Ana Lúcia Torre: “Tenho gastura com as palavras celebridade e diva”

Espírita, ela vê como normais fatos da trama das 6 e diz como Gentil fortaleceu sua vaidade


  • 26 de março de 2019
Foto: Globo/César Alves


Por Luciana Marques

Com mais de quatro décadas de sólida carreira, um currículo que soma mais de 40 trabalhos na TV, 25 no cinema e 40 no teatro, Ana Lúcia Torre é seguramente uma das maiores atrizes do nosso país. Mas ela deixa claro não curtir certos rótulos. “Eu tenho um pouco de preconceito com duas palavras: diva e celebridade. Me dá uma gastura”, ri ela.

Afinal, Ana vem de uma mesma escola teatral que formou nomes como a colega de Espelho da Vida Irene Ravache... Numa época em que as atrizes literalmente colocavam a mão na massa na coxia. “A gente ralava. Era batalhar, construir cenário, ajudar na iluminação... Eu cheguei a fazer nove sessões por semana”, lembra. E ela fala também sobre esse momento em que há uma certa “demonização” da classe artística. “Acho que é medo, porque a gente tem um público muito maior do que de quem faz política”, diz.

Atualmente, Ana nos brinda mais uma vez com o seu extraordinário trabalho na trama das 6, em que dá vida à dona da pensão Gentil, nos dias atuais, e a Madre Joana, nos anos 30. Nas ruas, ela tem ouvido elogios sobre a vaidade de Gentil. Aliás, a própria atriz revela que nunca usou batom com tons fortes, mas que agora já pensa na possibilidade. E diz também qual seria, na sua opinião, o namorado ideal para a personagem na novela.

Gentil (Ana Lúcia Torre). Foto: Globo/João Miguel Júnior

As suas personagens tanto no passado como no presente são boazinhas. Como é interpretar duas personagens numa mesma novela?

As duas são boazinhas, só que uma é maluquinha e a outra é séria. É como quando a gente está fazendo novela e teatro ao mesmo tempo. São duas personagens. Só que aqui com muito mais personagens pra você conviver. No passado, também tem aquela postura rígida da madre. Apesar de tudo, ela é uma madre muito legal porque é pra frente. Eu dizia assim ‘gente, eu acho que eu não vou para o passado, porque nada acontece para eu ir pro passado’ e quando fui, achei o máximo.

A Gentil vai ter um namorado?

Eu acho que ela vai investir no delegado (risos). A gente já viu que ele gosta muito de cinema e eles têm uns papos interessantes. Acho que é capaz de dar um caldo para isso. De verdade, eu ainda não sei. Está se encaminhando para isso, mas não tivemos cena deles ainda.

A Gentil sempre usou aquele batom vermelho, é vaidosa. Você acha que a vaidade não tem idade?

De jeito nenhum! Tenho sido muito parada na rua porque eu, Ana Lúcia, nunca usei batom. As pessoas comentam exatamente isso. ‘Quando você apareceu com aquele batom, era completamente diferente de tudo que a gente já tinha visto e como ficou bom porque você é clarinha. Aquele batom dá uma vida’. Fiquei muito feliz! E mais feliz ainda porque a ideia foi minha e a nossa chefe de caracterização comprou a ideia. A minha ideia era também fazê-la com as unhas pintadas, mas aí a gente pensou ‘ela é dona de pensão, vai para a cozinha, faz tudo…’ Vai viver de unha lascada, né? Perfeição numa mulher que faz tudo também não ia combinar. Ficamos só no batom.

 

 

Ter um feedback positivo do público sobre o batom da personagem te deu confiança para usá-lo na vida real?

Não tenha dúvida. Não comprei ainda, mas eu estou me encaminhando. Tenho alguns mas não tão fortes. Acho que não usaria o dia todo, nem em qualquer dia. Sou uma pessoa que não usa maquiagem, estou sempre muito simples, faço mercado, vou pra feira. Então, é complicado manter isso. Mas eu que acho que alguma outra coisa virá, sem dúvida.

Você já contou que é espírita. A história de Espelho da Vida, então, mexe muito com você?

Pra mim ler aquilo tudo é uma coisa de normalidade. Porque como eu sei que existe, não sei até que ponto uma coisa que foi se embora em 1920 agora estaria reencarnada... Mas eu acho que não vem ao caso aqui. Vem ao caso contar que isso existe pra quem acredita e quando a gente chega, já tem uma bagagem. Eu não acredito na morte, para mim existe um espírito que é imortal e este corpo que eu estou aqui está dando vida momentaneamente para que aquele espírito realize as coisas que quer e precisa realizar. Por isso a gente tem que tomar muito cuidado com esse corpinho, porque senão a tarefa não vai ser cumprida. Então essa novela pra mim é uma delícia. Porque é aquilo que eu acredito. Eu me sinto bem em casa.

