Mouhamed Harfouch: “Homem de Lata foi meu grito de resistência e sobrevivência mental”

De sua casa e de forma remota, ator encena peça que faz refletir sobre machismo estrutural 


  • 05 de agosto de 2020
Foto: Divulgação


A pandemia do novo coronavírus tem causado um turbilhão de sentimentos nas pessoas, da tristeza, a dor e à desesperança. Mas o fato é que muita gente está usando esse momento crítico como agente transformador e de reinvenção. No caso do ator Mouhamed Harfouch, ele finalizou e estreou um projeto que já estava sendo desenvolvido: a peça Homem de Lata. “Foi meu grito de resistência e sobrevivência mental”, diz. Exibido de forma remota, o monólogo é apresentado na casa do próprio Mouhamed, onde ele vive com a mulher, Clarissa Eyer, e os filhos Ana Flor, de 8 anos, e Bento, de 4 anos.

Com texto dele e de Moisés Liprage, e direção de João Fonseca, a montagem mostra a viagem interna de Marcão, vivido pelo ator, em busca de respostas para seus questionamentos aflorados durante esse momento de isolamento social. “A peça nasceu da vontade de falar sobre este homem contemporâneo que precisa se livrar do machismo estrutural de nossa sociedade”, explica o ator. A transmissão das sessões, às sextas e sábados, às 21h30, acontece pela plataforma Sympla, onde são vendidos os ingressos a 20 reais. Parte da renda é revertida à APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio), que está com um fundo para ajudar profissionais desempregados nessa fase da pandemia.  

Como foi esse processo de criação de Homem de Lata? Estava somatizando tudo, sem energia e me sentido paralisado diante deste cenário tão opressor que é esta pandemia. Este projeto estava sendo pensando para estrearmos ainda este ano num teatro convencional. Eu, Moisés Liprage, o outro autor e João Fonseca, nosso diretor, já estávamos nos reunido e tínhamos chegado à conclusão que precisávamos criar uma situação limite para que o isolamento do Marcão, personagem da peça, fosse crível... Mas não achávamos, até vir a pandemia e nos mostrar esta realidade de isolamento para todos nós. Foi a certeza de que precisávamos reescrever a peça do zero, incorporando a pandemia e abraçando o desafio do #selfieteatro. 

E como foi escrever e ensaiar o espetáculo sem a presença da equipe e ainda tendo que administrar o espaço com a família? Uma gincana! (risos) Tudo virou superação, nada foi feito numa condição de normalidade. Mas esse era o desafio e topei! Foi muito difícil e ainda é. Estou um mês em cartaz e me sinto arrumando o teatro que hoje é o quarto das crianças, a Clarissa fica com eles enquanto faço a peça, quando termina, desmonto o cenário da peça e arrumo a cama das crianças, depois trago cada um no colo para dormir. Vejo poesia nisso tudo, me sinto vibrando uma energia criativa e faria tudo de novo se fosse preciso. Tenho visto colegas se aventurando neste formato e fico muito feliz e dou muita força! Precisamos estar juntos, criando, projetando para os dias melhores e para tornar estes dias também melhores! 

Os seus filhos e a sua esposa tiveram alguma participação no projeto? Sempre! Toda peça nasceu da vontade de falar sobre este homem contemporâneo que precisa se livrar do machismo estrutural de nossa sociedade e se reconectar com sua essência, sem os estereótipos do provedor, do macho alfa, do super-homem ou do Homem de ferro. Somos de Lata também. Esse projeto nasceu dentro de mim quando virei pai e o Moises me chegou com essa proposta de falar sobre a paternidade, no que vi então a possibilidade de falar sobre esse Homem quebrado e sua necessidade de reinvenção, de reconexão com sua sensibilidade e sua fraqueza. Minha família teve importância direta nisso. 

