Marcelo Aquino emociona no monólogo Meus 200 Filhos

Ator vê peça sobre educador judeu polonês como "grito contra violência e intolerância"


  • 20 de setembro de 2018
Foto: Brunno Dantas


O ator Marcelo Aquino encara há dois meses a experiência de viver no teatro Janusz Korczak, pedagogo, pediatra e escritor judeu polonês, fundador e gestor do Orfanato Modelo, em Varsóvia, onde se dedicou durante 30 anos a formar e educar órfãos para enfrentar a vida. A montagem Meus 200 Filhos: Janusz Korczak tem texto de Miriam Halfim e direção de Ary Coslov.

Korczak viveu para cuidar dos pequenos, que amparou até a morte com eles, durante a Segunda Guerra Mundial, nas mãos de nazistas no campo de Treblinka, em 1942. Apesar do tema difícil, a peça, em cartaz até domingo no Centro Cultural Justiça Federal, no Centro do Rio, traz a abordagem visionária de Korczac pelo universo infantil.

Sua obra é fundamental e referência para educadores por evidenciar uma pedagogia diferenciada, sobretudo, por dar voz às crianças. Naquela época, ele já fazia críticas às escolas convencionais, por acreditar que elas eram tratadas como adultos pequenos, sem uma preocupação pedagógica para as necessidades características de cada faixa etária.

A atuação dele se traduzia em um modelo de educação não repressiva e de respeito à curiosidade infantil. Segundo ele, "Crianças lembram pássaros: às vezes pacíficos, outras, revoltosos; alguns mais fortes, outros, mais fracos e medrosos. Mas pássaros são sábios, não têm bússolas nem mapas e, no entanto atravessam rios, oceanos e montanhas, e chegam direitinho às suas aldeias e aos seus ninhos. Nunca duvidei disso"

Confira a entrevista com Aquino e corra até domingo para o teatro Centro Cultural Justiça Federal. A peça também terá nova temporada todas as quintas-feiras de outubro no Midrash Centro Cultural, no Leblon.

Foto: Brunno Dantas

Como recebeu o convite para interpretar Janusz Korczak?

A autora Mirian Halfim já havia convidado o diretor Ary Coslov para dirigir seu novo texto (Meus Duzentos Filhos). Lembro de ter ouvido ele falar muito empolgado sobre a sua leitura e a possibilidade de montar um espetáculo sobre a vida e a obra de Korczak (Um homem que eu até então não tinha noção de quem era). Ano passado fui convidado para realizar duas leituras do texto no MIDRASH, e foi onde tudo começou. A partir da leitura e da repercussão que teve junto ao público, é que surgiu em todos nós o desejo de apresentar para o mundo este homem e sua linda história. Recebi então, com muito prazer e preocupação, a difícil tarefa de interpretar o doutor Janusz.   

O espetáculo é bem dramático e tenso, como termina as apresentações? 

Cada trabalho tem suas especificidades. Neste, em especial, a escolha por uma atuação visceral, que pudesse dar conta de toda a carga dramática que a história exige, faz com que o corpo inteiro esteja muito comprometido com mais de uma hora de um espetáculo que transita por territórios de muita tensão e enfrentamento. Precisei passar por um intenso trabalho de preparação corporal com a diretora de movimento Ana Vitória, mesmo assim costumo dizer que preciso de um espaço de descompressão depois de toda a experiência em cena. Saio não só fisicamente cansado, mas também ainda um pouco tomado por toda aquela atmosfera de embate e trajetória emocional intensa.

Consegue deixar para vivenciar no teatro as emoções que interpreta? 

