David Junior: Um vitorioso “na contramão do sistema”

Protagonista de Bom Sucesso chora ao lembrar de como o pai bancou seu sonho


  • 31 de julho de 2019
Foto: Jorge Bispo


 

Por Luciana Marques

*Entrevista completa disponível em vídeo, abaixo.

Um dos atores mais requisitados atualmente de sua geração, David Junior, de 33 anos, vem agarrando cada oportunidade que lhe é oferecida. Logo após o ótimo trabalho como o escravo Menelau, de O Tempo Não Para, ele faz a sua estreia como protagonista de Bom Sucesso, nova trama das 7. E vem quebrando barreiras. “Eu sou a contramão do sistema. Se sair de camiseta, chinelo, bermuda e correr para pegar um ônibus, eu vou ser suspeito, independente de ser um ator ou não”, ressalta.

Para David, nascido e criado em Nova Iguaçu, bairro da periferia do Rio, ao gravar cenas do personagem Ramon, um jogador de basquete, em Chicago, nos Estados Unidos, claro que foi uma realização. Mas só ele sabe o quanto batalhou para chegar até aquele momento. “Eu me senti grande suficiente para estar naquele lugar. Aconteceu o que tinha que acontecer. Hoje, se tem algo que eu sei é que sou protagonista da minha vida. E isso para mim já é suficiente para estar lá ou em outro lugar”, reflete.  

Na entrevista ao Portal ArteBlitz, o ator fala ainda da infância humilde e chora ao lembrar de como o pai, David, mesmo com todas as dificuldades, bancou o seu sonho.

Ramon (David Junior), em Chicago. Foto: Globo/Divulgação

 

RESPONSABILIDADE “PESO LEVE”

Eu tenho uma responsabilidade que eu chamo de peso leve, de estar representando muita gente desse Brasil, sabendo que a disparidade racial é muito grande, a opressão. Hoje a gente vê muito latente, principalmente com o nosso governo, o quanto o racismo é opressor, o machismo, a homofobia.

BOM SUCESSO X NOVA IGUAÇU

É como seu eu estivesse voltando a Nova Iguaçu ao fazer a novela, podendo ser eu mesmo, estando com meus amigos, os personagens, eu me identifico com pessoas da minha infância, vizinhos, quando eu corria e ralava o joelho numa rua de terra de chão batido. Bom sucesso tem muito a cara de Nova Iguaçu. Bairro periférico, onde todo o mundo conhece todo o mundo.

RAMON SONHADOR

O Ramon é um sonhador, que não sonha sozinho. Ele sonha com família. Ele não tem o sonho de ser a estrela do basquete, ele sonha em ser a estrela do basquete para sustentar e dar o melhor para a sua filha e a mulher que ele ama.

RAMON X DAVID

O Ramon erra porque ele é humano. Eu digo erra, porque eu, David, hoje com 33 anos, não abriria mão da minha família por conta de sonho nenhum. Eu estaria com a minha família custe o que custar. Mas para a cabeça de muita gente pode ser um acerto, sim. Ele viveu isso porque tinha que viver. Ele levou 16 anos para entender que o maior sonho da vida dele é a família, não o basquete, ou o sinônimo de sucesso profissional.

Foto: Jorge Bispo

 

A SUA PALOMA DA VIDA REAL: YASMIN GARCEZ

Eu bato texto com ela, e é maravilhoso ela ser também atriz, a gente pode criar várias nuances. Ela adora ser Paloma, e ela é a Paloma da minha vida hoje.  

O BEM MAIS IMPORTANTE

A gente não se preocupa com o tempo que a gente tem com os nossos pais, visto que a gente hoje é adulto, já tem a capacidade de ter filhos, significa que eles já estão indo embora. E o que a gente tem feito com esse tempo? A gente não se preocupa com nossos avós, que são os que vão primeiro, e pra gente os que mais sabem (ele chora). Eles são a maior representatividade de erro pra mim, porque já erraram tanto, que sabem exatamente o caminho que podem seguir ou não. Tudo isso pra gente é um HD lindo, que a gente pode absorver e não absorve. E poder falar de família nessa novela é muito emocionante no atual momento que eu estou vivendo.

SE REDESCOBRINDO

Eu comecei a fazer terapia no ano passado, e eu acho que eu estou me redescobrindo. Olhar para dentro de si é fundamental para você de fato entender o que realmente importa pra você, não para o outro. A gente é bombardeado de referências e necessidades de obter algumas coisas, quando o que está mais próximo da gente é o que mais importa. E só com o tempo a gente pode ver isso. Antes, aos 22 anos, quando comecei a querer ser ator, eu não teria esse discurso.

Ramon (David Junior), Paloma (Grazi Massafera) e Marcos (Romulo Estrela). Foto: Globo/Raquel Cunha

PASSA UM FILME NA CABEÇA...

Eu lembro do meu pai me levando para fazer teste de modelo, eu tinha 19 anos. Eu lembro da minha primeira referência de homem que acreditou em mim (ele chora), que errou pra caramba como pai, mas acertou muito também. Mas falou: “Você quer, vai lá, eu compro”. E isso fez toda a diferença na minha vida para eu estar aqui hoje porque o teto na periferia é muito baixo. O topo da pirâmide é ser médico, advogado ou professor. O normal é se pedreiro, lixeiro, camelô... A referência de sucesso é você conseguir parcelar seu carro em 60 vezes, pagar "dois carros", mas conseguir rodar no Uber e pagar o gelo do final de semana. Essa é a referência de sucesso que a gente tem. A gente não sonha em ter uma casa própria porque isso é utópico.

CONCURSO DE MODELO EM MADUREIRA

Na periferia, você nunca consegue juntar dinheiro, o dinheiro é seu e de uma família inteira. Eu venho de uma família de 10 tios por parte de mãe, e 20, de pai. Por isso, meu pai começou a trabalhar com 12 anos de idade para poder ajudar em casa, era o mais velho. E com 15 anos já era adulto, pagava suas contas. E mesmo assim, vivendo essa vida, tendo essa referência, essa opressão, ele acreditou no meu sonho. Ele bancou, vamos, eu vou contigo, te levo, te busco... Me levava para Madureira, para concursos de beleza, foi o caminho que eu tive para chegar onde eu cheguei.

 

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