Saulo Vasconcelos: “Teatro musical não é modinha, é trabalho duro”

Ícone do gênero no país, ator cita em biografia vitórias e “porradas” em 20 anos de carreira


  • 07 de novembro de 2018
Foto: Sergio Santoian


Por Luciana Marques

Em 20 anos de carreira, Saulo Vasconcelos já protagonizou os mais importantes musicais produzidos no Brasil. Para citar alguns, Les Misérables, A Bela e a Fera, O Fantasma da Ópera, A Noviça Rebelde, Mamma Mia... Imaginem quantas histórias o ator não vivenciou? Das vitórias, às “porradas”, ele conta agora tudo de sua trajetória na autobiografia Por Trás das Máscaras. “O resultado foi magnífico. Foi como receber um Oscar pelo conjunto da obra de mim mesmo”, diverte-se.

Saulo diz que fez questão de contar no livro várias passagens da carreira, não só as mais glamurosas, mas até os momentos difíceis, como quando pensou em desistir. E para os jovens atores que sonham em trilhar uma trajetória no teatro musical, ele dá algumas dicas durante o nosso bate-papo. Mas preste bem a atenção, porque a lista imensa: “Teatro musical não é modinha, é trabalho duro”, ensina. Ah, e segundo ele, “humildade é de extrema importância nesse business”.

Em O Fantasma da Ópera. Foto: Divulgação

Como é ver, ainda novo e em vida, a sua trajetória transformada em biografia?

Parece que eu morri, né? (risos). Acho que  por isso decidi fazer uma autobiografia. Essa ideia surgiu quando fiz um dossiê da minha vida para poder fazer aplicação ao visto canadense de residência permanente. Na época, havia recebido uma oferta de trabalho da Randolph Academy for the Performing Arts, em Toronto. E achei muito interessante a ideia de morar num país de altíssima qualidade de vida, segurança e educação. Ao fazer o dossiê, me dei conta do tanto que já havia feito na vida e achei que poderia contar essa história par as pessoas que gostam de mim e do meu trabalho, e também para inspirar futuros atores e artistas. Sempre sonhei em gravar um CD e ter um livro escrito, e já fiz as duas coisas. Agora posso morrer em paz.

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No processo do livro, imagino que você deve ter revivido muitos momentos especiais e outros nem tanto. Como foi isso para você?

Foi profundo demais. Eu fiz anotações, áudios de tudo que ia lembrando no meio do caminho. Porque eram muitas coisas para relembrar e muitos detalhes que se perdiam. Já comecei a receber vários feedbacks, e o que mais se repete é que as pessoas sentiram falta de ler mais sobre minha vida, mais detalhes. Os momentos mais especiais foram obviamente no meu início de carreira com os grandes musicais blockbusters - O Fantasma da Ópera, Les Misérables e A Bela e a Fera, entre outros -, ou mesmo o nascimento de minhas filhas. E um dos momentos mais tristes foi especificamente lembrar da partida da minha avó desse mundo. Na correria do dia a dia não tenho tempo de reviver o passado, sou um cara que sempre olha para o futuro. Um defeito até, visto que minha mulher sempre insiste para que eu viva mais o momento, seja mais presente. Reviver esse passado, então, foi uma grande homenagem aos amigos e familiares que contribuíram para a minha trajetória, principalmente como ser humano.

Há artistas que quando fazem a sua biografia acabam deixando momentos complicados, de insegurança, de erros, de fora... Como foi no seu caso?

Não deixei nada. Coloquei todas as dificuldades que foram possíveis. Minha vontade de desistir da carreira, meu cansaço com alguns aspectos da profissão. Acho importante saber falar sobre tudo, especialmente coisas que não são tão atraentes e glamurosas. Eu queria ter escrito mais páginas, mas fiquei preocupado de escrever sobre algo que ninguém está afim de saber, entende?

Com Kiara Sasso em A Bela e a Fera. Foto: Divulgação

Lá no comecinho da sua carreira, você imaginava se ver hoje como um dos grandes nomes do musical no Brasil?