Madre Joana (Ana Lúcia Torre). Foto: Reprodução Globo

Já fez regressão, tem vontade? 

Não. Eu fiz uma vez terapia. O espiritismo não recomenda, porque não é bom que você saiba porque você tem um caminho para esta encarnação.

Em qual momento a senhora se sente uma diva?

Nunca (risos).

Mas você é uma diva do teatro, com tantos trabalhos maravilhosos no palco. Nem atuando se sente uma diva?

Não. Eu tenho um pouco de preconceito com duas palavras: diva e celebridade. Por exemplo, estou fazendo uma novela hoje, me param na rua de uma forma absurda, no aeroporto então é um desastre. ‘Vem cá, vamo tirar foto com a celebridade’. Aí a novela vai sair do ar daqui a pouco e tudo se acalma. Tudo bem, as pessoas me reconhecem mas, sabe, um sorriso, me cumprimentam e vão embora. Cadê a celebridade? Agora, diva… Não… Diva do teatro era a Bibi Ferreira. E agora eu acho até melhor, mas quando chegava o pessoal e dizia 'Você me daria um autógrafo?' E às vezes chegava gente pra mim e dizia ‘Põe aqui na minha camiseta’. Eu dizia: ‘Pra quê? Pra botar na máquina de lavar? Cê num vai botar, guardar na gaveta pro resto da vida uma camisa tão linda’. Então é muito engraçado, mas eu acho que o público tem essa vontade, né? Com a foto do celular facilitou. Cê chega, tira a foto e aquilo eventualmente ele vai guardar. Eventualmente. Porque também vai chegar o dia que vai estar cheia a caixa…

Você nunca foi de deixar ninguém colocar você em pedestal, né?

Lógico… Pedestal nem pensar! Eu acho que é o mesmo pensamento que norteia as atrizes mais antigas. As mais novas têm essa cultura porque elas nasceram nela. Estava conversando com a Irene Ravache, que é da mesma turma que eu. A gente ralou… Não tinha televisão. Não tinha rede social. Eu cheguei a fazer nove sessões por semana. E era lotado porque era a diversão das pessoas. E era acessível. Depois veio a televisão, graças a Deus, ampliou o campo de trabalho e eu acho uma maravilha que a gente tenha essa opções.

Foto: Globo/César Alves

Dá um saudosismo dessa época que as pessoas iam mais ao teatro?

Era uma época em que a cultura era dada às pessoas desde a escola e a cultura era incentivada. Hoje em dia, nosso país acha que a única maneira de sobreviver é ganhar dinheiro. É a única forma, o único investimento que se faz é no ganhar dinheiro. Mas se você não tem uma base de educação e cultura, você não constrói um país legal, com base. Então como é que você vai estruturar uma economia, no lodo, sem ninguém ali na base pra sustentar?

Como você está vendo esta fase estranha, de ataques e uma espécie de “demonização” da classe artística? 

Eu acho que é medo. O nosso público é muito maior. Eu não tô falando que não tenha gente que faça lei e que seja muito legal e políticos que sejam muito bons. Têm e a gente sabe, mas quando a gente consegue reunir um núcleo e levar uma ideia avante, essa ideia atinge fortemente o público. Por outro lado, as pessoas hoje em dia estão acostumadas a ler qualquer porcaria e já dizem: ‘Nossa, isso é interessante’. Mas elas não leêm até o fim e repassam para uns 40 da sua rede social. Então qualquer coisa que cai na rede social, as pessoas acreditam e passam pra frente. Existe um site que eu estou passando pra todo mundo, se chama boatos.org. Você vai lá, digita e na hora é fácil verificar se aquilo é verdadeiro.

O que a senhora falaria para aquela Ana Lucia lá de trás como é viver nessa sociedade machista e preconceituosa?

Eu diria o seguinte, a sociedade é machista… É duro de falar isso. Quem cria os filhos são as mães e grande parte das mães criam filhos machistas. Eu acho que a mulher sempre se colocou num passo atrás, num degrau abaixo, como postura social. Claro, é uma herança cultural. Não é uma mulher por dia, são dezenas que morrem ou são espancadas. Então é óbvio que eu não vou dizer pra toda mulher ‘você é poderosa’. Porque ela não tem como sair de determinadas situações, mas eu posso dizer pra mulher ‘não crie o seu filho assim’, porque isso é fundamental.



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