Hugo Bonemer sobre relação homoafetiva: “Feliz e em paz hoje"

Nome forte do teatro musical, ele atua no elogiado Yank! com o namorado, Conrado Helt


  • 16 de abril de 2018
Foto: Gabril Felix


Por Luciana Marques

Com mais de 30 trabalhos nos palcos, a maior parte deles no teatro musical, Hugo Bonemer tem marcado o seu nome como um dos principais atores do gênero no país. Ele já estrelou Hair, Rock in Rio, e agora está duplamente em cartaz, também como protagonista, em Ayrton Senna, em São Paulo, e Yank!, no Rio.

Em Yank!, espetáculo premiado dos irmãos norte-americanos Joseph e David Zellnik, o texto narra a história de amor entre dois homens, Stu, um correspondente de guerra, vivido por Hugo, e Mitch, um soldado do exército, papel de Conrado Helt. Tudo em plena Segunda Guerra Mundial, em que o ambiente era discriminador e homofóbico. A peça conta ainda com grande elenco.

Recentemente, de forma corajosa, mas sem nenhum alarde, Hugo assumiu o namoro com o parceiro de cena Conrado. “O texto fala tudo o que tenho vontade de falar agora. E trata da afetividade de um jeito tão bonito e tão simples”, ressalta. Conrado também falou em bate-papo aqui sobre o romance e a importância de não se renegar

Na entrevista exclusiva ao Portal ArteBlitz, Hugo, esse talentoso ator se diz agora “feliz e em paz”. E reitera que as pessoas não podem ter “medo de existir” ou “viver uma mentira”.

 

Hugo Bonemer e Conrado Helt em cena do musical Yank! em cartaz, no Teatro dos Quatro, no Rio

O que tem mais instigado você ao viver o Stu, de Yank!?

Quando eu li o texto de Yank! pela primeira vez, chorava compulsivamente. Eu fiquei muito emocionado mesmo, porque trata da afetividade de um jeito tão bonito e simples. E faz com que eu, como espectador, e também na história que eu estou fazendo, queira não complicar as coisas. Queira simplificar o mundo de alguma forma. Acho que a gente passa muito tempo olhando para o outro, tentando procurar o que faz a gente diferente um do outro. E no final das contas, é tão mais interessante a gente gastar o tempo falando do que faz a gente parecido. E como é uma história que fala de coragem, e aí eu falo, caramba, todo o mundo na vida, em algum momento, já virou e falou, eu preciso ter coragem para fazer alguma coisa... Seja no trabalho, no casamento, qualquer coisa. Todo o mundo em algum momento tem que ter coragem para se encontrar. E é o que acontece com esse personagem na peça.

E esse personagem acabou surgindo num momento especial também da sua vida, não é?

É, e ele veio coincidentemente num momento em que eu me sinto mais em paz para falar sobre esse assunto também. Então, já de alguns anos para cá deixou para mim de ser uma possibilidade de ser mentiroso. Quando falo mentiroso, sei que soa meio agressivo, porque se você ouvir as pessoas, elas vão ter mil motivos para não darem a cara a tapa. Mas eu acho que o medo é o maior deles, e viver a vida com medo é muito desgastante e muito cansativo. Então, se eu ficasse achando o tempo todo que eu vou ter medo de não trabalhar, de não ser amado, não ser querido, de ouvir as atrocidades que eu escuto as pessoas dizendo... Se eu tiver medo dos discursos de ódio, dos discursos daqueles que não são cristãos, porque o cristianismo fala de amor, de generosidade, não de obrigar as pessoas a serem infelizes. Então, se eu tivesse medo de de enfrentar, não no sentido de ter ódio, mas de falar sobre o assunto e também estar disposto a ouvir de volta.. Se eu não fizer isso, vou fazer o quê?

Foto: Gabriel Felix

No momento em que você assumiu a relação com o Conrado, pode nem perceber, mas acaba ajudando muita gente na mesma situação. Como foi o feedback disso tudo?

