Bia Borinn: De volta à TV em série, ela lembra perrengues até se estabelecer com a família nos EUA

Atriz exalta parceria de dramaturgos renomados e fala do “trabalho de formiguinha brazuca” em Los Angeles


  • 31 de julho de 2020
Foto: Alexandre Ormond


Por Luciana Marques

Há seis anos vivendo nos Estados Unidos, a brasiliense Bia Borinn festeja sua volta à telinha como a Úrsula, da série Experimentos Extraordinários, que reestreou na TV Cultura, após exibição no Cartoon Network e Netflix. Além de ser a sua primeira vilã, ela lembra que quando interpretou a personagem, seu primogênito, Miguel, tinha 2 anos, e agora, aos 8, já repercutiu com ela cenas. “Ele viu o primeiro episódio e disse: ‘Então quando você fica brava comigo você vira Úrsula, mamãe!’”, conta a atriz, rindo. Formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo, depois de trabalhos em comerciais, filmes e na apresentação de programas, como HitTvê, na Rede TV, ela vivenciou uma experiência que marcou a sua vida.

Isso foi em 2011, quando estagiou por dois meses na Inglaterra com Alan Ayckbourn, renomado dramaturgo daquele país. “Mudou o meu modo de ver a direção de teatro”, conta ela, que também teve aulas com Harold Guskin, coach de nomes como Bom Jovi e Richard Jenkins. Casada com o ator Eduardo Munniz, com quem sempre curtiu desbravar o mundo, numa das idas a NY, em 2014, para se atualizarem do cenário artístico na Broadway, eles decidiram ficar lá por um ano. Mas os planos mudaram e o que era para ser um ano, já virou quase seis.

Atualmente vivendo em Los Angeles, os pais de Miguel, de 8 anos, e Matteo, de 1, driblaram perrengues no início dessa temporada no exterior. Bia trabalhou como guia de turismo e massagista. Com o marido, criou o Podcast História de Boca, para crianças, disponível em 39 países. No “centro” do audiovisual mundial, ela afirma que tem como meta, sim, de trabalhar em Hollywood. Mas vê ainda certo preconceito com brasileiros. E o jeito, acredita, é criar e produzir os seus próprios projetos para ampliar a visão de mercado e público.

Como é ver a exibição da série Experimentos Extraordinários, agora na TV Cultura? É uma alegria enorme ver este trabalho tão cuidadoso e divertido em uma TV aberta. Eu faço a vilã Úrsula, dona da UTV, o canal de TV no qual o programa Experimentos Extraordinários é produzido pelos adolescentes e pelo Iberê do Canal de Youtube Manual do Mundo. Tenho um carinho muito, muito especial por ser meu primeiro papel de vilã na TV.

A atriz como a Úrsula de Experimentos Extraordinários. Foto: Divulgação

A produção é dirigida aos adolescentes. Qual a mensagem bacana que você acha que passa a essa geração? Experimentos Extraordinários traz uma mensagem de superação, enaltece a curiosidade, a ciência e a amizade, de maneira inteligente e muito divertida. Além do mais, está numa emissora aberta, democratizando o acesso a todas as camadas da sociedade. Outra coisa que é legal é que o conteúdo é semanal, ou seja: o público tem que esperar até a outra terça para ver o próximo episódio. Como no meu tempo! Isso é exercitar a paciência, coisa que no conteúdo on demand não existe.

Desde 2014, você e sua família passaram a viver nos Estados Unidos. Por que a decisão de morar aí e deixar o Brasil? A gente sempre quis ter esta experiência como família, e já que nosso filho era pequeno, resolvemos ficar um ano em NY para melhorar o inglês, ver muito teatro, treinar atuação com o Harold Guskin (coach de Glenn Close dentre outros). E esse um ano já virou quase seis! Agora estamos em Los Angeles. Leva tempo para você realmente sentir que vivencia outra cultura, outra língua.

Como foi o início de vocês nos EUA, a família toda se adaptou bem ou passaram perrengues? Ixi, primeiro ano é uma loucura! Chegamos numa nevasca absurda, anoitecia às 16h30, filho pequeno que tinha que desfraldar (quem é mãe e pai sabe o que é isso), sem família e amigos por perto... E na época, sem visto de trabalho, melhorando a língua. Pra piorar, tivemos a alta do dólar, então nos programamos para uma realidade e ela virou de cabeça para baixo. Mas todas essas dificuldades, no meu caso, me levaram ao budismo e ao hinduísmo, à prática da meditação, a me virar. Depois do visto de trabalho fui guia turístico de high fashion e comecei a dar aulas de português para crianças. A gente cresce muito com estas experiências.

