Paulo Victor na trupe do musical Pippin: “Me descobri ator”

Campeão do Dancing Brasil, ele quer estudar teatro e lembra preconceito por dançar


  • 04 de outubro de 2018
Foto: And Marques


Por Luciana Marques

*Entrevista também disponível em vídeo, abaixo.

Pouco mais de um ano após sagrar-se o bailarino campeão da primeira temporada do Dancing Brasil, em 2017 – ao lado da atriz Maytê Piragibe –, Paulo Victor viu sua carreira dar um salto. E uma das oportunidades, o convite para fazer a audição para Pippin, foi agarrada com unhas e dentes. Paulo passou no teste, e hoje faz parte da trupe do aclamado musical, em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Rio, até o dia 21 de outubro.

A estreia nos palcos na montagem estrelada por nomes como Totia Meireles, Nicette Bruno, Adriana Garambone, Jonas Bloch e Felipe de Carolis tem mostrado a Paulo uma faceta sua que até então ele desconhecia. Além de dançar e fazer acrobacias, o dançarino também interage muito com o elenco durante todo o espetáculo. “Me descobri ator”, conta ele, que é pai de Olívia, de 5 meses. Sua meta agora é estudar teatro. E alguém duvida que ele vai longe?

Confira o papo descontraído de Paulo Victor com o ArteBlitz, em que ele lembra da fase, ainda criança, quando acompanhava a mãe nos bailes de serestas, do sonho de ser jogador de futebol, e do preconceito sofrido ao começar a fazer balé.

Em cena no musical Pippin com Totia Meireles e grande elenco. Foto: Dan Coelho

Como iniciou a sua ligação com a dança?

Na real, eu sempre fui envolvido com dança, mesmo sem saber. Minha família é muito festeira, e a gente tinha um clube de dança lá em Vitória que é da minha família e rolava muita seresta, pagode, forró essas coisas. E desde novo eu sempre acompanhava minha família, principalmente minha mãe é minha irmã nesses bailes da vida. E aí me dava sono, eu devia ter uns 9 anos, e minha mãe me colocava num colchonetezinho lá em cima pra dormir enquanto ela dançava a noite inteira. Quando terminava, me botava no colo e me levava embora. Só que antes de me dar sono eu ia lá e dançava um pouquinho com as amigas da minha mãe, tinha ciúmes da minha mãe dançando com a galera (risos). Então, querendo ou não eu sempre fui envolvido com esse lance de dança, só que nunca imaginei que eu ia me tornar bailarino profissional, e a vida me levou pra isso.

Rosamaria Murtinho, aos 82 anos, brilha no musical Isaura Garcia

Maytê Piragibe em nova fase como apresentadora: “Um renascimento”

Quando, efetivamente, você viu que seguiria profissionalmente a dança?

Joguei bola dos meus 6 aos 15 anos. Sempre quis ser jogador de futebol. O meu pai me incentivava muito, eu também queria, só que com 14 anos eu descobri a dança de salão. Um professor me chamou e falou: 'Paulo, vai lá fazer dança, você é muito talentoso, tem que investir nisso. E eu pensei: 'Ih, cara, dança é coisa de velho, não vou fazer isso não, minha mãe é que dança, esse negócio de seresta, de bolero. Não vou dançar isso não!'. E ele falou: 'Vai dançar, sim! Se você não gostar vai embora'. Falei: 'Tá bom! Beleza!' Fui lá, botei uma calça jeans, fui todo arrumadinho, cheguei lá, o bichinho da dança me picou e aí eu nunca mais sai.

Qual foi o seu primeiro trabalho como profissional?

Eu fui pra São Paulo com 19 anos. Comecei minha carreira com balé, contemporânea e jazz muito tarde, aos 18 anos, foi logo quando eu saí de casa pra morar sozinho. E aí eu comecei a fazer balé é coisa e tal, contemporâneo... E eu recebi uma proposta pra trabalhar em uma companhia profissional em São Paulo, e aí eu já saí com um ano de dança direto pra uma companhia. Foi minha primeira experiência profissional.

Foto: And Marques

Sofreu algum tipo de preconceito por fazer dança, balé?

Muito! Muito preconceito! Principalmente eu que vim do futebol. Então, na época que eu comecei a dançar que foi com dança de salão, era menos pior. A galera falava, ah tá dançando lá, Paulo dançarino. Me chamavam, não de bailarino, era 'bailarina'! E aí eu ficava meio constrangido. Até porque eu já tinha feito umas aulas de balé antes de fazer dança de salão quando eu tinha 14 anos. O professor falou que era bom eu fazer para ajeitar a postura, achei meio estranho, porque na minha cabeça balé era coisa de menina. Mas eu fiz uma aula, achei interessante, super me ajudou, e a galera começou a me zoar porque descobriu que eu também estava fazendo balé. Aí larguei aos 14 anos. Aos 18 voltei e falei assim: 'Cara, eu sei quem eu sou, meus pais me conhecem, e mesmo se eu fosse meus pais iriam me apoiar'. O importante é você saber quem você é, ter sua cabeça no lugar, e não importa o que as pessoas falem de você, se você é ou não é, o importante é o que você faz, você ser uma pessoa honesta, de caráter, isso é o que importa. Sofri bastante, mas graças a Deus deu tudo certo.

