Bia Seidl: “Mais que destino, a gente atrai coisas com escolhas”

Vilã de Apocalipse diz crer em força maior e fala da criação dos filhos


  • 24 de janeiro de 2018
Foto: Munir Chatack / Record TV


Por Redação 

Uma das atrizes mais respeitadas de sua geração, com um currículo denso de quase 40 trabalhos na TV, entre novelas e séries, Bia Seidl vibra com a sua vilã Débora, de Apocalipse, da RecordTV. “Era tudo o que eu mais queria”, diz ela, longe dos folhetins desde Lado a Lado, em 2012, quando viveu a doce e submissa Margarida.

E Bia, mais uma vez está mandando muito bem, agora na pele dessa mulher amargurada, que vive um casamento de fachada com Adriano Montana (Eduardo Lago) e mima ao extremo o filho, Ricardo, o Anticristo (Sérgio Marone), ensinando-o a ser tão manipulador como ela. “Ela tem relação intensa com ele, um amor edipiano, com certeza”, avalia a atriz, que na vida real é mãe de Daniel, de 38 anos, e Miranda, de 19.

Na entrevista, Bia fala ainda de como a preparação para a personagem, que é judia, a fez se dar conta de que tem hábitos semelhantes aos dessa religião. Mas a atriz, que atuou em sucessos como Dona Beija, de 1986, na Manchete, Vale Tudo, de 1988, fez a antagonista Glauce Penteado de A Gata Comeu, de 1985, Vamp, de 1991, na Globo, e Os Ossos do Barão, de 1997, no SBT, adianta que mantém a sua crença de que há uma força maior. 

"Fazer uma vilã como essa, tão complexa, era tudo o que eu mais queria. Tinha esse desejo, era um sonho. E sonho que sonha junto vira realidade, já diziam." 

Como a Débora, de Apocalipse. Foto: Munir Chatack/RecordTV

Como está sendo viver essa vilã?

Era tudo o que mais queria. Tinha esse desejo, era um sonho. E sonho que sonha junto vira realidade, já diziam. Então, o que é importante para mim é fazer um trabalho que venha de encontro a um desejo meu, que faz com que me debruce diante dessa história de vida dessa personagem, que é complexa. Ela tem um passado difícil, de muita frustração, decepção, um casamento mal resolvido. Em contrapartida, tem um grande amor pelo filho. Mas, que por conta de todas as coisas que ela viveu, tem um comportamento que, às vezes, é um pouco duvidoso, ambíguo, controverso. Embora se justifique por um lado, por outro, é impensável uma mulher fazer o que ela fará na história.

Todo o ator fala que fazer vilão enche os olhos. Você também pensa assim?

Às vezes, a gente entra num caminho de fazer uma sequência de personagens de boa índole, mas esses personagens não exigem tanto, têm menos ambiguidade. Uma vilã te dá uma maior possibilidade de ter muitas nuances na tua interpretação. Então a gente, como atriz, vai sempre preferir um personagem que seja contraditório e que vai me dar possibilidade de atuação maior do que simplesmente uma pessoa que está dentro da zona de conforto da bondade. Principalmente, quando a gente faz os vilões, a gente tem que pensar em tudo aquilo que a gente não quer ser, não quer ter por perto, que a gente não está se desenvolvendo para se tornar isso. Então, essas pessoas nada mais são do que aquilo que a gente não tem que ser nesse caminho aqui. Então, eu estar representando isso, para mim, é um privilégio.

"Talvez o desafio tenha sido maior ainda para Manuela do Monte na primeira fase. Eu posso errar no meio do caminho e consertar lá para a frente."

Você se inspirou em alguém, teve alguma referência?

Não. A Vivian de Oliveira escreve tão bem que você não precisa, ela não te dá esse trabalho. Ela tem uma coerência, uma carpintaria dramatúrgica, para uma pessoa jovem como ela, é excepcional.

Em A Gata Comeu, 1985. Foto: Globo/Nelson Di Rago

A primeira fase foi feita pela Manuela do Monte, como foi essa preparação com ela?