Você fez estágio com o renomado dramaturgo Alan Ayckbourn, também teve aulas com o Harold Guskin. Como definiria essas experiências e o que leva delas para a sua carreira? O Alan tem um papel fundamental na minha história pessoal, já que por causa dele, de um espetáculo que estava em cartaz em SP, conheci meu marido. E também profissional, fiz peças incríveis como Tempo de Comédia e Isso é o que ela Pensa, além de ficar na casa do Alan por dois meses vendo ele dirigir um elenco excepcional. Mudou o meu modo de ver a direção e como é incrível ter um diretor que confia no seu trabalho sem colocar você para baixo, testando ou duvidando de você. Já o Harold foi fundamental pois veio naquele momento de encontro com o budismo, e ele fala sobre estar no momento presente. Sua generosidade, verdade e entusiasmo são inspiração para mim no momento de atuar.

Fala um pouco sobre o podcast História de Boca, sobre o que é e como surgiu a ideia? O Podcast nasceu como uma homenagem ao nosso filho Miguel que ama uma história inventada. Contamos histórias clássicas ou do Folclore, ou mesmo livros de autores infantis como Alexandre Rampazo, sempre com improviso. Estamos em 40 países atualmente!

Vocês moram hoje em Los Angeles, o “centro” do audiovisual. É um sonho atuar num filme internacional, essa é uma meta sua? Sim! Uma das metas! Mas quero produzir as minhas histórias também e ter mais e mais contato com a cena independente. Hoje quase toda produção tem dois ou mais países envolvidos, isso é muito legal. Mas quero ter sim esta experiência de participar de um longa de Hollywood.

Foto: Alexandre Ormond

Você diz que gostaria de expandir o conceito do que é ser brasileiro, que é muito limitado em Hollywood. Acha que há um certo preconceito com o brasileiro, porque são poucos os nossos profissionais que conseguiram espaço aí, né? Pois é, acho que ainda é um misto de ignorância, de protecionismo, beirando o racismo, mas que aos poucos está melhorando. Está difícil aqui, né? Imagina ser artista brasileiro lá? Ainda tem muita confusão sobre o que é ser latino, sul-americano e brasileiro. Porque somos o único país que não fala espanhol. Mas somos sul-americanos, num país extremamente miscigenado, o que eles ainda não entenderam, pelo jeito. Então, o jeito é escrever, produzir as próprias histórias e ampliar a visão do mercado e público. É isso o que estou fazendo, e outros artistas também. Trabalho de formiguinha brazuca.

Você é cria do teatro no Brasil, já fez muitas peças. E aqui a cultura, que já passava por uma crise, com censura, demonização dos artistas, tá com muitas dificuldades. Como você tem visto isso e queria saber se aí nos EUA a cultura também passa por um momento difícil? A Cultura passa perrengue onde não é valorizada, como é o caso do Brasil, nem ministério a gente tem mais.  Nos países em que é valorizada os governos têm ajudado a manter as companhias de teatro, caso da Alemanha, por exemplo. Nos EUA, por ser uma federação, cada estado está investindo ou não nessa área. O departamento de Cultura de Los Angeles deu um apoio aos artistas. Além do que, tanto através do governo federal e estadual, existe um seguro desemprego decente para quem perdeu a renda, como é o caso de muitos freelancers. Não escolhemos viver esta situação e pagamos impostos para estas ocasiões. Para termos subsídio e apoio do governo. Não é, em absoluto, o caso do Brasil. Se os artistas não se mobilizassem, a Lei Aldir Blanc não existiria. Além de subsídios como na Prefeitura de São Paulo. Eu fico boba como tem milionário, bilionário, no Brasil (ou nos EUA, como o Jeff Bezos, dono da Amazon), que poderia fazer tanto por tanta gente, com uma lasquinha desse bolo... Mas não. Isso é revoltante mesmo.

E como está a situação do Coronavírus por aí, ainda estão em quarentena? E o americano está consciente ou há um grupo negacionista, como no Brasil? Ih, melhorou, mas o povo andou sem máscara e agora, toma lockdown de novo em Los Angeles. O presidente Trump sempre faz pouco caso, joga a responsabilidade pra China, o que não adianta nada e só gera mais racismo e nebulosidade para a população. E ainda tem o papo que usar máscara é “tirar direitos”. Além de ser absolutamente egoísta e pretensioso, porque ninguém sabe 100% como este vírus atua, é não ter mais nada do que fazer na vida, gente. Vai ajudar alguém que precisa e que não tem os direitos garantidos de verdade, exilados, por exemplo; vai se informar, pesquisar as fontes. Eu não nego que está difícil para todo mundo. Quer encontrar poucos amigos e família num ambiente seguro, ótimo, mas usa a máscara, baby. Pelo amor, né?

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