Danilo Mesquita: “Espero que as pessoas reflitam com as cenas da morte do Carlos”

Ator festeja papel em Éramos Seis e fala da emoção nas sequências do tiro e no hopital


  • 07 de fevereiro de 2020
Foto: Globo/Paulo Belote


Quem conhece Danilo Mesquita, logo se apaixona pelo seu jeito carismático, brincalhão. Mas nesse seu mais recente trabalho na TV, como o durão e certinho Carlos, ele mostrou ser um grande nome de atores de sua geração. “Foi um exercício maravilhoso para mim como ator”, conta.

E amanhã irá ao ar uma das sequências mais fortes da trama, a morte de Carlos durante uma manifestação contra o governo. “Ele é conservador, critica o comunismo e acaba sendo morto pelas mãos do Estado. Espero que as pessoas reflitam bastante com as cenas”, diz o ator.

Outra sequência que deve emocionar é a despedida do personagem, no leito da morte, da mãe, Lola (Gloria Pires), e dos irmãos Isabel (Giullia Buscacio) e Alfredo (Nicolas Prattes), com os quais estava brigado. “Foi um dia de gravação pesado, difícil, me emocionei muito”, fala.

O que mais lhe marcou você na novela ao longo desses meses gravando? É um personagem completamente diferente do que eu sou e é aí que está a beleza do nosso trabalho. Um personagem pouco espontâneo, mais certinho, criado para assumir uma determinada função. Ele não enxerga nenhuma outra possibilidade. É um personagem conservador, coisa que eu também não sou. Ou seja, completamente diferente de mim. Ter feito esse trabalho nos últimos meses foi um exercício maravilhoso.

Carlos (Danilo Mesquita) caído após tiro. Foto: Globo/Camilla Maia

As cenas da manifestação envolveram uma produção enorme na cidade cenográfica. O cheiro de pólvora, os panfletos na rua, o grito dos manifestantes ecoando... Isso, de alguma forma, influenciou na emoção do momento? Sim, envolveu muito minha emoção. Eu nunca tinha gravado uma morte, nunca tinha tomado um tiro em cena. Então, isso tudo já tinha me deixado num estado de tensão, de alerta. Quanto às cenas, elas foram muito bem dirigidas e produzidas. Quem estava lá sentia essa emoção, além de ser uma questão histórica do Brasil. A história do Brasil me interessa muito, falar sobre o país me interessa. Meu personagem, por exemplo, é conservador, critica o comunismo e acaba sendo morto pelas mãos do Estado. Aquelas pessoas estavam ali para lutar pelo direito do trabalhador, pelo direito de viver melhor, de trabalhar em condições melhores. Então, durante as gravações, tudo isso bateu na minha cabeça de forma muito emocionante. Eu acho que é importante falar disso na TV brasileira para que os que são contra as pessoas que lutam pelos pobres consigam entender melhor essa luta e enxergar todos os lados. Eu espero que, com as cenas, as pessoas reflitam bastante. Fico feliz de participar disso, um debate que considero fundamental.

Como foi gravar as cenas do hospital, quando Carlos conversa com os irmãos, com Alfredo e Isabel, com quem recentemente tinha brigado, e se despede de Lola? Essas cenas foram muito emocionantes também. Foi um dia difícil, pesado, procurei me concentrar bastante. Fiquei muito emocionado inclusive nas cenas em que eu já tinha morrido e que acontecem os diálogos enquanto eu estou na cama. Tive que me controlar muito para não chorar porque  não podia me mexer. Eu ainda não vi as cenas, não vi o resultado final, quero ver com todos, quando passar na TV, mas foi bastante emocionante gravar isso. Queria, inclusive, mandar um beijo especial para Giullia Buscacio, Simone Spoladore, Nicolas Prattes e a Gloria Pires que estavam na cena. Espero que as pessoas gostem. É uma experiência que eu vou guardar para sempre.

Lola (Gloria Pires) com Carlos (Danilo Mesquita) no hospital. Foto: Foto: Globo/Victor Pollak

É difícil não se envolver com a história? É muito difícil. A gente acha que não vai se envolver tanto, acha que vai chegar ali, fazer o trabalho, fazer o máximo que der, mas quando chega na hora e você se vê naquela situação vulnerável, você vê sua família na trama, todo mundo chorando... O nosso trabalho é muito encantador por isso, você sabe que é mentira, mas seu corpo não sabe. Você dá informação para o seu cérebro de que você está morrendo, de que você está triste. Por mais que você saiba que é mentira, seu corpo não sabe e começa a te levar para uns cantos que você tem que respirar de vez em quando e lembrar que aquilo é faz de conta. É muito difícil não se envolver nesse sentido.