Estamos num período de incertezas sobre o futuro do teatro, das novelas, do cinema. Acha que trabalhos online se tornarão mais comuns, mesmo quando tudo “voltar ao normal”? Vejo como um novo caminhão para levarmos afeto e arte, não acho que supra o teatro físico, nem vejo nisso uma necessidade. Acho que veio para ficar e serão complementares, como o exemplo que tive na minha estreia quando vi gente do Brasil inteiro presente numa sala virtual e saudando uns aos outros e no final da sessão uma senhora do Recife me disse emocionada: “Essa é a primeira vez que vejo uma peça!” Tenho certeza, que ela gostou da experiência e assim que possível irá ao teatro físico. Olha o alcance desta ferramenta? Olha a possibilidade de levarmos o teatro a lugares onde não há inclusive um teatro. Veja que podemos estar em cartaz no Rio e uma pessoa em outro estado ou até mesmo outro país poderá ver de sua casa! Acho isto rico e por isso digo que podem dialogar e se complementarem. Acho pequeno, sobretudo neste momento onde os artistas tentam buscar uma saída, um caminho, tentarmos classificar ou criticar o veículo... É hora de darmos as mãos e incentivarmos. A história se encarregará de colocar tudo em seu lugar. 

Quais as vantagens e as desvantagens de um projeto online? A vantagem evidente neste momento é podermos nos comunicar e dialogar com nosso público. Levar nossa arte através de um meio seguro dentro deste caos que é a pandemia. Outra vantagem é que podemos levar nossa arte com um baixo custo e a qualquer canto e sem contar na possibilidade de nos reinventarmos e nos aventurarmos a dominar um espaço que é o futuro. As desvantagens é que nada substitui o calor humano, o templo do teatro e a comunhão que uma sessão presencial pode nos proporcionar... Mas o que fazer? Nos abatermos e esperarmos? Por quanto tempo? Já são 5 meses... Precisamos achar saídas e o #sefieteatro, para mim, foi uma delas.

Além de ter escrito, produzido e encenar, você faz a luz, o som, os efeitos especiais durante a peça.  Como tem sido essa experiência? É engraçado, mas a maioria das pessoas que veem fazendo, no final me dizem: Que coragem! (risos) Nunca pensei nisso. Mas entendo que esta coragem tem o nome de sobrevivência, e não digo nem só a financeira, digo a mental, a espiritual e até física. Arte para mim é algo que nos dá sentido à vida. Me sinto um profissional melhor na medida quem que saio da minha zona de conforto, em que tento me superar, aprender novas coisas, e neste momento escrever, produzir, interpretar 7 personagens e ainda operar trilha, luz e vídeo é a prova disso. (risos)

Parte da renda é revertida ao Fundo da APTR para profissionais do teatro que estão desempregados nesse momento. Como surgiu a ideia desse ato solidário? Homem de Lata nasceu da vontade de achar um caminho, buscar uma saída. Nossas primeiras sessões foram todas revertidas à APTR e até hoje, parte da renda também é revertida. E faço isso com orgulho porque a APTR está fazendo um trabalho belíssimo de apoio aos nossos colegas desamparados. Vi no #Selfieteatro uma oportunidade de colaborar com meu trabalho, uma oportunidade de levar entretenimento, afeto e também ajuda. Estou muito feliz por tudo isso!

Você estava com uma peça para estrear no Rio ao lado de Vera Fischer e da Larissa Maciel e ia viajar com Alexandra Richter com a turnê de A história de nós 2. O que pode falar desses projetos, serão retomados após o fim da quarentena? Sim, com certeza. Claro, somente com todos os protocolos de segurança para público e artistas. Tudo ainda muito incerto com relação a datas, mas seguimos firmes. Estava há duas semanas da estreia de "Quando for mãe quero amar desse jeito", já tínhamos cenário pronto e a peça a todo vapor nos ensaios, agora, quando recomeçarmos é praticamente tudo do zero novamente, pois são muitos meses sem ensaio. Já a peça com a Richter, "A história de nós 2", é mais fácil por estar pronta. É só retomarmos a turnê, o que dependerá das condições de segurança para sua realização. 

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