Eu me lembro, há um tempo, quando lia uma revista, os atores não falavam sobre serem gays, eles falavam sobre serem bissexuais. Pode ser verdade, mas me pareceu um passo intermediário, como que se falar que é bissexual fosse mais light, leve. E eu lembro de arrancar a página da revista e pensar, acho que eu sou igual a ele. E não contava para ninguém, porque escutava as pessoas tirarem sarro das outras. Mas uma coisa muito clara para mim é que antes de falar sobre sexualidade, existe um outro problema que a gente precisa resolver para ontem na sociedade. Que tem a ver com as mulheres, não os gays. Porque a maioria das coisas que queria fazer, diziam que era coisa de mulher no sentido pejorativo. Ouvi a palavra mulherzinha um milhão de vezes. Entendo o discurso feminista, ainda que muitas vezes, vindo com emoção, e é uma emoção de revolta. E é uma emoção que muitas vezes acho que não chega a mudar uma pessoa que está enraizada no pensamento machista. E esta pessoa precisa de um cuidado diferente. Mas acho a revolta correta. Porque antes de a gente falar de sexualidade, de homossexualidade ou de homoafetividade, a gente tem que falar de machismo. E isso acontece na peça.

O que você diria a pessoas que também vivem essa situação e temem se assumir?

O que eu estou dizendo é que eu não sei o que é a verdade absoluta. Eu só sei que eu sou como eu sou, eu nasci assim. E estou feliz e em paz hoje sendo quem eu sou. E a única coisa que eu posso dizer é que as pessoas não podem ter medo de existir, porque se começar a ter medo de existir, vai fazer o quê? Então, se você precisar lutar pelo seu espaço, conversar com a família, seja honesto, verdadeiro, tenha caráter, porque ninguém gosta de gente mentirosa. Tenha personalidade! Ninguém é perfeito, eu tenho um temperamento que eu não me aguento muitas vezes, eu falo um monte de merda, mas eu não quero ser mentiroso. Especialmente nesse momento do Brasil... eu queria que corrupto fosse o pior xingamento do mundo, e não viadinho, mulherzinha. Eu queria que as pessoas parassem de tratar a política como time de futebol e que fossem mais cristãs, no sentido real da palavra.

Hugo e o namorado, Conrado Helt, fazem par romântico em Yank!.  Foto: Reprodução Instagram

Na infância, você já demonstrava essa paixão pelo teatro, pelos musicais?

Cresci puxando o cenário das apresentações de dança da minha mãe, ela é bailarina, coreógrafa. Então, eu sempre achei o teatro um espaço muito natural para estar. Mesmo assim, os meus pais queriam que fosse dentista ou médico, como os pais de qualquer família na época. Eles entendiam que eram as profissiões que iam me deixar mais feliz, estável, financeiramente falando. Mas sempre gostei de estar no palco. E eu disse isso um dia para a minha mãe, e ela falou, continua estudando... Ela me contava também que os atores americanos tinham um estudo sobre a profissão de ator, que eles também cantavam, dançavam. Dizia que fazem malabarismo, são acrobatas fazem um pouco de tudo. E eu comecei a me interessar bastante, afinal, tinha uma bailarina em casa.

Você chegou a ter vontade de aprender a dançar na época?

Nunca fiz aula de dança porque não escapo do contexto social e histórico que vivi. Cresci num país que há um entendimento de que arte é coisa de menina. E nem incentiva as meninas suficiente para que elas sejam artistas. Mas não entende como a arte é catalisadora de paz, sobretudo, e de pensamento. Então, entendia que não era permitido que eu entrasse numa aula de dança. Minha mãe não falava nada, era uma questão social. Eu que falava, ah, não quero. Claro que eu queria! Eu podia ser um baita bailarino hoje e não fiz aula por causa de um machismo idiota. Me arrependo muito. Fui fazer aula de dança mais tarde.

