Soraya Ravenle: “É engraçado, o teatro musical me puxa”

Ao viver Isaura Garcia, ela completa trilogia de grandes cantoras no palco


  • 11 de outubro de 2018
Foto: Elvis Moreira


Por Luciana Marques

* Entrevista também disponnível em vídeo, abaixo.

Cantora e atriz, Soraya Ravenle é referência hoje quando se fala de teatro musical no Brasil. Entre seus quase 30 trabalhos no palco, ela já interpretou divas como Dolores Duran e Carmen Miranda. “É engraçado, porque parece que o teatro musical fala: 'Vem cá!'”, conta ela, estrela de montagens como Viva o Zé Pereira, Ópera do Malandro, Sassaricando – e o Rio inventou a marchinha e Um Violinista no Telhado.

Atualmente, Soraya dá show como outro grande ícone da época de ouro do rádio, nos anos 40 e 50. Em Isaura Garcia - o Musical, em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Rio, ela divide a interpretação da estrela com Rosamaria Murtinho e Kiara Sasso.

No momento em que foi convidada, ela revela que não estava a fim de fazer um novo musical. Mas admite que foi seduzida pela história dessa cantora muito à frente de seu tempo. “A Isaurinha, assim como várias artistas daquela época, eram na verdade feministas, mas sem levantar propriamente bandeiras”, diz.

Em cena como Isaurinha. Foto: Felipe Panfili/Divulgação

O que tem mais instigado você nesse trabalho?

Confesso que não tinha dimensão de quem era essa mulher, sabia quem era, conhecia alguns sucessos, mas não tinha ideia da pessoa que ela era e da importância que ela teve na música popular. Uma cantora paulista que não gostava de viajar, então ela ficou muito localizada ali em São Paulo, e a assinatura dela como intérprete também ficou muito localizada, a maneira que ela cantava o samba, que suingava. Ela é a terceira cantora que eu tenho oportunidade de traduzir eu diria, cenicamente. Há 17 anos fiz um musical sobre Dolores Duran, depois um sobre Carmen Miranda, além dos outros todos. Essa é como se completasse uma trilogia na minha vida.

Kiara Sasso, expoente de musicais: “Glamuroso, mas a obra que conta”

Dandara Mariana, Heloisa Jorge e Fernanda Jacob são Ivone Lara

Ao pesquisar a vida de Isaurinha, uma mulher à frentre do seu tempo, o que mais a impressionou?

A Isaurinha tem uma característica que eu acho que talvez me chama mais atenção, o transbordamento emocional. Sempre que ela cantava, a mulher estava misturada com a cantora, com a artista, a intérprete, não tinha divisão. E tem um livro dela, uma pequena biografia, mas muito rico, com depoimentos de pessoas que conviveram com ela. Então, há depoimentos que eu acho que foram definidores pra mim, pra essa tradução que eu tentei fazer da Isaurinha.

Tem como citar alguns mais marcantes?

O depoimentos do Zé Celso Martinez e do Fauzi Arap, da Nana Caymmi, esses três me marcaram demais, e do Chico Buarque que fez uma contracapa para um disco que ela tem de Chico Buarque e Noel Rosa. O Zé Celso conta que os atores do grupo de Teatro Oficina iam assistir à Isaurinha e se inspiravam naquela intérprete porque ela era uma atriz também, ele diz que ela cantava com o corpo inteiro, era teatral, emoção pura. Dizia que Isaurinha não repetia nenhuma interpretação. O Fauzi Arap conta que se inspirou num gesto de braços da Isaurinha para um personagem que estava ensaiando para uma peça. E foi uma escolha tão feliz, que foi um personagem extremamente marcante na carreira dele, e as pessoas que viam ficavam impressionadas com aquela composição. E partiu de um gesto que Isaurinha fez num show que ele assistiu. E a Nana Caymmi falou que ela era referência pra ela, da grande cantora brasileira da época.

 

 

Ela acabou deixando um legado, uma marca, né?

