Conheça Gabriel Contente, o Felipe Kavaco de Malhação

Ele fez em Otelo aos 13, e se diz “divertido e meio dramático” como o personagem


  • 20 de março de 2018
Foto: Globo/Raquel Cunha


Por Redação

Desde a estreia de Malhação: Vidas Brasileiras, em 7 de março, o público tem se encantado pela entrega do ator Gabriel Contente, de 21 anos, na pele do aluno Felipe Kavaco. Com formato baseado na série canadense 30 Vies, essa nova temporada, escrita por Patrícia Moretzsohn e com direção artística de Natalia Grimberg, destaca a cada 15 dias a história de um personagem diferente.

Para Gabriel, a questão do protagonismo nem conta muito, mas a quantidade de cenas e as nuances dramáticas do jovem, que vivencia a crise dos pais em casa, se sente rejeitado e até arruma um emprego à noite, é o que mais vale. “Gosto de trabalhar, então, essas múltiplas possibilidades me permitem explorar bastente coisa de mim mesmo como ator”, diz.

Esse foco de Gabriel vem de uma boa vivência no teatro. Aliás, para realizar o sonho de estudar artes cênicas, ele trocou a escola particular pela pública. E com apenas 13 anos de idade, interpretou Iago no clássico Otelo, de Shakespeare. “O teatro é mágico, modificador, muda as pessoas”, ressalta.

"Vários jovens estão se identificando com o problema do Kavaco e falam sobre isso comigo. Gosto de poder, de alguma forma, mudar a vida dessas pessoas, porque acredito que essa é a função do artista, mudar através da arte."

Kavaco. Foto: Globo/João Cotta

- Em Malhação: Vidas Brasileiras, os personagens serão protagonistas, cada um no seu momento. O seu personagem, o Kavaco, é o primeiro protagonista. Como está sendo vivenciar essa experiência?

Gosto muito de fazer parte da primeira história, porque gosto de trabalhar. Então, eu desenvolvi toda essa história, fui criando coisas, e consegui trabalhar muito, logo de cara. Ma esse negócio de protagonista me incomoda um pouco. Eu não acredito muito, ainda mais que nessa Malhação isso é bem dividido entre todos os personagens. Acho que todo o mundo tem o seu momento. E eu acho que o trabalho do ator é sempre o mesmo, independente de ser o protagonista ou elenco de apoio. É sempre estar presente e jogar com os parceiros de cena. Mas fico muito feliz de estar fazendo o Kavaco porque é um personagem incrível, com muitas possibilidades.

- Com a ausência dos pais, muitos jovens passam pela situação que o Kavaco enfrenta. Já se imaginou na pele do personagem, teria a mesma atitude dele?

Adolescência é um período muito difícil, de vários conflitos, crises. Quanto era adolescente também me sentia muito pouco amado várias vezes. Então, eu acho que já estive na pele do Kavaco quando era mais jovem. Tudo o que acontece dentro de casa, na escola, você acha que é responsabilidade sua, culpa sua. Diferente do Kavaco, nunca tive problema com os meus pais, eles sempre me apoiaram e nunca descontaram em mim alguma briga deles. Mas acho que se estivesse na situação do Kavaco, eu faria diferente. Mas isso é muito de momento. A gente só sabe o que faria na hora 'H'. É muito fácil falar se a gente não vivencia a situação. Porque na hora que a gente vive, é que vê o que faria, até onde iria, se até as ultimas consequências, não tem muito como prever. Eu sei que vários jovens estão se idenficando com isso e tem vindo falar comigo. E isso tem sido bom. Eles passam por situações onde os pais têm muito conflito dentro de casa e eles se afetam com isso. E eu gosto muito de poder, de alguma forma, mudar a vida dessas pessoas, porque acredito que essa é a função do artista. É mudar, mudar através da arte.

- E que tipo de aluno você foi na escola?

Era muito extrovertido, o palhaço da turma. Durante um ano da minha vida, dois, eu fui meio excluído, também passei por esse momento de rejeição grande. Mas, no geral, gostava de conversar com todo o mundo, tentava estabelecer relações com vários tipos de grupos diferentes, os nerds, os populares... Eu sempre gostei muito de circular na turma. E eu sinto que o Kavaco também faz isso dentro da escola. E ele também é engraçado, extrovertido, faz piada. E é meio amigo de todo o mundo. Uma coisa que gosto muito na construção do personagem é que ele tem muita empatia pelas pessoas, eu também tenho. Ele tem uma vontade de fazer o outro feliz, acho que nisso a gente parece muito, essa sensibiidade dele, eu também tenho. E vejo que somos parecidos ainda em achar que todos os problemas do mundo são nossos. De ser meio dramático, exagerado, fazer de tudo um grande drama. É a síndrome de canceriano.

