Ana Hikari: “Ouço piadinhas por se oriental. Tina me ensinou a ter voz”

Cria do teatro, atriz, uma das Fives de Malhação, desponta como revelação na TV


  • 19 de março de 2018
Foto: Luis Dalvan


Por Redação

Ana Hikari, de 23 anos, tem bagagem de veterana no teatro, onde atua desde os 12 anos. No currículo, montagens de clássicos como Anton Tchekhov, Oswald de Andrade e Tenesseee Williams. Mas só foi estrear na TV como a Tina, uma das Fives de Malhação: Viva a Diferença, que a atriz já desponta como revelação também nesse veículo. Além disso, é a primeira oriental a ser protagonista de uma novela da Globo. “Foi maior do que eu podia imaginar. Uma experiência única e enriquecedora”, avalia.

Ana, que é filha de pai negro, o professor de cinema da USP Almir Almas, e da dentista Makiko Takenaka, brasileira descendente de orientais, vivenciou na ficção algo muito familiar: a questão do racismo e do preconceito. “A vida toda meus pais estão nessa batalha”, conta. Na novela, a personagem Tina teve que brigar contra tudo e todos pelo seu amor por Anderson (Juan Paiva), jovem negro e de classe social inferior.

Nesta entrevista ao ArteBlitz, que também pode ser vista em vídeo exclusivo ao fim do texto, Ana fala abertamente sobre todos esses temas. E, feliz da vida, diz ter se apaixonado pela TV. Agora todos os fãs e nós aqui também do Portal já queremos ver Ana de novo na telinha. E vê se não demora, porque, além de grande atriz, ela é apaixonante!

Tina. Foto: Globo/Sergio Zalis

"Não pensava muito nessa coisa de protagonista. Me dediquei na atuação para que essa história chegasse ao público com clareza e ganhasse relevância. E conseguimos! Mas claro que também foi uma honra ter sido a primeira protagonista oriental da TV Globo."

- Malhação - Viva a Diferença terminou como um grande sucesso . Que balanço faz desse trabalho e o que ele te ensinou para a vida?

Essa Malhação foi maior do que eu podia imaginar. Para mim, como profissional, foi um ano muito importante. De muito estudo, concentração, foco e dedicação para colher todos esses resultados que a gente conseguiu. Então, para o âmbito profissional foi uma experiência única e engrandecedora. E, além disso, foi uma marco porque a gente conseguiu trazer à tona muitos temas importantíssimos hoje em dia para o Brasil. A gente falou sobre racismo, machismo, homofobia, bullying, e de uma maneria que trouxe o público para debater, para falar abertamente sobre esses assuntos. 

- No início, você chegou a se assustar com a possibilidade de ser uma das protagonistas e por ter tido uma trama tão forte ligada ao racismo?

No início, quando a gente começou a preparação com todo o elenco jovem, a gente criou um clima muito agradável, de grupo, de parceria, de concentração, e de foco na atuação. Isso fez com que eu pensasse muito mais no meu trabalho como atriz e muito menos na questão de ser protagonista. Porque eu sabia que o mais importante ali era a gente contar essas histórias. Como, por exemplo, o tema do racismo que foi abordado durante a trama toda da Tina, porque isso, para mim, sempre foi uma urgência. Então, eu me dediquei muito na minha atuação para que essa história, esse tema, chegasse ao público com muita clareza e ganhasse revelância nos assuntos falados hoje em dia no Brasil. E a gente conseguiu, felizmente. Claro que, para mim, foi uma honra ter sido a primeira protagonista oriental da TV Globo. Mas a maneira que eu encontrei de lidar com todas essas situações de protagonismo e de assuntos tão importantes foi trabalhar muito bem a minha atuação.

Foto: Luis Dalvan

- Você é um exemplo lindo de miscigenação. O que mais aprendeu com seus pais, até nessa questão de racismo?

Acho que as duas maiores lições que os meus pais me ensinaram, uma delas foi o estudo. Eles sempre me falavam que a única coisa que não podem tirar da gente é o conhecimento. Eu acho que desde pequena eu sempre fui meio nerd, meio estudiosa, porque eles me passaram esse gosto pelo estudo. E a outra coisa que eles me ensinaram foi lutar contra os preconceitos, a se posicionar, porque eles tiveram uma vida de se posicionar contra preconceito, ter essa batalha contra o preconceito. Então, eles me ensinaram muito isso.

"Desde pequena sempre fui meio nerd, estudiosa, porque meus pais me passaram esse gosto pelo estudo. E a outra coisa que eles me ensinaram muito foi lutar contra os preconceitos, porque eles batalham contra isso a vida toda."