Sim (risos). (falo dessa forma porque acho mesmo engraçado). No meu primeiro dia de ensaio, pedi ao diretor de El Fantasma de la Ópera que me transformasse no melhor Fantasma do mundo. E ele me respondeu: 'Ahm… vamos aguardar os ensaios. Acho melhor você se concentrar em fazer um bom trabalho, por enquanto'. Eu fico muito feliz que ele tenha falado isso, porque não tinha ideia de como é duro ser bom em musical. Exige uma disciplina, preparação, foco, concentração. Até que eu chegasse ao ponto em me sentir muito tranquilo fazendo isso demoraram muitos anos. Fazer tantos espetáculos como esses, em papéis de tanta relevância, foi impagável! E o mais impagável foi a porrada na cara que eu tomei quando quis ser maior do que dava conta. Não se confunda, eu me acho bom e não sou modesto. Mas sei que humildade nesse business é de extrema importância para o crescimento.

A capa do livro. Foto: Divulgação

Cada vez mais jovens atores estão descobrindo e tentando se direcionar para o gênero musical. Qual o seu conselho para eles?

Pensem bem o que querem. Teatro Musical não é modinha. Não é glamour. Não é fama. Teatro Musical é trabalho duro, que exige horas de ensaios, horas de apresentações, preparação física e vocal constante, baixos ganhos, em geral, mas principalmente no início da carreira, abalos na autoestima. Envolve você ser colocado à prova constantemente através de testes, audições e ou castings, envolve saber se relacionar muito bem com os colegas, com seus superiores e com as pessoas que cuidam de você na maquiagem, figurino, peruca, luz, som, etc. Você precisa ter diplomacia, disciplina, talento, seriedade, profissionalismo, desapego ao conceito de salário, 13º, férias e carteira assinada. Precisa ser empreendedor daqueles de raiz, que não procrastina. Precisa ter empatia e muito carisma. Se você não cumpre algum desses requisitos, terá dificuldades.

Em Cats. Foto: Divulgação

O Brasil já faz musicais com qualidades técnica e artística semelhante ao exterior?

Qualidade técnica e artística às vezes superior ao que vi em Nova York e Londres. E não falo de mim. Daniel Boaventura esteve estonteante como Gomez em A Família Addams. Claudia Raia genial em Cantando na Chuva. Marcos Tumura, apesar de perfil oriental - acho que foi o único no mundo que fez o papel -, fez um Jean Valjean digno de ser exibido a outros atores no mundo como referência. Sara Sarres e Kiara Sasso, duas divas no meu entendimento mais puro da palavra, deveriam ser estudadas pela sua capacidade de se renovar e se transformar a cada papel.

O seu segmento é mais o musical, mas você tem vontade de fazer novela, por exemplo?

Já fiz. Mas não invisto todo o meu tempo nisso. Já fiz trabalhos na Record, HBO e até um curta metragem que foi um absoluto fracasso. Todas essas histórias estão no livro. Tenho muita vontade de fazer, mas como gasto muito do meu tempo em educação de novos artistas e com a família, tem me sobrado pouco tempo para ser mais agressivo nessa vertente de carreira.

Com elenco do musical Mamma Mia. Foto: Dede Fedrizzi

Você já fez grandes personagens em musicais. Qual o seu personagem dos sonhos que ainda deseja muito fazer? 

Sweeney Todd é um dos poucos que ainda tenho absoluta obsessão em fazer. Meu sonho na carreira agora é ajudar o outro, passar o bastão. Não que esteja me aposentando. A mentalidade de quem tem um emprego nos padrões normais às vezes enxerga essa frase dessa forma. Em teatro se trabalha até o fim da vida, mesmo porque eu morreria sem estar no palco ou envolvido com. Posso contribuir de muitas maneiras, que não seja só como ator. E tenho feito isso: ensinando, criando cursos, realizando eventos que enaltecem a arte de multiperformance, conhecendo e pesquisando o teatro musical em outros países, dirigindo, produzindo. Também me associando a pessoas do bem que podem contribuir para que eu continue gerando conteúdo de qualidade pra quem quiser usufruir.

Saulo por Saulo, como se definiria?

Uma pessoa orgulhosa da família, de mim mesmo, dos amigos que possuo, sem muitos apegos com coisas que não tem importância. Sou chorão e com o tempo ando ficando cada vez mais caseiro e pacato.  

Há algum novo projeto para falar?

Há vários! Mas ainda não posso falar muitos detalhes, porque estou atrás de parceiros. Quero fazer um DVD dessas duas décadas de trajetória nos musicais. Ano passado fiz meu show de 20 anos de carreira em Brasília num primeiro momento e depois em São Paulo. E agora quero fazer meu DVD. Verdadeiro sonho que estou certo de que vai se realizar. Tenho uma equipe de pessoas extremamente comprometidas e competentes e espero trazer boas novas em breve.



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