Rafael Portugal cita perrengues até sucesso: “Cheguei a desistir”

Expoente do humor na internet e no teatro, ator mostrará veia dramática no cinema


  • 05 de outubro de 2018


Por Luciana Marques

Quem vê hoje Rafael Portugal no elenco do humorístico da web Porta dos Fundos, já eleito o canal mais influente do mundo, em 2016, e com o seu stand up Eu comigo Mesmo lotando salas pelo Brasil, nem imagina os perrengues pelo qual o ator já passou desde o início da carreira. “Cheguei a desistir de fato”, conta.

Desde a falta de grana para frequentar cursos de teatro, até a dificuldade para voltar das apresentações à noite para a sua casa, em Realengo, zona oeste do Rio, onde nasceu e foi criado, até os “nãos” frequentes. “Nunca passei em um teste”, revela. Mas ele ressalta também que a sua formação de ator na Lona Cultural Gilberto Gil foi essencial para torná-lo o profissional que é hoje. “Ali eu vi o que eu realmente queria fazer na minha vida”.

Na entrevista ao Portal ArteBlitz, o comediante também avalia como está sendo fazer humor num cenário político tão nebuloso. E ele fala ainda do espetáculo Eu Comigo Mesmo, em turnê nacional, e em cartaz todas as quartas-feiras, até 21 de novembro, no Teatro Miguel Falabella, no Rio.

No espetáculo Eu Comigo Mesmo. Foto: Divulgação

Quando você descobriu que queria ser ator?

Ainda criança já me despertou isso, lembro de ver nameu pai, ele faleceu quando eu tinha 7 anos, na frente da televisão chorando de rir com o Tom Cavalcante, com a Escolinha do Professor Raimundo. Lembro de entender que a comédia fazia meu pai morrer de rir, e eu achava aquilo incrível. E isso me despertou o interesse pela comédia. Sempre gostei de fazer as pessoas rirem, na escola lembro dos professores comentarem isso com a minha mãe, de eu ser o engraçadinho da turma. Também era sempre o primeiro a falar que queria fazer parte das apresentações de teatro. Essa vontade de ser ator sempre teve presente na minha vida, óbvio que coisas vão aparecendo no caminho. Fiz escolinha de futebol, mas em tudo que eu entrava, estava sempre ali interpretando, fazendo alguma cena. Até que um dia resolvi fazer aula de teatro na Lona cultural Gilberto Gil com o professor Eduardo Monteiro, fiz parte de uma companhia teatral e dali em diante nunca mais quis ser outra coisa que não fosse ator.

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Qual a importância de ter passado pela Lona Cultural Gilberto Gil?

Primeiro, que eu não tinha condições nenhuma de fazer nenhum desses outros cursos grandes e conhecidos no Rio. Não tinha dinheiro, e eu dou graças a Deus por isso, por ter atravessado a minha rua, em Realengo, onde nasci e fui criado com muito orgulho, e ter ido até a secretaria da Lona e feito minha inscrição. Ali eu fiz os meus primeiros exercícios de teatro, esquetes, escrevi minhas primeiras histórias, comecei a entender que eu tinha facilidade para isso, para falar. Ali eu fiz parte da companhia teatral Atos e Atores, com o professor Eduardo Monteiro, onde fiz trabalhos também mais densos de drama, A Ópera do Malandro. E foi sensacional, tanto que eu sinto que a música despertou de uma maneira muito forte na minha vida depois do teatro por conta de todos os exercícios que a gente fazia. Então, a Lona é de uma importância gigantesca na minha vida, e eu tenho orgulho de dizer que tudo o que aprendi de teatro para ser o profissional que sou hoje, foi ali na Lona com o Professor Eduardo Monteiro.

Ser ator no Brasil não é fácil. Passou por muitos perrengues, chegou a pensar em desistir?

Muitas vezes! Cheguei a desistir de fato! Cheguei a montar uma loja de roupa junto com a minha mulher, porque não é fácil, uma hora você está em cartaz, na outra acabou o espetáculo, e precisa correr atrás de pauta. Enfim, é Brasil! A gente sabe o quanto é difícil! Passei por alguns perrengues, sim, daquele que você vai se apresentar e quando acaba, por conta do horário tarde, não tem condução para a volta. Às vezes, é difícil você ter que pegar um, dois, até três ônibus para conseguir chegar na sua casa. Ou arrumar uma carona para Realengo, quando todos os seus amigos tem carona para Ipanema, Copacabana. Então, são perrengues normais que se passam na vida, fora os testes. E eu sempre fui um cara que nunca passei num teste. No Porta dos Fundos eu entrei porque fui convidado. Depois, acabei passando em alguns testes, tipo a campanha da Antarctica. Mas antes, muitos e muitos 'nãos', da Globo, nunca passei.