- Você já viveu algum tipo de preconceito?

Assim como a maior parte de descendentes de oriental aqui no Brasil, eu, como brasileira, eu sofro com as piadinhas, as brincadeirinhas de mau gosto sobre a minha descendência. Infelizmente, isso acontece. E um dos nomes que a gente pode dar para isso é discriminação racial, é um tipo de preconceito que, apesar de a gente viver num país que tem muitas etnias, que tem muita mistura, que há anos recebe pessoas de tudo o quanto é lugar, as pessoas ainda não tem esse respeiito, essa consciência de respeita. Se a pessoa não gosta, não precisa ficar lá enchendo o saco... Infelizmente, ainda sofro com isso.

- Já passou por uma situação parecida com a da sua personagem, o que faria no lugar da Tina, teria a mesma atitude, de lutar pelo seu amor?

Não. Eu nunca passei por uma romance proibido como o da Tina. Mas eu acho que se eu passasse por isso, eu faria como ela, seria uma menina forte, enfrentaria tudo e todos pelo meu amor, com certeza. Acho que é essencial enfrentar os preconceitos.

Manoela Aliperti, Heslaine Vieira, Gabriela Medvedovski, Ana e Daphne Bozaski. Foto: Globo/Raquel Cunha

- O que mais aprendeu com a Tina?

Logo no terceiro capítulo, a Tina fala, eu não gosto que me chamem de japa. Eu tenho nome, meu nome é Tina. Então, acho que, assim como a Tina e muitos descendentes de orientais aqui no Brasil, eu sofro com esse preconceito, mas eu aprendi com a Tina que eu posso ter voz, me posicionar e que eu posso falar contra esses preconceitos. Porque eu acho que ninguém precisa ser julgado ou estereotipado dessa maneira. Então, eu aprendi muito com a minha personagem que a gente pode ter voz e se posicionar.

"Sobre As Five, a gente virou muito amiga na vida real. A gente aprendeu a cuidar uma da outra. Se eu ficava doente, todas iam lá para casa. E isso, esse carinho entre a gente, refletiu no nosso trabalho na novela." 

- Com a sua estreia na TV, ainda mais com um público tão eufórico e participativo como o de Malhação, como foi lidar com a fama, com essa troca com os fãs?

Ah, eu acho muito gostoso lidar com os fãs, com todo o mundo que gostou da novela. E eu sempre uso as minhas redes sociais para isso, eu sempre posto muita coisa no instagram, eu gosto de interagir com eles respondendo os directs, eu respondo os comentários nas fotos. Eu uso o twitter também para conversar com eles. E eu acho isso muito legal porque, além de eles passarem esse último ano conhecendo a Tina, que foi a minha personagem, através das minhas redes sociais, eles conhecem a Anna Hikari. Então, é uma pedaciinho de mim ali na internet, que a gente vai se comunicando, conversando. E é muito legal, eles mandam mensagens super carinhosas, sempre muito felizes, querem conhecer, bater papo. É muito legal!

Com o parceiro de cena Juan Paiva, o Anderson da trama. Foto: Globo/Ramón Vasconcelos

- As Five sempre foram muito próximas na trama. Na vida real, vocês ficaram realmente amigas, fale dessa relação...

As Five, a gente virou muito amiga na vida real. A gente aprendeu a cuidar uma da outra, a ter carinho uma pela outra, porque, no início, era uma relação de muito respeito que a gente tinha entre as cinco, virou uma parceria de trabalho. E, no fim das contas, virou uma parceria de amizade. Por exemplo, eu fiquei doente, e as meninas iam lá em casa para cuidar de mim, aí outro dia a gente ia fazer uma janta na casa da outra. Era sempre assim, uma cuidando da outra. E eu acho que isso foi muito importante porque essa parceria que a gente conseguiu fora, refletiu muito no nosso trabalho de As Five dentro da novela. Então, foi muito importante essa parceria.

- Quais os seus sonhos na carreira?

Olha, agora que eu conheci esse espaço da televisão, eu estou completamente apaixonada. Eu quero mostrar cada vez mais a minha carreira como atriz na TV. Um sonho que eu tenho para agora também é explorar esse meu trabalho como atriz no cinema também. E também continuar no teatro como eu sempre estive, no canto, no circo. Então, é sempre bom continuar estudando, porque a carreira de ator, de atriz, é uma carreira que você tem que estar sempre se renovando e estudando.

 



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