Kavaco. Foto: Globo/Maurício Fidalgo

"Adolescência é um período muito difícil, de vários conflitos, crises. Quanto era adolescente também me sentia muito pouco amado várias vezes. Mas nunca tive problema com os meus pais, eles sempre me apoiaram em tudo."

- Como chegou à Malhação?

Comecei a conhecer a galera da Globo por conta do curso profissionalizante que eu fiz na Casa de Artes de Laranjeiras. Lá teve um evento chamado Show Case, onde os produtores de elenco iam assistir cenas nossas. Eu fiz uma cena com a Lucélia Pontes, e vários gostaram. E aí eu vim fazer o cadastro na Globo com o Lauro Macedo, sou muito agradecido a ele por toda a ajuda. E os produtores começaram a me conhecer. Depois fiz o musical Harry Potter, um grande sucesso, fazia o protagonista. E fui chamado para o elenco de apoio de Totalmente Demais, uma experiência muito legal. Depois fiquei um ano sem fazer nada na Globo, achando que tinha sido esquecido (risos). Mas no ano passado fiz um filme (Intimidade Entre Estranhos) com o José Alvarenga, que também foi muito importante. E a partir do resultado desse filme, que ainda não estreou, faço o protagonista, muitos produtores também viram o meu trabalho. Acho que isso ajudou. E aí eu fui chamado para uma entrevista, depois fiz uma oficina com a Cris Moura e passei para Malhação.

- Malhação é um celeiro de bons atores. Ao mesmo tempo, dá uma notoriedade grande com fãs, principalmente as adolescentes. Está pronto para esse assédio?

Ainda não tive expeiências ruins, desde que começou. Não sei como vai ser daqui para a frente. Mas não acho que vai ser muito agressivo assim. Acho que depende muito. É uma exposição grande, você se expõe o seu trabalho, a sua vida. Quando os fãs chegam realmente respeitosos, valorizando o seu trabalho, se identificando com o personagem, isso eu acho lindo, não acho que seja assédio, acho um carinho muito grande da parte deles. Agora, lógico, existe um monte de coisa, de chegar invadindo a privacidade, sem respeitar você, isso deve ser chato. Mas também é como se proteger disso, não levar tão a sério essas coisas e seguir em frente com o seu trabalho.

- Você trocou uma escola particular por uma pública para estudar teatro. De onde nasceu essa paixão?

Sim, eu troquei o Dínamis, que é um excelente colégio, pelo Dom Pedro II, que também é um excelente colégio. Porque eu queria muito fazer a CAL e a minha mãe só conseguiria pagar se eu não fizesse o ensino médio particular. A minha paixão pelo teatro nasceu de algumas coisas. Primeiro, pela Letícia Cannavale, a minha primeira professora de teatro. Ela me mostrou a magia realmente teatro, e ela existe mesmo. O teatro é modificador, muda a vida das pessoas. E ele mudou a minha. Me ajudou num momento muito importante. E a Letícia me mostrou como que eu podia ser incrível também (risos), porque, às vezes, a gente esquece disso. Acho que até o caso do Kavaco. E o teatro mostra isso de cada um. E ela trabalhou Shakeaspeare com a gente, fez Otelo. Eu interpretei o Iago, uma coisa incrível poder fazer Shakeaspeare com 13 anos. E ela deu exercício do Augusto Boal, ensinou coisas muito bacanas, diferentes. Sou muito fã dela, é atriz, diretora, professora. Na verdade, sempre tive essa veia artística forte, gostava de filmar, de contar história, dirigir as pessoas na sala de aula. E outra coisa que me incentivou muito foi a série da Globo, Som & Fúria, onde eu tenho um grande ídolo, o Pedro Paulo Rangel. Essa série fez eu me apaixonar também muito pelo teatro.

Com Camila Morgado, a professora Gabriela. Foto: Globo/Sergio Zalis

"Kavaco tem empatia pelas pessoas, vontade de fazer o outro feliz, essa sensibilidade eu também tenho. Outra semelhança é achar que todos os problemas do mundo são nossos. De ser meio dramático, exagerado, fazer de tudo um drama. É a síndrome de canceriano."