Qual a importância da dança na vida de uma pessoa?

Dança é importante pra tudo. É bom pra memória, condicionamento físico, articulações Eu sou outra pessoa desde quando comecei a dançar, disciplina. Eu tenho problema sério com relógio, e a dança me obriga a ter essa disciplina com o horário, e isso já vinha do futebol, do esporte. A dança querendo ou não, apesar de ser uma arte, também é um esporte, eu considero! Trabalha muita disciplina, o equilíbrio, o eixo, o condicionamento físico, é importante pra tudo! Qualquer idade.

Paulo dança com Raissa na terceira temporada do Dancing Brasil, no início do ano.

Como foi a experiência de participar do Dancing Brasil?

O Dancing foi um divisor de águas. A minha vida mudou muito depois do Dancing. Sou muito grato, principalmente pela bagagem, pelo profissional que o Dancing me tornou. Eu costumo dizer que eu entrei um menino mesmo, uma criança no programa. E apesar de nunca ter coreografado, já tive experiências coreográficas, mas nunca coreografei naquele nível, então o Ddancing me obrigou a ter uma maturidade que eu não tinha, profissional, sabe? Sempre me senti muito inseguro no meu trabalho, e o programa me mostrou que eu consigo, sim! Através de muito esforço, trabalho, dedicação, e também tem um lance de lidar com outra pessoa, não só com você. Isso me obrigou a ter mais maturidade, saber entender as limitações daquela pessoa, a as suas limitações também, porque você querendo ou não é ser humano. E eu era uma 'criança', sou até hoje, molecão! Sou meninão mesmo, brinco com as minhas artistas, falo besteira, é uma farra só na hora dos ensaios. Mas na hora de falar sério, eu falo! Sou bem caxias, ensaio muito! Trabalho muito! Acho que é isso que nas minhas duas participações, graças a Deus consegui levar minhas artistas pra final, trabalho puxado!

Em cena de Pippin. Foto: Dan Coelho

E como foi estrear agora no teatro, em um musical?

Esses ano de 2018 foi um ano de muitas mudanças pra mim, foi o ano do nascimento da minha filha, que pra mim foi a coisa mais importante que aconteceu na vida! Foi o meu segundo amor depois da minha mãe, e foi o Pippin, uma coisa que eu nunca fiz. Então, esse ano foi de muitas novidades, e eu quis tirar depois do programa como proveito. Vou fazer coisas que eu nunca fiz na minha vida. Eu iria fazer essa nova temporada do Dancing, porém não fiz porque eu decidi fazer o Pippin, mais por questão de experiência. Acho que nós artistas temos que nos alimentarmos disso, de arte. E não podemos parar de produzir, sabe? E fazer coisas diferente, estudar, acho que isso é ótimo pra qualquer artista. E eu quis fazer o musical pelo fato de nunca ter feito, pela curiosidade. E é muita gratidão poder trabalhar com esses artistas fenomenais, a Nicette Bruno, a Totia Meirelles, o Felipe de Carolis, o próprio Luís Felipe. Eu vejo aquele menino em cena e eu me vejo puxando a saia da minha mãe, querendo ir embora nos bailes das serestas. Ele tão novo e tão competente. Aprendi com todos ali. Então eu quis me dar essa oportunidade de vivenciar tudo isso, porque é necessário.

Como veio o convite?

E como esse ano eu tinha pensado em fazer coisas diferentes, eu comecei a fazer aulas de canto, pensei em fazer de sapateado. E nesse lance de fazer aulas de canto, acho que nada é por acaso, a gente joga pro universo e ele manda de volta, sim, quando a gente menos espera! Eu disse para alguns amigos que eu queria muito fazer aula de canto e pedi indicação de professores. E acabei fazendo com um rapaz, e no outro dia abro abro meu email, chega lá um convite pra eu adicionar o Pippin, aí eu falei: 'Caramba!' Que coincidência! Fiz a audição e passei, e hoje estou aí fazendo parte dessa trupe maravilhosa.

Pensa migrar agora também para a atuação?

Sim, esse ano eu pretendo fazer cursos e estudar mais teatro, porque depois que eu comecei a fazer o Pippin, eu me descobri ator, algo que eu não sabia que eu fazia. Preciso estudar, trabalhar, então, me deu uma vontade de investir nisso que é uma arte tão incrível. Quem sabe, né?

Agradecimento: Tea Shop Rio Design Barra. Av. das Américas, 7777 – Barra da Tijuca. Piso Térreo – loja 156.



Veja Também