Eu não dissocio vida e arte, acho que está tudo muito imbricado. Nesta medida, o palco é como uma extensão da minha experiência no mundo. Em algumas propostas de encenação pode até funcionar este dispositivo de 'liga e desliga', ou seja, você vai lá, dá o texto e executa as marcas com técnica e está tudo certo. Mas em Meus 200 Filhos, uma experiência que exige um grau de verdade e intensidade vertiginosos, não tem como você operar somente na técnica. Este espetáculo é um manifesto, um grito, uma arena de denúncia sobre violência e intolerância, então mais do que um ator com técnica, esta proposta requisita um ator comprometido com o discurso, e isso não se dá só no palco, se dá na vida. O palco para mim é o espaço onde fazemos reverberar, onde potencializamos nossas relações de tensão no tempo e no espaço.

Foto: Brunno Dantas

E sobre a recepção do público... Muitos judeus foram vê-lo, especificamente entre eles, a comoção é maior?

Sem dúvida, tem sido uma experiência muito especial fazer este espetáculo que revisita um dos momentos mais tristes da história da humanidade, que foi a Segunda Guerra Mundial, dentro de um centro cultural judaico. Os judeus, por razões óbvias, têm uma relação bastante afetiva com a história de um homem que resistiu heroicamente a todos os horrores e atrocidades cometidos contra seus antepassados. Mas é muito universal a brava trajetória do doutor Janusz, independente de raça, etnia ou religiosidade. Esta é uma história sobre humanidade. A plateia tem saído muito emocionada do teatro e eu fico muito feliz em saber que, em alguma medida, estamos conseguindo tocar seus corações. Estamos propondo que, por alguns minutos, estejamos juntos, desconectados de nossas redes virtuais e dispositivos, para juntos pensarmos nosso tempo. É uma história triste, mas muito necessária nestes tempos tão duros que estamos atravessando.

Que paralelo traça entre a experiência dele e a dos professores no Rio de Janeiro?

É impressionante e muito triste imaginar que uma história de violência e privações ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial possa servir de metáfora para pensarmos a realidade dos nossos professores hoje. Não precisamos ir muito longe. Aqui, no Rio de Janeiro, temos nossos 'Guetos de Varsóvia', em comunidades absolutamente abandonadas pela mão de um estado que condena seres humanos a condições extremas de violência e desumanidade. Em um contexto de guerra contínua, no meio do fogo cruzado, temos escolas e professores que todos os dias enfrentam um calvário de lutas e enfrentamentos para que, de alguma forma, possam fazer a diferença no meio de uma guerra tão estúpida. Além do legado pedagógico revolucionário, o pedagogo Korczak de certa forma resiste nos corpos de professores que, apesar de todas a adversidades, acordam todos os dias com a missão de reinventar e remodelar o mundo.

Foto: Brunno Dantas

A visão de Janusz sobre as crianças permanece extremamente atual. Ela o impactou de alguma forma?

Também sou um educador, já estive em sala de aula e considero que meu trabalho como ator tem também a função de fazer refletir o mundo e contribuir para a formação de valores e conceitos. A pedagogia de Korczak é assustadoramente atual. Se nos conectarmos com a essência de seu pensamento, vamos ver que ele não fala nada muito complexo, seu pensamento é muito simples de ser replicado e está comprometido com palavras como amor, afeto, sensibilidade, escuta e respeito. O que me impactou e que vem impactando os espectadores de Meus 200 Filhos, infelizmente, é a capacidade que o homem tem de cometer violência e crueldade contra seres de sua própria espécie. Mas, felizmente, o que também me impacta todos os dias quando acaba o espetáculo, é a capacidade que o teatro tem de propor reflexão e transformação. Meus 200 Filhos, apesar de contar uma triste história de sobrevivência, é um sinal de alerta para a humanidade é um sopro de esperança e afeto em um mundo tão necessitado de luz.

Meus 200 Filhos. Até 23/09. Centro Cultural Justiça Federal – CCJF. Av. Rio Branco 241, Centro, Rio. Sex., sáb e dom., às 19h. R$ 40,00. Classificação Livre

Meus 200 Filhos. Todas as quintas-feiras de outubro. Às 20h30. Midrash Centro Cultural. Rua General Venâncio Flores, 184, Leblon, Rio. R$ 40,00. Classificação: Livre.



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