Foto: Divulgação

Quando descobriu que seguiria mais na linha do humor?

Desde criança! Na escola eu sempre fui o cara que puxava tudo que você possa imaginar das músicas, da zoeira, todos ali já entendiam que eu tinha essa facilidade. Entrei no teatro pra fazer coisas mais densas, drama, queria estudar de fato isso, interpretar outras vidas, chorar, me emocionar. No entanto, nas esquetes de humor eu acabava me destacando naturalmente, porque eu acho que o meu perfil contribui muito. E eu sei que tenho um tempo de comédia natural. Vi que tinha essa facilidade, e a comédia flui de alguma maneira, me levando, e eu fui entrando nesse caminho, coisas de trabalho foram aparecendo e nunca mais larguei. Hoje, praticamente 90% coisas que eu faço são relacionadas à comédia.

Com tudo o que a gente vê por aí no Brasil, na política, e até mesmo nesse radicalismo todo de muitas pessoas, do 8 ou 80, está mais fácil ou mais difícil fazer humor?

Eu acho que o humor tem esse poder, né? Existem muitos comediantes brincando e tirando sarro disso tudo. Eu tenho feito o meu humor, e acho que existem milhões de temas em que é possível você não ofender ninguém e levar na boa. Óbvio que sempre vai ter alguém que não irá entender o seu humor até porque comédia é isso, é muita identificação. Não tem jeito, por mais que você faça uma coisa que pra 90% das pessoas é super tranquilo, leve, normal, outras 10% não vão entender. De fato a gente vive um momento muito delicado no Brasil, evito falar de política, tanto que no meu espetáculo de humor eu não comento. Mas também curto demais comediantes que conseguem falar isso de uma maneira que eu acho engraçada, óbvio que arriscada. Mas a comédia está aí pra tomar porrada, ser criticada, tanto que eu faço parte do Porta dos Fundos. Quer mais porrada que o Porta dos Fundos toma? Então, eu estou lá! O momento é delicado mas nem por isso tem que parar, acabar.

No espetáculo Eu Comigo Mesmo. Foto: Divulgação

Essa questão do politicamente correto já atrapalhou você em algum espetáculo?

Eu, naturalmente, tenho cuidado com algumas coisas, me preocupo, nunca me atrapalhou, pelo ao contrário. Eu já escutei algumas críticas nesses anos com o meu espetáculo Eu Comigo Mesmo. Eu tenho trabalhado nele e hoje cheguei num texto pronto, conciso, redondo, apesar de estar sempre em mudança. Escutei três ou quatro pessoas comentando sobre alguns detalhes nesse tempo e fiz questão de tirar, porque não atrapalhava em nada o espetáculo. E acho que fazia sentido. Consigo falar de milhares de outras coisas que não envolvem essas questões politicamente corretas. Acho que tem sido mais difícil, óbvio! Mas eu também acho que é bom que seja assim, que esse politicamente correto também tem ajudado a dar vozes a muitas coisas, pessoas, e que antes era piada. E hoje a gente entende que não tem graça nenhuma. Então, é questão de sensibilidade, de entender, tanto da parte de quem faz, e como da parte quem está vivendo aquilo.

Hoje existem muitos comediantes apresentando stand ups. Qual seria o diferencial do Rafael Portugal, Eu Comigo Mesmo?

Não sei se eu tenho um diferencial. Acho que eu sou diferente por ser o meu espetáculo Rafael Portugal. Mas eu acho que tá todo mundo fazendo humor, comédia, stand-up, contando histórias. Não tem muito diferencial, a gente faz a mesma coisa, porém com histórias diferentes. Você vai assistir ao Thiago Ventura e vai ver a mesma coisa, porém, ele contando as história e coisas da vida dele, que são muito engraçadas. O Afonso Padilha contando outras, o Rabim... E eu, Rafael Portugal, contando outras, acrescentando um violão talvez. Mas o Marcelo Marrom no show dele também tem violão, mas canta outras músicas. Eu tenho um convidado no palco, então, acho que o diferencial é particular. Acho que o intuito final é isso, tirar risos das pessoas, fazer graça para que, de alguma maneira, as pessoas tenham uma horinha de descanso diante de um país tão maluco.

Tem vontade de fazer mais papeis dramáticos?

Tenho muita vontade! Já fiz um há pouco tempo, aliás, é um filme que daqui a pouco eu vou falar sobre ele, que ainda vai ser lançado. Meu personagem é um enfermeiro, super dramático, dentro de um presídio, e eu amei ter feito. E logo eu vou poder falar mais dele, mas foi dramático, e eu já recebi outras propostas pra personagens mais densos, com histórias mais profundas e um viés todo voltado para o drama. E eu estou muito empolgado também.



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