- Você é novo, mas já tem algumas peças no currículo, inclusive protagonistas, e dois filmes. Como avalia essa sua caminhada?

Acho que tudo acontece no tempo certo. Acho que esse sete anos como ator, de começar a trabalhar com teatro, foram muito importantes para mim. E vai continuar sendo, porque o crescimento do ator é infinito. Quando a gente acha que está aprendendo alguma coisa, na verdade, a gente só está, talvez, começando a aprender. Acho que eu comecei a aprender alguma coisa no ano passado e eu já faço teatro há sete anos. Tive grandes mestres. E o teatro, as artes cênicas, te exigem um autoconhecimento muito grande. Existe uma percepção do mundo muito ampla e aberta. Exige muita discussão, estudo. Então, para mim, está tudo no tempo certo, fiz a CAL, faço a UNIRIO, passei por professores incríveis como o Hamilton de Oliveira, o Anderson Aníbal. Fiz o filme do Alvarenga ano passado, um curso de improvisação com o mestre Gustavo Miranda.

E e uma carreira bem difícil, não?

Passei por muita dificuldade dentro da área, e eu acho isso importante para o ator ver como é difícil essa profissão. De que quando vem tudo muito fácil, as vezes, você não dá tanto valor. E eu passei por muita coisa difícil, outras muito trabalhosas, de raça, de pegar e fazer. Nada veio muito fácil para a minha mão. Sempre batalhei muito para conseguir as coisas. E eu acho que Malhação chegou num bom momento, o filme também. Tudo na minha vida sempre encaixou muito bem. Eu acredito muito em Deus e eu agradeço muito a Deus. E eu sou muito grato aos meus pais, aos meus mestres, aos meus amigos e todos que me apoiam. E aos grande artistas que passaram pela minha vida.

- E fale sobre o longa Aos Teus Olhos, da Carolina Jabor. Como foi essa experiência?

Na verdade, eu fiz uma participação de três dias nesse longa. A Carolina Jabor foi muito legal, carinhosa comigo. E foi uma experiencia muito legal trabalhar com ela, é uma excelente diretora. Na verdade, o personagem nem era para existir, ela criou o personagem para me colocar no filme. Ela queria muito que eu participasse, mas eu não me encaixava em nenhum perfil de personagem. Mas ela amou o meu trabalho e criou um personagem para mim. Por isso é um personagem pequeno também. E trabalhar com o Daniel Oliveira foi muito bom, porque sou muito fã dele, também é do Som & Fúria. Por sinal, o Daniel Dantas, que está fazendo o meu pai em Malhação também fez a série. Mas eu espero muito deste filme, parece que vai ser bacana, tem uma qualidade muito grande e uma galera fera fazendo. Eu já vi o trailer.

Foto: Globo/Raquel Cunha

"Passei por muita dificuldade na área, e eu acho isso importante para o ator ver como é difícil essa profissão. De que quando vem tudo muito fácil, às vezes, você não dá tanto valor. Mas tudo tem se encaixado muito bem, agora o filme com o Alvarenga, Malhação."

- Para finalizar, Gabriel por Gabriel, como se definiria?

Gabriel Lira Contente é um anjo que traz a música e a alegria... Costumo fazer essa brincadeira, porque é o significado do meu nome (risos). Gabriel é uma pessoa feliz, que procura ver o melhor das pessoas e tenta ver a vida de uma perspectiva positiva. Mesmo que exista um certo pessimismo da minha parte em relação ao mundo, eu tento transformar isso, num pessimismo construtivo para melhorar o mundo. Eu acho que Gabriel é um ser em construção. Todos somos. Gabriel é um cara cheio de defeitos e de qualidades também. E o grande trabalho do artista é se conhecer e aceitar os seus defeitos, se você quiser melhorar. E se não quiser, deixa eles quietos, mas saiba que eles existem. Acho que é muito importante se conhecer. Pedro Paulo Rangel uma vez me disse: 'O ator não pode nunca ser arrogante, mas também não pode ser modesto. Ele tem que saber o que faz de bom e o que faz de ruim'. Então, eu acredito que é isso, eu como artista procuro ser esta pessoa, sempre me melhorar, aprender com qualquer coisa.
 



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