O que me chamou muita atenção também é a capacidade de visão, de suingue que ela tinha. Tenho uma teoria de que a paixão, o amor dela com o Walter Wanderley, que foi o segundo marido, um músico excepcional, tinha muito a ver com isso. Porque os dois tinham uma capacidade rítmica, de muita liberdade. Com certeza, a Elis Regina, a Maria Bethânia, muitas cantoras beberam ali na Isaurinha Garcia como uma fonte de intérprete moderna, apesar dela não ter feito a passagem para a bossa nova propriamente. Mas ela suingava, foi muito moderna ao mesmo tempo.

Foto: Elvis Moreira

Você vê algo da Isaura em você?

Sempre quando a gente faz um tipo de tradução como essa, de uma pessoa que existiu, isso passa pelo meu corpo, pela minha voz. Então, estudo, estudo, bebo, bebo, mas na verdade alguns traços principais da Isaurinha eu deixo atravessar. Quem entra no palco sou eu, mas claro que esses traços que vi na Isaurinha passam por mim e pela voz que eu tenho, pelo temperamento de atriz que eu tenho. E tudo fica bastante misturado. Sempre falo que a Isaurinha, assim como artistas daquela época que ousaram ser cantoras, atrizes, porque não era regulamentada a profissão, vinha escrito prostituta na carteira de trabalho... Então, essas mulheres, Dalva de Oliveira, Dolores Duran, todas da rádio, a Carmen Miranda, eram ousadas. Elas eram na verdade feministas, mas sem levantar propriamente bandeiras, assim como a Leila Diniz revolucionou paradigmas morais e comportamentais, como o Ney Matogrosso. Quer dizer, pessoas que colocaram em cheque preconceitos, sem propriamente ser de um partido. A Rogéria, falecida, saudosa, falava isso: 'Eu não levantei bandeira nenhuma! Eu sou a própria bandeira!' Adoro essa frase! E eu acho que cabe muito bem para a Isaurinha, para todas essas mulheres, elas eram a própria bandeira do feminismo, da modernidade, da falta de preconceito. Tinham amigos pretos, brancos, amarelos, gays, trans, elas já eram livres assim, então isso é muito admirável.

Em cena como Isaurinha. Foto: Felipe Panfili/Divulgação

A gente sempre vê você no palco, principalmente fazendo musicais. É uma predileção?

Olha, o teatro vive me chamando. Confesso que quando o Rick (Garcia – produtor), neto da Isaurinha, me convidou, eu não queria fazer musical. Não tenho tido vontade, nem de assistir. Mas fiquei seduzida pela Isaurinha, e hoje estou aqui contente, honrada. Isso é uma coisa engraçada na minha vida, passo pela televisão de três em três anos, é um negócio muito rico, interessante também. Mas faço passagens por lá, e o teatro musical, não posso negar que é um pouco o esqueleto, uma espinha dorsal de uma caminhada longa já. Eu não vivo sem cantar também, estou sempre gravando discos, fazendo shows. Gosto de tudo um pouco, dessa miscelânea. Me atrai passar por muitas expressões diferentes. Mas é engraçado porque parece que o teatro musical fala: 'Vem cá!'. Estou fazendo também um monólogo, Instabilidade Perpétua, fui para o Festival de Brasília, em paralelo com a Isaurinha. Fico louca, cansada, mas o teatro musical parece que me puxa, me obriga. E quando eu estou fazendo tenho muito prazer realmente, principalmente com um repertório desses, direção musical muito boa da Bibi Cavalcante. Então, tem alguns ingredientes muito gostosos aqui.

Há alguma cantora que você ainda gostaria muito de interpretar no palco?

Eu não tenho nenhum desejo de nenhuma outra cantora. Isso chegou para mim e, às vezes, eu penso que é uma trilogia que encerrou. Nunca sei o que vai acontecer, mas não tenho nenhum outro desejo de fazer nenhuma cantora não.



Veja Também