Arlindo Lopes, o “171” Getúlio: “Agora ele pode mudar de vez”

No ar em Malhação, o multitalentoso artista celebra ainda fase frutífera no cinema


  • 20 de dezembro de 2018
Foto: Studio Faya


Por Luciana Marques

No início de Malhação: Vidas Brasileiras, Arlindo Lopes até se assustou com olhares tortos e xingamentos nas ruas. “Nunca tinha feito um personagem que despertasse isso nas pessoas”, conta. O ator se refere ao “171” Getúlio, que no começo da trama teen era um mau-caráter daqueles. Agora, mesmo ainda malandro, vem tornando-se um personagem mais leve com o decorrer da história.

Nesta atual quinzena, Getúlio forma uma dupla fofa e do barulho com a pequena Mel (Maria Rita). Os dois vão passar por situações de aventura e muita confusão. “Energia de criança é a melhor coisa. E a Maria Rita é um amor, uma geniazinha”, diz ele. Multifacetado, além de atuar, Arlindo também escreve e dirige.

O ator faz ainda um balanço feliz de seu ano frutífero nos cinemas. Foram quatro longas: O Beijo no Asfalto, em que faz a cena do beijo ao lado de Lázaro RamosA Voz do Silêncio, no qual dá vida ao protagonista portador do vírus HIV e filho da personagem de Marieta Severo, ambos ainda estão em cartaz; Berenice Procura; e Alguém Como Eu, em que atuou ao lado de Paolla Oliveira, já estrearam.

Já para o teatro, ele comprou junto com o ator Pierre Baitelli, os direitos de The Normal Heart, de Larry Kramer, sucesso na adaptação para os cinemas com Julia Roberts e Mark Ruffalo. Em processo de captação, a peça se chamará no Brasil O Coração Normal, e Arlindo fará o papel de Mark. Ainda nos palcos, ele irá também dirigir Ombela, do angolano Ondjajaki, com estreia prevista para agosto de 2019.

Mel (Maria Rita) e Getúlio (Arlindo Lopes). Foto: Globo/Raquel Cunha

O Getúlio começou a trama aprontando muito, mas foi mostrando que tem coração mole. Qual o balanço você faz do personagem até aqui?

Ele começou fazendo mal ao sobrinho (Érico – Gabriel Fuentes), incentivando que roubasse no colégio com a desculpa de que assim pagariam um advogado para tirar a mãe dele da cadeia. E conforme o sobrinho foi se ferrando, acabou preso, acho que ele começou a mudar. Primeiro se envolveu com a Isadora (Ana Beatriz Nogueira), eles aplicaram golpes, ela foi presa, mas salvou ele. Com isso tudo, ele começou a rever a vida. Neste momento, ele está numa onda mais leve. Nesta quinzena a história está sendo em torno da amizade dele com a Mel. O Getúlio vai querer se dar bem mais uma vez, mas envolve a menina numa confusão, e ele fica desesperado em querer tirar ela disso. Ela é uma criança, né? Mas agora ele pode mudar de vez...

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Então antes, a mudança era só um ensaio?

Sim, ele já estava mudando, algumas pessoas ficaram impressionadas se compararmos o que ele era no início para o que é agora. Nas ruas eu era xingado, é uma coisa nova pra mim. Tinham senhoras que me chamavam de mau-caráter, ridículo... Eu fiquei um pouco assustado. Agora que ele começou a se envolver com a Brigitte (Marianna Armelinni) e ganhou um pouco dessa empatia, mesmo estando tudo errado. E as pessoas falam comigo mais de boa, mas sempre lembrando que ele é '171'.

O que é mais instigante fazer, o Getúlio vilão ou ele agora nessa nova fase mais light?

O que era diferente na primeira parte de Malhação era a surpresa das pessoas em me ver como um mau-caráter, um vilão. Todos os outros personagens que eu fiz na TV e no teatro são carismáticos, alguns dramáticos. O Getúlio era carisma zero. Então, isso pra mim foi diferente. Mas eu gosto de estar vivendo esta parte. Eu tive que ir desconstruindo ele aos poucos, o texto foi mudando. Eu acho um exercício incrível como ator passar por todas essas partes por onde o personagem está passando.

Getúlio (Arlindo Lopes). Foto: Globo/Raquel Cunha

Você acha que a Brigitte tem parte nessa mudança do Getúlio?