Cena de Yank!. Foto: Michelle Felippelli

Uma fase você chegou a morar fora, é isso?

Eu era um adolescente recluso, muito tímido. Entendia a profissão de ator como sendo um lugar onde as pessoas extrovertidas fariam parte. Queria, então, ficar no meu mundo... Aí eu tive a oportunidade de fazer intercâmbio fora do país. Os meus pais receberam um adolescente em casa e uma família da Alemanha me recebeu. Morei um ano numa cidade chamada Bremen. Quando cheguei lá, vi que todos os meus amigos sabiam tocar instrumentos, cantavam, faziam parte do coro, e nem queriam seguir isso, hoje um é executivo... Mas a questão é que a educação básica era muito voltada para as artes. E eu lembro que numa aula a professora mostrou um quadro do Francis Bacon, e eu falei, quem vai querer ter isso na sala de casa, coisa horrorosa. E ela diss: 'Hugo, o objetivo da arte não é decorar a sua sala'. Foi meio um tapa na cara. Porque eu tinha uma ideia diferente do que era ser artista. Entendia que era um lugar só para entreter, é também, decorar, e para pessoas que tivesssem muita desenvoltura. Vi toda a escola se movimentar para fazer o musical Gipsy. Eu dizia, ah, nada a ver... Morrendo de vontade de fazer, mas eu não conseguia falar que queria.

E como foi a volta ao Brasil?

Voltei com aquilo na cabeça... Mas fui fazer faculdade de comércio exterior. Pensei, ah, vamos cumprir o check list da família. O que tenho que fazer para ser um bom filho, um bom cidadão. Aí fui fazer comércio exterior porque tinha muita facilidade com idioma. Falava inglês e espanhol e voltei do intercâmbio falando alemão. Trabalhei quatro anos numa empresa, só que ficava indo em grupos de teatro. E ncontrei o grupo Tapa, em São Paulo, onde morei, que eu amo até hoje de paixão. E lá eles souberam da audião para um musical com direção do José Possi Neto. E eu passei para ser o cara que substituiu todo o mundo, mas nunca está em cena. Ficava na coxia vendo os outros era um saco porque, queria estar lá no palco. Tinha que torcer para alguém pegar uma gripe (risos)

Foto: Gabriel Felix

Desde então, você tem quase 30 trabalhos, a maioria musicais, os últimos quase todos protagonistas. Como você avalia essa sua caminhada?

Eu nem me permito fazer uma avaliação positiva ou negativa nesse sentido porque a posição que você ocupa dentro de um espetáculo, ela é só mais. E a maioria dos que eu entrei para fazer audição, fui disposto a estar em qualquer função. Lembro que em Hair eu entrei todo 'cagado' para o teste. Não tinha levado nada que pediram... Quando fui para cantar, dizem que o Charles Möeller falou, canta, pelo amor de Deus. Porque tinha uma coisa de altura, de tipo de físico, de cor de pele e de cabelo, que aquele personagem precisava. Então, fui favorecido pelo famoso perfil. E é legal ter citado isso da cor da pele... Por isso a gente ouve muita gente falando, faltam personagens negros na dramaturgia, também mulheres mais importantes que não estejam só falando de homens e de bebês. Mas é um trabalho dos dramaturgos... Agora com o Ayrton Senna também, é evidente, eles me acharam fisicamente parecido. E eu fui capaz de atingir as notas dificílimas que o Cláudio Lins compôs. Então, nada é uma coisa só. Não posso nem dizer que faço tudo sozinho ou que é pelo meu mérito, mas, de novo, é um contexto histórico, onde muitos dos personagens são escritos para pessoas com perfil como o meu.

Yank! - O Musical. Até 02/05. Teatro dos Quatro. Shopping da Gávea. R. Marquês de São Vicente, 52, Gávea, Rio. Terças e quartas, às 20h. R$ 60,00. Duração: 130min. Classificação: 16 anos.



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