Nós tivemos muito encontros, workshops juntas e combinamos algumas coisas. Acho que todo o mundo tem características marcantes na forma de falar, andar, comportar ou olhar. São essas coisas que definem gestual e uma partitura corporal de uma pessoa. Todos nós temos isso. E eu acho que a gente teve um trabalho de observação e de conversas, principalmente. E ela me entregou um 'assoalho', que a gente chama, para que eu entrasse exatamente dentro da matiz de cores que ela colocou no trabalho dela. É um jeitão mesmo, uma forma de encarar as coisas. Ela tem uma empáfia! Isso é uma coisa fácil observar numa pessoa. E eu acho que ela é impetuosa, destemida, corajosa, autêntica. Ela tem tantas coisas. E eu acho que Manuela trabalhou facilmente isso, porque a personagem é tão bem escrita, que entregam para a gente de uma maneira inteira. Que a gente não precisa ficar usando subterfúgio para fazer. Ela tinha material para se debruçar e eu, completamente, porque entrei depois. Talvez o desafio tenha sido maior ainda para Manuela. Eu posso errar no meio do caminho e consertar lá para a frente.

"A Vivian de Oliveira escreve tão bem que você nem precisa de referência. Tem uma coerência, carpintaria dramatúrgica, para uma pessoa jovem como ela, excepcional."

Qual a sua relação com religião?

Quando tive o workshop sobre o judaísmo, eu fiquei muito impressionada de o quanto eu me aproximava disso. Embora o meu sobrenome seja austríaco, não sou judia, mas percebi que eu tenho hábitos muito parecidos com eles, e é muito estranho isso. Para mim foi um encontro de ideias próximas ao que eu acredito, como devem ser as coisas. Mas eu, claro, vou continuar com as minhas crenças. Acredito que existe uma força, com certeza, e que mais do que o destino, com as nossas escolhas a gente traz e atrai as coisas para a nossa vida. Mas é diante daquilo que você faz, de segunda a segunda, e não quando você está ajoelhado.

Em O Sexo dos Anjos, 1989. Foto: Globo

Quais seriam os hábitos similiares ao judaísmo?

Eles têm restrições alimentares, não comem porco, a comida deles tem todo um processo... E eu tenho esse olhar, não como porco, não como carne vermelha, estou em busca de me livrar dos outros bichinhos. Mas a coisa da oração, eles têm uma relação com o Deus deles que eles brigam, o que em outras religiões é impensável, eles discutem. É engraçado isso! É uma coisa particular deles. Parece, ah, vou brigar, mas, não. Você não vai brigar com o onipotente, é o quanto você questiona o que está te apresentando e pergunta a esse Deus o que é que ele está querendo de você. Porque nenhuma situação é posta na sua vida, que não vá te fazer uma transformação. A não ser que você não queira e recusa, eu não quero mudar através disso. Mas toda, do bem e do mal, é para te transformar. Só que a gente não aceita. Mas isso que é legal de você estar em contato com a religião, qualquer religião. É você aceitar que as coisas tenham um propósito maior e que você desconhece e não tem controle sobre isso.

"Quando fiz o workshop sobre judaísmo, fiquei impressionada de quanto me aproximava disso, tenho hábitos parecidos. Foi um encontro de ideias próximas ao que acredito."

Você falou sobre essa relação intensa com o filho, como você criou os seus filhos?

Primeiro, amorosidade. Mas acredito em disciplina, em organização, em controle mental. Então, eu acho que eu levei isso para os meus filhos, trabalhar a resiliência, não a paciência. Além disso, humildade. Esse é o pilar que eu fiz meus filhos crescerem. Mas, mais do que tudo isso, do que falar sobre isso, é como eu transito na vida. As minhas escolhas, as minhas opções que margeiam as escolhas deles. Não adianta eu dizer para o meu filho ler, se eu não leio, estude muito, se eu não estudo. Seja profissional ao extremo, se eu não sou, não seja leviano, se eu sou. São escolhas que se aproximam mais das coisas iluminadas, nobres, vamos sair dessa boiada que faz tudo mais ou menos. Acredito em ser exemplo. Você é um profissional exemplar, traz só coisa boa para você. Por exemplo, você encontrou um amor sagrado, porque você também levou coisas sagradas para a sua vida. A sua atitude diante desse valor.



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