Sim, com a Isadora ele ainda era golpista, mas Brigitte fez ele entrar na linha. A gente já sabia que a Ana Beatriz sairia para fazer O Sétimo Guardião. E ela disse que cantou a bola para a Patricia Moretzsohn (autora) e Natalia Grimberg (diretora), de que meu par deveria ser a Marianna Armellini. Então ela diz que é um pouco madrinha deste casal. A gente acabou tendo humor nessa história e sendo um ponto importante dentro da trama.

Como é contracenar com a Maria Rita, que faz a Mel?

A gente fez duas cenas uma vez no Le Kebek e eu quis tratar ela como adulta, e ela me tratou como criança. Então, acho que a relação se deu assim, e depois me falaram que a cena ficou muito fofa e que temos química. Ela é o máximo, super concentrada. Ela fala que me adora, que eu sou o melhor parceiro. Eu até enviei um e-mail para a Patricia (autora) agradecendo, e ela disse que essa dupla é uma ‘chuva de like’.

No longa A Voz do Silêncio.

A gente acompanha você há um tempo na TV, e você mudou muito pouco. Qual a receita para aparentar tanta jovialidade?

Eu vou fazer 40 anos no dia 7 de março. Mas realmente acaba caindo pra mim esses personagens. Na peça Ensina-me a Viver, que fiz com a Glória Menezes, era um personagem velho. Eu fazia o velho e ela era a jovem. Acho que a receita de você ser jovem pode ser pelo fato de você estar feliz com o que está fazendo. Eu também me olho e não me acho com 40 anos. Quando fui fazer o teste para o Getúlio em Malhação, não sabiam se eu podia fazer porque na sinopse ele tinha 23 anos, era primo do Érico. Aí vim, fiz, mas a Patrícia inverteu a ordem dos números. Ele passou a ter 32 anos. No filme que eu faço com a Marieta Severo, eu tinha que ser o filho mais velho, mas o diretor mudou a ordem e me colocou como o mais novo, porque não imprimia eu como mais velho.

Como você avalia sua carreira. Tudo tem acontecido da forma que deve ser?

Eu amei ter feito esses quatro filmes este ano. Adoraria fazer mais cinema, mas não é tão fácil, é uma outra galera. Também sou ansioso, tenho vontade de fazer mais projetos que deveriam estar acontecendo, não deveria ter tempo para me coçar. Com Malhação, gravando duas ou três vezes por semana, consegui tocar várias coisas. Mas tem que dançar conforme as necessidades das gravações. Também queria fazer mais teatro, mas é difícil arrumar patrocínio, estamos tentando captar recursos. Compramos os direitos de uma peça do Larry Kramer. O projeto está aí faz um ano e meio, é um elenco enorme e não dá para fazer com menos gente, a gente chamou o Emílio de Mello, a Julia Lemmertz... O autor entendeu o que vem acontecendo no Brasil e estendeu os direitos sem a gente ter que pagar nada. Ele acha necessário fazer a peça no Brasil, que fala sobre o surgimento do HIV nos anos 80. É um assunto que trabalhei no filme A Voz do Silêncio. Acho que a gente precisa voltar a falar, principalmente neste momento em que temos um novo Ministro da Saúde que já disse que não vai apoiar esses programas de informação e educação sexual e os de apoio a quem se contaminou. Nesse momento essa peça se faz mais urgente. A gente quer estreá-la em 2019.

No filme O Beijo no Asfalto.

Qual a sua expectativa quanto ao novo governo, em termos de incentivo para as artes?

Estou muito ansioso, porque me envolvi em vários projetos, de direção, como ator, produção de cinema, televisão. Eu estou desenvolvendo o projeto de uma série infantil. Eu acho que TV e cinema estão menos ameaçadas neste momento. O teatro está mais ameaçado porque as pessoas começaram a atacar a Lei Rouanet, não sabem o que estão falando. Eu acho que a Lei precisa ser reformulada, não extinguida. Isso seria um tiro no pé. Eu tenho dois projetos para dirigir, um deles que ganhou patrocínio, o Ombela, vamos fazer com música ao vivo.

E os projetos infantis?

Eu tenho uma relação muito legal com crianças. Por isso fazer Malhação com a Maria Rita é especial, inclusive eu quero fazer um espetáculo com ela. A peça As Aventuras do Menino Iogue foi muito legal, ganhou vários prêmios, fizemos turnê. Nós não tínhamos patrocínio, botamos dinheiro do bolso. Eu não sabia que eu pudesse dirigir e foi o máximo. Depois passei a projetar uma série para a TV, que mistura dois mundos, um lúdico e o real. Queremos falar sobre adoção, todas as crianças da série são filhos adotivos.



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