Pouco antes de sua morte, Alfredo diz a Carlos que ele deve viver mais sua vida e menos a dos outros. O que você pensa sobre essa reflexão? Uma das coisas mais bonitas da relação deles é neste momento, quando Alfredo diz a ele que é importante viver sua vida, ser feliz. O Carlos realmente nunca conseguiu ser feliz. Essa reflexão que o Alfredo faz o Carlos ter é fundamental para eles. O Alfredo e o Carlos são pessoas completamente diferentes. Eu acho que o Alfredo é um personagem maravilhoso. Ao mesmo tempo que ele tem um lado irresponsável, que comete equívocos, nunca tem maldade. Ele não é mau-caráter, é um personagem muito bom, um cara que se solidariza pela luta do outro, dos menos favorecidos. É a mesma coisa com o Carlos. Ele tem um lado conservador, mais chato, cricri, mas tem o lado da parceria, tudo que ele fala é realmente por amor, para que as pessoas se escutem, isso é fundamental. Então, se o Alfredo ouvisse um pouquinho o Carlos, no sentido de ter mais tranquilidade, dar mais atenção para certas coisas, poderia ser bom para ele. E se o Carlos ouvisse o Alfredo em milhões de coisas, como viver a própria vida, entender esse lugar da luta política, ele também poderia ser um pouco melhor. Infelizmente, não tiveram tempo para isso, mas são personagens diferentes, que teriam sim questionamentos a vida inteira, mas um poderia ajudar o outro de forma muito bonita. Um tinha coisas para dizer para o outro.

Carlos (Danilo Mesquita) de mãos dadas com o irmão Alfredo (Nicolas Prattes). Foto: Globo/Victor Pollak

Uma das pessoas com quem você mais gravou foi Gloria Pires. Como foi a experiência de gravar com ela e com o Antonio Calloni? Eu tive essa sorte de trabalhar com eles. São craques dentro do que a gente faz, pessoas por quem eu tenho uma admiração gigantesca. A coisa que eu mais aprendi com eles é que como foi minha primeira novela de época longa, esse era um personagem muito duro, retraído, diferente de mim, eu tive que tirar essa minha expansão. E ao tirar isso perdi um pouco do frescor, da espontaneidade de estar em cena, estava preocupado com texto, sotaque, milhões de coisas e vivendo pouco a cena. Estava preocupado com coisas que não deveria estar. É claro, começo de trabalho, cheguei muito em cima, é natural que tudo demorasse um pouco para acontecer. Mas olhando Gloria e Calloni eu entendi a forma como eles pegavam a cena e contavam aquela história. A maneira como eles transformavam o texto de forma fresca, cotidiana, espontânea. Quando começamos a gravar, eu tinha encontrado poucas vezes com a Gloria e quando a gente começou, a forma como ela me olhava, com esse olhar da mãe, o sentimento, a energia... O Calloni também, fui pegando essa vontade que eles já têm. E a questão é que eles pegam a cena e fazem o que eles querem, como querem. E eu acho isso muito bonito. Aos poucos fui entrando nesse jogo, tentando entrar, de estar mais fresco, mais espontâneo, parar de me preocupar com tudo. Preparação é isso, você vai montando coisas, entendendo coisas, pensando, só que chega na hora de fazer e tem que estar no campo, não do pensamento, mas da execução, do natural. Eles me ensinaram muito isso. Vou contar paras todo mundo, para os meus netos, que eu trabalhei com esses atores, porque eles são incríveis.

Como foi gravar com o diretor Carlinhos Araújo? Muito legal porque ele foi o diretor geral da minha primeira novela, I Love Paraisópolis. Eu cheguei chegando e cheio de vontade, sem experiência nenhuma, querendo aprender, pagar minhas contas. E a gente se encontrar agora, numa novela difícil e bonita, eu mais maduro, foi muito legal esse reencontro. O Carlinhos é um diretor que deixa o ator pensar, deixa o ator fazer, ele vai te direcionando, vai te encaminhando para as coisas, mas te deixa à vontade para jogar, propor coisas com seu parceiro de cena. É um diretor muito aberto nesse sentido e isso é fundamental.

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