Rosamaria Murtinho, aos 82 anos, brilha no musical Isaura Garcia

Com 60 de carreira, ela fala em sorte e diz que deve ter jogado coisas boas ao universo


  • 03 de outubro de 2018
Foto: Rodrigo Lopes


Por Luciana Marques

* Entrevista também disponível em vídeo, abaixo.

Uma das divas da nossa dramaturgia, aos 82 anos de idade e 60 de carreira, Rosamaria Murtinho brilha no palco de Isaura Garcia – O Musical, em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Rio. “Não imaginava nessa idade ainda estar no palco representando, cantando e dançando. A vida foi boa comigo”, avalia ela, que tem quase 60 trabalhos na TV e inúmeras peças.

Essa é a terceira vez que Rosamaria interpreta a cantora ícone da época de ouro do rádio, nos anos 40 e 50. A primeira foi em 2003, no musical Isaurinha Garcia – Personalíssima, e a outra, em 2009, em Isaurinha - Samba, Jazz & Bossa Nova. “É uma coisa da Isaura comigo”, brinca.

Na montagem inédita escrita por Júlio Fischer, direção-geral de Jacqueline Laurence, artística de Klebber Toledo, que também assina a produção com Rick Garcia, Rosinha divide o papel-título com Kiara Sasso e Soraya Ravenle. E será que aposentadoria passa pela cabeça da atriz? Veja no descontraído bate-papo com o ArteBlitz nos bastidores do espetáculo. 

Foto: Felipe Panfili

É a terceira vez que você vive Isaura no teatro. Parece que tem uma conexão forte, né?

Pois é! A primeira vez, eu fiz a Isaurinha em todas as idades, na segunda vez, fizemos uma espécie de pocket show. Agora quando o Rick me chamou pela terceira vez, 18 anos depois eu falei: 'Agora não dá pra fazer tudo não, agora eu só faço a velha'. Aí o Júlio (Fischer) escreveu uma outra peça e me botou contando a história, a minha história, contando a história da Isaura Garcia.

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Mas por que você acha que sempre é lembrada para viver Isaura?

Sei lá, o Rick me acha a avó dele, ele quer sempre que eu faça a Isaura Garcia, sempre!

Sempre que você pesquisa a vida de Isaura, o que mais surpreende você?

O que me marcou mais ao estudar Isaura, ver as entrevistas dela, é que apesar de toda vida trágica que teve, ela era uma pessoa muito divertida e engraçada, ela era uma pessoa livre. As pessoas estão querendo tanto agora no século XXI, em 2018, o empoderamento das mulheres, não estão conseguindo alguma coisa, e ela já era livre na década de 40. Então, é isso que eu acho na minha opinião que mais marcou, o legado dela foi essa liberdade que ela tinha.

 

 

O que você vê da Isaura em você, Rosamaria?

Eu sou uma pessoa determinada, e ela era determinada! Talvez isso.

Você imaginava aos 82 anos, ainda estar brilhando no palco, vivendo uma personagem tão forte?

Não, não imaginava, não imaginava nem chegar em um palco. Foi uma coisa que eu comecei porque me chamaram, uma pessoa ficou doente 10 dias antes de uma estreia, de um teatro de amador, e eu entrei e nunca mais saí. Nem eu pensava isso, imagina nessa idade ainda representando, dançando, cantando... E eu que não sou cantora, hein? Bom, eu sou uma atriz que canta, não sou cantora. Pois é, eu acho que eu tive sorte, a vida foi boa comigo. Mas também a gente faz parte do universo que é um espelho, o que você joga pra ele, volta pra você, então eu devo ter jogado coisas boas e voltam coisas boas pra mim.

Com Samuel Melo. Foto: Felipe Panfili

Como você vê essa nova geração de atores, os jovens, estão mais preparados, ou muitos vivem essa indústria da “celebrização”?

Acho que tem muita gente interessada em só ser capa de revista e ser famoso, como também há gente muito jovem interessada em ser realmente um ator, uma atriz, com dedicação. Como em qualquer profissão, tem de tudo, tem os mais malandros e tem uns que querem se aprofundar. Acho que essa nova geração tem muita coisa que está saindo em revista, em livros, então, eles podem se exemplificar mais, terem menos problema como nós quando começamos, a gente não tinha muito onde se segurar, a gente aprendia no palco mesmo, agora tem boas escolas, bons colegas, excelentes diretores, que eu acho que facilita muito o jovem que está começando.

Que conselho você daria a esses jovens?

Estuda! Tem que estudar! E ser uma pessoa séria, no trabalho tem que ser sério. Por exemplo; eu sou uma pessoa brincalhona, mas na hora que diz 'Atenção! Gravando!' na televisão ou que abre a cortina do palco, eu esto focada naquilo que eu tenho que fazer. Seriedade no trabalho, eu acho que isso é muito importante.

São 50 anos de uma carreira muito bem sucedida. Há alguma mágoa, algo que gostaria de ter feito, ou tudo aconteceu como tinha que ser?

Tem coisas que eu gostaria de ter feito e não fiz, papéis que eu perdi para outra pessoa que não deram pra mim, papéis que eu ganhei de outras pessoas. Não existe uma linha determinada, talvez lá de cima. A Dercy Gonçalves dizia que Deus chegava lá em cima e dizia: 'Esse ano vai ser seu viu?'.

Mas deve dar um orgulho danado ter feito tanta coisa bacana, né?

É, eu fico olhando para trás e falo, 'É, eu fiz muita coisa mesmo viu?'. Mas não levo isso com arrogância, nem levo assim como se fosse a melhor coisa do mundo. Fez parte da minha vida, da minha carreira e da minha dedicação.

Com Kiara Sasso. Foto: Felipe Panfili

A palavra aposentadoria passa pela sua cabeça ou ainda não?

Às vezes, eu penso, viu? Às vezes, quando eu estou muito cansada para fazer espetáculo eu falo: 'Ai, eu podia estar aposentada!' Mas eu acho que, não sei, talvez possam me aposentar. O que é isso? Falta de convite, falta de interesse que eu possa trabalhar, aí você é obrigada a não trabalhar. Hoje em dia tem muito ator bom que está fora da televisão e fora do teatro, e é uma pena isso acontecer. Muito ator bom que não está trabalhando e que deveria trabalhar!



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