ali tinha que ser dito. E a Íris, cheia de subtexto, porque ela era todos os sentimentos num personagem só, eu não precisava nem me esforçar, estava tudo ali. As coisas entravam na minha cabeça de forma orgânica, porque a Íris já tava um pouco dentro de mim. E era tudo necessário, além de textos eternos. As pessoas me encontram até hoje na rua e falam: “Judas”. São coisas que ficaram.

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